Os irresponsáveis de Vila-Matas

em 29 de dezembro de 2009

drpasavento_gdeDesaparecer, suicidar-se, deixar de escrever. Essa tríade de ‘pulsões negativas’ é intimamente associada à obra do catalão Enrique Vila-Matas: publicados no Brasil, ‘Suicídios Exemplares’ e ‘Bartleby e Companhia’ são exemplos dos dois últimos. Em breve a Cosac-Naify lançará ‘Doutor Passavento’, que fecha a tríade. Mas, obviamente, Vila-Matas não teria o renome que tem se sua obra se resumisse a esses três temas. Na verdade, parte de seu reconhecimento deve-se a um quarto aspecto, a irresponsabilidade.

É ao redor da irresponsabilidade, mesmo que vista de ângulos ligeiramente diferentes, que se desenvolvem ‘Breve historia de la literatura portatil’ e ‘Hijos sin hijos’, ambos ainda sem tradução brasileira, mas disponíveis em português em edição lusitana).

‘Breve historia de la literatura portatil’ é, além de um elogio à irresponsabilidade, uma homenagem aos fundadores das vanguardas artísticas do século XX. Os escritores portáteis eram um grupo- os escritores Shandy; nome derivado de uma bebida inglesa, mistura de bitter com limonada- cujas obras deveriam, obrigatoriamente, ser miniaturizáveis, deveriam ter uma tensa convivência com o ‘outro’, serem solteiros eternos, não possuírem grandes ambições e terem uma sexualidade exacerbada. Alguns de seus membros: Blaise Cendrars, André Bretton, Tristam Tzara, Aleister Crowley, Jaques Rigaut. O grupo teve uma duração extremamente lábil, pois uma sociedade assim definida obrigatoriamente deveria durar pouco: no livro podemos acompanhar sua história completa, do início ao fim.

‘Hijos sin hijos’ é um volume de contos em que não se encontram grandes artistas, nem literatos: as personagens são pessoas comuns, filhos que decidem não ter filhos para que assim possam eternamente rebelarem-se contra seus pais, para que assim possam passar à margem da história. Grandes nadadores: o livro começa com a citação do diária de Kafka em que ele fala sobre o início da guerra: ‘Hoje a Alemanha invadiu a polônia. Durante a tarde, fui nadar com minha irmã.’

Kafka, aliás, pode ser considerado o grande ponto em comum dos dois livros- apesar de não ter levado uma vida desregrada como Rimbaud ou outros escritores, ele foi o eterno filho rebelde, foi o eterno incompreendido e incompreensivo. De modo mais explícito, é a inspiração para ‘Hijos sin hijos’, mas também figura em ‘Breve historia de la literatura portatil’, com uma de suas criações mais peculiares- o Odradek. A criatura mítica de forma impossível transforma-se na sombra, no demônio pessoal que persegue cada um dos escritores portáteis. Um fantasma, quiçá das responsabilidades abandonadas, dos deveres renegados.

São justamente esses fantasmas o grande charme desses livros. Vila-Matas, de certa forma, elogia a irresponsabilidade. A vida despreocupada e desapegada das imposições sociais. “Escrever é corrigir a vida, é a única coisa que nos protege das feridas e dos golpes da vida”, é o que costuma dizer, e é o que faz. Mas, ao mesmo tempo, deixa claro que os fantasmas sempres estarão lá, seja na forma de um Odradek- que pode ser a criatura descrita por Kafka, um doppelganger ou ainda Aleister Crowley- ou na forma da história, que sempre estará atrás dos homens, mesmo que eles não se importem.

COMENTE ESSE ARTIGO NO FÓRUM MEIA PALAVRA

Um comentário para “Os irresponsáveis de Vila-Matas

  1. Pingback: Sobre livros e canários | Posfácio

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.