Carlos Reichenbach: “Existe uma crise mundial na produção de filmes, de certa forma causada pelas transformações tecnológicas”

em 4 de maio de 2009

Carlos Reichenbach, o Carlão, nasceu em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, no dia 14 de Junho de 1945. Cursou a Escola de Cinema de São Luiz, onde foi aluno de Luis Sérgio Person. Considerado um dos mais importantes realizadores paulistas, Reichenbach teve sua obra reconhecida internacionalmente em 1985 no Festival de Rotterdam, Holanda, onde participou com seus filmes por cinco anos consecutivos. Foi por duas vezes premiado pela Cinemateca Real de Bruxelas, recebeu com ALMA CORSÁRIA, o prêmio dos 30 anos do Festival do Novo Cinema de Pesaro. Em 2001, após ter sobrevivido a três infartos do miocárdio e ganhar três pontes de safena e uma mamária, foi o primeiro cineasta a receber o Troféu Eduardo Abelim, no 29° Festival de Gramado. Recebeu também o troféu Barroco, pela obra, na 3ª Mostra de Cinema Brasileiro de Tirandentes, Minas Gerais, e o troféu especial do Guarnicê de Cine-Vídeo, em São Luiz do Maranhão.Tem exercido, esporadicamente, a função de crítico e ensaísta em diversas publicações, assinou durante dois três duas prestigiadas colunas semanais de cinema em sites específicos, participado de inúmeros cursos e palestras sobre o filme brasileiro no Brasil e exterior, lecionou cursos de roteiro cinematográfico em diversos lugares, fez parte da diretoria e conselho de diversos órgãos de classe cinematográfica e foi, durante quatro anos, titular da cadeira de direção cinematográfica e “expressão em cinema e vídeo”, do curso de cinema e vídeo da Escola de Comunicações e Artes (ECA), da Universidade de São Paulo. Reichenbach mantém um blog sobre cinema e assuntos em geral, o Olhos Livres, e promove a Sessão do Comodoro no Cinesesc.

1. Por que filmes? Por que a sétima arte?

RESPOSTA – O polonês Jerzy Skolimowski costuma afirmar que o cinema é “o conglomerado de todas as artes”. É pintura, dramaturgia, literatura e música. É de todas as artes a que mais rapidamente nos coloca em contato com outras culturas. Apesar de uma sólida formação literária (sou neto, sobrinho e filho de editores) e – acredito – uma razoável formação musical (paguei meus estudos de cinema – nos anos 60 – como tecladista eventual), escolhi o cinema como meio de expressão pela sua abrangência e para sublimar minha total incompetência para o desenho e o traço. Acabei exercendo também as funções de operador de câmera e diretor de fotografia em mais de 30 longas metragens para satisfazer meu fascínio pelas artes plásticas.

2. Cinefilia é um tipo de estudo para entender e realizar cinema?

RESPOSTA – Inicialmente, a cinefilia não é uma ciência, mas a prática que é fruto da paixão pela linguagem do cinema. O verdadeiro cinéfilo é antes de tudo um garimpeiro. Sua meta é a prospecção isenta de preconceitos. A ciência surge quando o cinéfilo consegue detectar as pepitas autênticas, antes que elas sejam “oficializadas”. Nem todo cineasta é cinéfilo e poucos cinéfilos
se tornam cineastas.

3. O que é preciso para ser um diretor? Qual o diferencial? Você pode citar quais diretores ainda mexem com você depois de tantos anos?

RESPOSTA – O ideal seria que todo diretor soubesse dominar plenamente a gramática (ou a sintaxe) do cinema; que conhecesse (ou tivesse exercido em algum momento) profundamente todas as funções técnicas e artísticas de seu métier. Mas, na prática, sabemos que não é isso que acontece. Sinceramente, não levo a sério diretores que não tenham estudado com alguma profundidade história da arte, ciência política, literatura, filosofia, música erudita; que nunca tenham se interessado pelo teatro, pelas artes plásticas ou desenvolvido algum talento musical. Grandes diretores devem amar os atores como Joseph L. Mankiewicz e Elia Kazan, o teatro épico como Welles e Kurosawa, a filosofia como Carl Th. Dreyer, a ópera como Visconti e Bertolucci, o jazz como Clint Eastwood, o homem comum como Eisenstein e Pasolini, os grandes espaços como Anthony Mann, a aventura como Samuel Fuller e Howard Hawks, a poesia como Cocteau e Jean Renoir, a lenda como Mizoguchi, a música clássica como Jean Luc Godard ou o homem brasileiro como Humberto Mauro e Nelson Pereira dos Santos. De todos os grandes, o que mexe comigo – até hoje – é Fritz Lang; parafraseando Goard a respeito de Nicholas Ray (o poeta ecológico), Fritz Lang é o cinema.

4. Acredita que existe uma elite dominando o cinema brasileiro? Se existe: qual o impacto que ela causa na qualidade do que é produzido?

RESPOSTA – Não acho que exista uma elite (o que poderia pressupor qualidade), mas uma “filosofia” (fundamentada na política do borderô). Ora, essa é a política mais furada que existe. Pode-se falar – hoje – em cinema comercial, mas não existe mais o filme popular; pelo menos, não no sentido que existia até a década de 80, quando o cinema era acessível ao público C e D (que sempre foi fiel ao cinema brasileiro). Até o começo dos anos 80 o ingresso custava uma passagem de ônibus. O público C e D lotava as salas para ver os nossos “filmes de gênero”: a chanchada, o filme de cangaço, o policial urbano (colhido das manchetes dos jornais baratos), o musical caipira, as comédias eróticas, etc. Com o advento dos cinemas de shopping e o custo exorbitante do ingresso, esse público sumiu. Cinema comercial hoje nada tem de popular; se não é a “carta marcada” do best seller (que dá certo no mundo todo) e sucata ou contrafação da teve aberta. O resto é produção subvencionada (necessária, claro!) que é arremessada nas salas de cinema sem nenhum critério.

5. O que estamos vendo é mesmo um bloqueio criativo de Hollywood ou os remakes são mesmo só uma fase de saudosismo?

RESPOSTA – Existe uma crise mundial na produção de filmes, de certa forma causada pelas transformações tecnológicas. No Japão, a revolução digital (tanto na questão da captação, da finalização, quanto – e, sobretudo – na exibição) provocou a falência dos grandes estúdios como a Daiei ou a Toho. O cinema americano sentiu o golpe à sua maneira e até agora não conseguiu resolver qual o sistema de exibição vai adotar no futuro (em parte por não querer adotar o sistema ideal inventado pelos japoneses). Isso está se refletindo dramaticamente na qualidade dos filmes, que hoje são apenas uma parte do “evento cinematográfico”. Para dar certo, o filme precisa gerar outros produtos. O “remake” é efeito deste “fenômeno”.

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6. Um Certo Capitão Rodrigo, filme com de 1971, protagonista Francisco Di Franco, o gato da época, foi visto pelas gurias escondido dos pais e incentivado por professores, para que tivéssemos uma idéia melhor do cinema brasileiro, visto que fora o estilo já citado, havia o pastelão e os regionalistas. Hoje você consegue ver com distanciamento daquele tempo e os trabalhos que foram feitos, imagino. Quais as tendências e os interesses dos cineastas da época? Por trás existia uma critica ao falso moralismo da ditadura?

RESPOSTA – Inconscientemente, talvez. Havia – na época – uma censura muito rígida. De certa maneira, os filmes eróticos buscavam transgredir as rédeas da censura vigente. Era praxe, no início dos anos 70, se proibir todo filme que não explicitava sua posição política. Bastava mostrar seca e miséria, que a censura caia em cima. Filmes como ORGIA, OU O HOMEM QUE DEU CRIA, de João Silvério Trevisan (que eu fotografei) e REPÚBLICA DA TRAIÇÃO, de Carlos Ebert, foram vetados, porque não foram entendidos pelos censores. Na época, para que um filme brasileiro pudesse ser exibido nos cinemas (ou ser exportado), era necessário receber o “Certificado de Filme Brasileiro”; ora, quem emitia o tal certificado era justamente a Censura Federal! Um absurdo! Houve tanta reclamação que o governo mandou arrefecer a rigidez da censura. Foi nesta época que começaram a surgir as comédias de teor picante, inspiradas no sucesso de alguns filmes italianos (como MULHERES PERIGOSAS, ALTA INFIDELIDADE e O SUPERMACHO); assim surgiram sucessos estrondosos do cinema nacional como A VIÚVA VIRGEM, de Pedro Rovai e OS PAQUERAS, de Reginaldo Farias. Na esteira do sucesso deste dois filmes veio uma enxurrada de contrafações que nem a censura e nem o governo conseguiram segurar. O resto é história.

7. Em Falsa Loura, Alma Corsária e Filme Demência você invoca entidades para agir num mundo “real”, como musas citando alguma passagem da literatura. Você pensa nisso desde a concepção do roteiro? Como é o processo para invocar uma entidade (ou musa) numa cena chave?

RESPOSTA – Às vezes, essas “entidades” surgem no processo de escritura do roteiro, como forma de apresentar a minha “carta de intenções”. Em ALMA CORSÁRIA, a morte é mostrada como uma benção para o poeta tísico; uma mulher linda, vestida de negro, à beira do rio (numa assumida influência de Mizogushi. A presença do rio, como elemento que une e separa os personagens – como em ALMA CORSÁRIA e DOIS CÓRREGOS – é presença constante em Renoir e nos filmes mais poéticos de Mizogushi. Isso esteve sempre presente nos roteiros. Já em FALSA LOURA (as citações de Sócrates pela boca da “deusa oblíqua”) ou a súmula do discurso “irracionalista” de Oswald Spengler, pela boca do personagem fascistóide de Selton Mello (em GAROTAS DO ABC) surgiram alguns dias antes das filmagens, motivados pela necessidade que senti de subverter o andamento que estava se configurando. Em uma das melhores seqüências de LILIAN M, RELATÓRIO CONFIDENCIAL, de 1974, surpreendi um dos atores principais, um dia antes da filmagem, entregando duas páginas de diálogo para ele decorar; tratava-se de um famoso discurso de Rui Barbosa , em Haia, que o personagem repete deitado na esteira de uma sauna para homens. Em resumo, se em algum momento da filmagem me soar a impressão que a realização da obra está se prefigurando burocrática – ou mesmo careta – eu arrumo um jeito de colocá-la fora dos eixos. Como bem disse o poeta e editor anarquista Roberto das Neves, “é essencial cultivar sempre um mínimo de má reputação”.

8. Seus filmes espelham todos os seus fetiches: cinema (em Garotas do ABC há homenagem a Sganzerla e Fritz Lang), livros, vestais, etc. Você faz cinema para entender seu tempo e a si mesmo?

RESPOSTA – Sempre. O saudoso cine-poeta Sergio Bernardes Filho dizia que fazia filmes (que – infelizmente – muito poucos viram) para não enlouquecer. Eu concordo com número e grau. São vozes que ficam na sua cabeça, imagens que vem, somem e voltam a toda hora, tesões inesperados, sentimentos sublimados…. O filme só tem sentido quando é fruto de um dilaceramento, quando amplia minha forma de enxergar o mundo, os outros e a mim mesmo. “SYRIANA”, “GUERRA SEM CORTES”, “O ACOMPANHANTE”, “BOA DIA, NOITE”, “OS ANJOS EXTERMINADORES”, “A CIDADE DOS SONHOS”, “FINE DEAD GIRLS”, “ARRIVEDERCI, AMORE CIAO”, ‘SERRAS DA DESORDEM”, “CRIME DELICADO”, e o vídeo “ISTO É MEU E MORRERÁ COMIGO”, de Fabio Carvalho, são obras que me ajudaram a compreender a década que estamos vivendo.

9. Você gostaria de adaptar algum livro favorito para o cinema? Por quê?

RESPOSTA – Nunca pensei em adaptar livro nenhum para cinema porque o filme – para mim – começa no papel. Minha formação é literária e minha primeira ambição foi escrever. Acho, no entanto, acho que vários livros mereciam ser filmados. (não pó mim, especificamente). Se tivesse dinheiro eu iria produzir filmes. Seria fantástico ver Nelson Pereira dos Santos filmando Rosário Fusco (“O Dia do Juízo”) ou Walter Lima Junior adaptando Dyonélio Machado (“Passos Perdidos”). Eu produziria – com muito prazer – outros diretores (como Beto Brant, André Klotzel ou Hermano Penna) refilmando obras essenciais da dramaturgia paulistana de Abílio Pereira de Almeida, como “Paiol Velho” (sobre a decadência do café) e “Santa Marta Fabril” (sobre o boom da indústria têxtil); eles seriam capazes de “traduzir” cinematograficamente a importância e a excelência dramatúrgica destes textos. No entanto, eu estaria sendo hipócrita se não revelasse que, assim como Glauber Rocha, Jorge Bodanski e tantos outros, pensei seriamente em filmar um dia o nosso maior épico contemporâneo: KUARUP, de Antônio Callado. Mas o filme de Ruy Guerra serviu para atestar o velho e batido truísmo de que “grandes livros não costumam render grandes filmes”. As exceções de Nelson Pereira dos Santos (VIDAS SECAS e MEMÓRIAS DO CÁRCERE), Roberto Santos (AUGUSTO MATRAGA) e Leon Hirzmann (SÃO BERNARDO) parecem confirmar a regra. Aliás, não deixa de ser curioso que Graciliano Ramos tenha sido o escritor mais bem “compreendido” pelo cinema brasileiro.

10. O que podemos esperar do seu próximo projeto (Um Anjo Desarticulado)?

RESPOSTA – Não tenho a mínima idéia. Este tem sido o mais árduo roteiro que já escrevi. Foram oito anos de intensa prospecção no âmbito do pensamento teológico. Esbocei um rascunho do futuro longa no curta metragem EQUILÍBRIO E GRAÇA (2002). Há quatro meses atrás, por indicação do meu cardiologista (que é um erudito), mergulhei na leitura de Plotino e achei que tudo que havia escrito antes tinha pouca relevância. O livro de Gabriela Bal, “Silêncio e Contemplação”, tem sido uma benção e uma danação; por um lado, me abre generosamente a percepção para a “ciência” do silêncio; por outro, me obriga outras tantas leituras que só confirmam a dimensão da minha ignorância. UM ANJO DESARTICULADO fala justamente das nossas limitações em compreender o outro. Narra a história de um criador (um escultor e artista plástico) que há sete anos perdeu a inspiração, que vai ao interior de São Paulo para a missa de sétimo dia de seu melhor amigo. Como de hábito, o personagem chega atrasado. Do amigo falecido herda a incumbência de encontrar seu antigo professor no seminário; um teólogo que é dado como misteriosamente desaparecido. Em resumo, o filme narra a peregrinação de um artista que perdeu a inspiração em busca de um teólogo que perdeu a fé. Se puder, farei o filme com os dois atores de FILME DEMÊNCIA (Ênio Gonçalves e Emílio di Biasi), Aconteceu uma coisa curiosa na escritura deste roteiro. O enredo inicial nunca previu a presença de uma personagem feminina relevante e por vários anos nunca me dei por satisfeito com a seqüência chave do desfecho. Com a leitura de Plotino e a interferência de uma inesperada personagem feminina, o desfecho – de espantoso teor poético e erótico – se resolveu como por milagre. Ainda não dei o roteiro como fechado, mas estou chegando lá. De qualquer maneira, não acho que será um filme para grandes platéias. Conforme o resultado, após a filmagem e a montagem, espero que UM ANJO DESARTICULADO se aproxime da música de câmara para sensibilidades afinadas ou um oratório de Penderecki.

Meia: “Palavras e imagens…”
RESPOSTA – “Palavras e imagens = música; cinema.”

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Meia Palavra agradece Carlos Reichenbach pela imensa atenção que deu para nós e nossa Equipe deseja sorte em seu próximo projeto.

*Fotos fornecidas pelo entrevistado
** Biografia retirado do site oficial: http://www.olhoslivres.com

0 comentários para “Carlos Reichenbach: “Existe uma crise mundial na produção de filmes, de certa forma causada pelas transformações tecnológicas”

  1. “Fritz Lang é o cinema” — Certas indicações são muito bem-vindas. Recentemente o neo-noir tem pintado em nossas telas como em Amnésia, Batman Begins e Sin City, e o noir quem melhor o representa? Fritz Lang.

    Gostei muito de ele compartilhar com a gente o que está lendo e ainda tecer considerações, como:

    “… mergulhei na leitura de Plotino e achei que tudo que havia escrito antes tinha pouca relevância. O livro de Gabriela Bal, “Silêncio e Contemplação”, tem sido uma benção e uma danação; por um lado, me abre generosamente a percepção para a “ciência” do silêncio; por outro, me obriga outras tantas leituras que só confirmam a dimensão da minha ignorância. …”

    É uma alegria ler uma entrevista com respontas instigantes, que despertam a vontade de seguir as indicações.

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