2666 (Roberto Bolaño)

em 10 de janeiro de 2011

Informações

  • Autor: Roberto Bolaño
  • Tradutor: Eduardo Brandão
  • Editora: Companhia das Letras
  • Páginas: 854
  • Ano de Lançamento: 2010
  • Preço Sugerido: R$55,00

O ano de 2010 foi o ano de Roberto Bolaño no Brasil. Apesar de ter alguns livros já lançados em território tupiniquim, dentre eles Estrela Distante, Noturno do Chile, Os Detetives Selvagens, Putas Assassinas, Amuleto, foi em 2010 que chegou às livrarias, lançado pela Companhia das Letras e com tradução de Eduardo Brandão, 2666 – considerado por muitos a obra máxima do chileno.Reza a lenda que Bolaño queria que esse exemplar fosse dividido em cinco livros para poder garantir o sustento de seus filhos. No entanto, a família não respeitou tal desejo e lançou como um livro só. Seguindo o caminho contrário do que já foi publicado aqui no site (pela Anica ((A Parte dos Críticos)) ((A Parte de Amalfitano)) ((A Parte de Fate)) e pelo Tuca ((Primeira parte)) ((Outras partes)) ), resolvi fazer a resenha como um todo – de um livro de cinco capítulos gigantescos: A Parte dos Críticos, A Parte de Amalfitano, A Parte de Fate, A Parte dos Crimes e A Parte de Archimboldi.

A escrita de Bolaño flui na primeira parte de maneira cadenciada, aos poucos vamos descobrindo as manias de seus personagens – tradutores e admiradores de um escritor pouco conhecido até então chamado Benno von Archimboldi. Quando cito as manias quero dizer exatamente isso, através delas e das obsessões é que podemos enxergar os caminhos e as relações (que se estreitam a cada ano) que os personagens compostos por Bolaño seguirão. Uns apaixonados (como Pelletier e Espinoza), outros à beira da loucura (como Amalfitano), outros perdidos em seu meio (Liz Norton e Fate)

Só que esse caminho não é totalmente direto, o escritor nos leva a crer que irá revelar pistas e novos rumos (como o policial judiciário Juan de Dios que ignora seu trabalho quando encontra uma amante), mas na verdade desenha um labirinto que só percebemos quando nos encontramos de volta ao mesmo ponto – que pode te ligar ou não a novos lugares. Como se não bastasse, temos doses de ironia e humor ácido durante momentos de completa reflexão, de mortes, de declarações, sempre num espaço em que o leitor não espera.

Esse labirinto tem um discurso muito recorrente, em certo momento os críticos conhecem um aspirante a escritor que eles desprezam, sem refletir que o escritor que tanto estudam foi por muito tempo rejeitado por editoras do mundo e que agora, beirando os anos 2000, ele é cogitado para ganhar o Nobel. Amalfitano se vê triste quando encontra um farmacêutico e esse só lê os clássicos óbvios e curtos. Aliás, esse detalhe mostra uma ambigüidade persistente na obra de Bolaño: a arte como forma de mudar o mundo e consequentemente – e ironicamente – tão inútil quanto um laser instalado na Lua. Por mais que discutam e leiam muito, a literatura não evita golpes militares, não nos distrai ou acaba com as guerras. Nem mesmo Fate, que é jornalísta, consegue escrever um aide-mémoire para os crimes em Santa Teresa. Os personagens de Bolaño são fissurados e apaixonados por livros, suas referências saltam às páginas – nomes e mais nomes que para o leitor ocasional não causa a menor familiaridade – mas ele não perde a oportunidade de dizer o quanto a função da literatura é ambígua.

Eu sabia que escrever era inútil. Ou que só valia a pena se você estivesse disposto a escrever uma obra-prima. A maior parte dos escritores se engana ou brinca. Talvez enganar-se e brincar sejam a mesma coisa, duas faces da mesma moeda. Na realidade nunca deixamos de ser crianças, crianças monstruosas, cheias de machucados, de varizes, de furúnculos, de manchas na pele, mas as crianças afinal de contas, isto é, nunca deixamos de nos aferrar à vida pois que somos vida. Também se poderia dizer: somos teatro, somos música. Da mesma maneira, poucos são os escritores que renunciam. Brincamos de ser imortais. Nós nos enganamos no julgamento das nossas próprias obras e no julgamento sempre impreciso das obras dos outros. A gente se vê no Nobel, dizem os escritores, como quem diz: a gente se vê no inferno.

As pequenas ligações – minúsculas e algumas imperceptíveis da primeira vez – desse labirinto que ocorrem de capítulo em capítulo, na primeira parte Amalfitano é citado quase nos derradeiros parágrafos só que o leitor não quer saber dele, quer saber do homem que os críticos estão atrás, são imprescindíveis para ser degustar esse calhamaço chamado 2666. Todo o personagem tem algo ligado a outro que liga com outro assunto que liga a outro personagem, sejam atitudes, histórias que se cruzam em algum momento no passado ou no presente, falas, tudo que passa diante dos olhos do leitor contribui para a construção dos personagens.

E é nesse momento (ou em todos) que as coincidências mínimas vão se entrelaçando e um efeito dominó nos consome, quando chegamos à parte de Fate que é ligada a anterior através da filha de Amalfitano (outra coincidência é que Fate e Amalfitano carregam o primeiro nome idêntico: Oscar), que exerce um papel fundamental na parte que leva o nome do jornalista, e os assassinatos que ocorrem em Santa Teresa – meramente citados na primeira parte – são maiores que uma luta de boxe.

Assassinatos esses que se tornam personagens principais num capítulo voltado só para eles, soando como um jornalístico sensacionalista que exibe imagens chocantes antes, durante e depois de uma notícia sobre cachorros perdidos. Há também o desvio, quando uma história não é mais notícia (ou se torna repetitiva) aparecem outras, no caso as mulheres mortas perdem espaço para um sacrofóbico. Cheio de descrições sujas e pesadas, os crimes hediondos e a paisagem da arenosa Santa Teresa são sim personagens no começo e no desenrolar encontramos novos personagens como Juan Dios Martínez, Elvira Campos, Sergio González e um conhecido por leitores de Bolaño: Lalo Cura.

Ainda acho importante ressaltar que Bolaño como contista por excelência (comecei a ler o inédito no Brasil Llamadas Telefonicas) esse livro pode ser lido por partes sim, mas não necessariamente na ordem cronológica, a construção de cada capítulo permite que existam surpresas em qualquer sentido de leitura – afinal, o próprio escritor não queria que às 827 páginas fossem divididas em cinco livros?. E cada parte tem suas particularidades, na dos críticos os parágrafos parecem um diário contando ano a ano, a de Amalfitano como fluxo de consciência e a de Archimboldi como uma biografia.

Por mais que se fale desse gigante (de tamanho e conteúdo) o que importa é ter os culhões necessários para encará-lo. 2666 (afinal até esse título é um mistério) é a obra-prima de Bolaño e é uma obra-prima da literatura mundial: denso, engraçado, insano, assustador e viciante. Esse exemplar, provavelmente, não ficará no varal de ninguém.

Um comentário para “2666 (Roberto Bolaño)

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