Definições para David Foster Wallace (ou DFW é, dois-pontos)

em 5 de abril de 2011

David Foster Wallace (1962-2008)

Quando eu fui ler David Foster Wallace (atrasado, como sempre) foi por causa de uma dica do Cassiano Elek, hoje editor da Cosac, que na época assinava uma preciosa coluna na Folha em que falava, entre outras coisas, de lacunas do mercado editorial brasileiro. E lá ele comentava e meio que fazia uma propaganda do megacatatau Infinite Jest, de 1996. Isso foi em 2004… De lá pra cá eu li tudo do cara. Tudo que existe em português, tudo que existe publicado, tudo que ainda nem foi publicado mas que dá pra achar em sites, arquivos de áudio, vídeos de youtube. Onde for.

Na época eu estava metido no projeto-ulysses, de onde ainda não saí, e estava meio que desesperado pra tentar achar vida inteligente pós-joyceana. Pra me provar que a literatura tinha continuado etc… (é, eu andava meio xiita). Foi quando comecei a ler Gaddis, Pynchon e acima de tudo Wallace. De lá pra cá ele saiu da posição de autor cultuado especialmente por outros escritores (e por gente ligada de verdade, que nem o Elek), pra de mito de toda uma geração. O maior escritor americano do seu tempo u.s.w. De lá pra cá ele casou, fez muito sucesso, lançou mais uns livros e se matou, em 2008. Tio, então eu queria saber qual apito que esse cara toca/tocava. Pois vai.

Definições (ou: DFW é, dois-pontos)

1. O cara que os leitores passaram a chamar de Dê Efe Dábliu. Como se ele fosse uma instituição. E é…?

2. O cara que literarizou todo um campo “feio” do vocabulário e da sintaxe do inglês. Gírias, sim. Mas também todo um lado marketal, administrativo. Siglas, barras (como ali em cima). O cara que era capaz de abreviar como a.d. algo como “aspas digitais”, quando o personagem aspeia manualmente a própria fala.

3. O criador da conjunção composta. Como em: and then but so, ou e aí mas então, em começo de frase, na tentativa de imitar a pressa e o atabalhoamento do discurso oral.

4. O maior cultor da nota de rodapé como meio literário.

5. O cara que foi parando de usar todas essas coisas aí de cima na medida em que elas iam virando “marcas”, ou “moda”.

6. O sujeito que levou mais longe a mistura de bobagem e lirismo que caracteriza o melhor Pynchon (humor e profundidade, se você quiser).

7. O sujeito que mais usou um ferramental de filósofo (era a formação dele) pra produzir literatura nos tempos recentes.

8. Provavelmente o maior renovador da forma do ensaio no mundo americano das últimas décadas. (Recentemente um editor de uma revista disse que não passa um dia sem que ele receba uma proposta de “um olhar à la DFW” sobre tal ou qual tema.)

9. O maior e o mais desavergonhado dos humanistas da literatura contemporânea.

Livros

Sujeito deixou dois romances.

10. The Broom of the System, de 1987, que era o TCC dele! Ou seja, a monografia de conclusão do curso de redação criativa na universidade. Belíssimo romanção que tem desde uma cacatua (Vlad, o empalador) que de repente começa a recitar a bíblia, até uma intriga químico-industrial envolvendo um asilo de velhinhos e uma heroína de all-star. Mas, sério, se você realmente quiser saber qual a graça do livro, te recomendo dar uma lidinha em Wittgenstein…? Como assim, precisa Wittgenstein pra entender um livro que tem uma cacatua com nome de vampiro? Precisar não precisa. Mas que faz mais sentido, lá isso faz. Eis o mistério do homem.

11. Infinite Jest, 1996, o calhamaço de mais de 1000 páginas que fez a fama e a infâmia de DFW. Uma história alucinada sobre prodígios do tênis, drogas, dependências e etc. Dezenas de personagens impagáveis e inesquecíveis. Mas, acima de tudo, um livro com um tema, o nosso “vício” em prazer e entretenimento. O mcguffin do livro, por exemplo, é um filme (ou um “entretenimento”) chamado precisamente Infinite Jest, que pode existir, pode não existir, e que aparentemente é tão delirantemente interessante que faz com que seus espectadores fiquem presos à frente da tela, querendo nada além de reassistir o mesmo loop, até morrerem de inanição. Parece até que uma facção terrorista separatista canadense (sim) está usando o filme como arma contra membros da ONAN (pun intended), a Organização das Nações da América do Norte que, depois da Reconfiguração, fundiu todo o subcontinente em um único país e confirmou a centralidade dos antigos Estados Unidos, que agora usam grandes áreas do seu vizinho do norte, por exemplo, como depósito de lixo, catapultado até ali de grandes distâncias. O livro é complicado. Muita gente, muitos nomes, muitos enredos, muuuitas notas de rodapé, algumas com dezenas de páginas. Mas é, acima de tudo, simultaneamente divertidíssimo e dolorosíssimo. Símbolo? Tem um cara que, durante um assalto, é amarrado e amordaçado pelos ladrões. Mas ele está resfriadíssimo. Com o nariz entupido. E morre. Afogado em meleca…? Quase redefine “humor negro”. Aliás, boa parte da catástrofe que recai sobre um dos protagonistas (que realizou esse assalto) vem do fato de ele, em outro assalto, ter entrado numa casa e deixado tudo intocado. Somente pra mandar depois pro dono (um inimigo e sua futura perdição), uma foto em que ele estava com as escovas de dente da família (depois devidamente devolvidas ao armário) enfiadas no… Símbolos. É tudo bizarro. Engraçado mesmo. Mas “pare pra pensar” (a frase mais valiosa pro leitor de DFW), ou “ponha-se no lugar deles”… e aí tudo muda de figura.

12. The Pale King, que ele deixou incompleto ao morrer, e que sai daqui a poucos dias. E que aparentemente era, como IJ pretendia ser um livro triste sobre vícios, um livro lento sobre tédio.

Três livros de contos

13. Girl with curious hair, 1989, que é a coisa mais próxima da “ortodoxia” pós-moderna em toda a produção dele. Excelentes momentos. Mas o livro mais fraco do autor. Não se engane, no entanto, o mais fraco dele ainda tem muita coisa a oferecer. E alguns dos contos são simplesmente sublimes.

14. Brief interviews with hideous men, 1999. Já se disse que ele tendia a experimentar mais com formas narrativas nos contos que nos romances (o que, aliás, faz sentido pacas, né?), e esse livro, posterior a IJ é também muito mais póich-muderrno. Há contos de todo tipo, desde uma entrada fictícia de dicionário, a um miniconto de meia página. Narrativas mais “ortodoxas”, como o perfeito (sim, eu pensei bem antes de escolher o adjetivo) “Forever overhead”, mais alegóricas como a bizarra (e recentemente transformada em ópera) “Tri-Stan: I sold Sissee Nar to Ecko”, que é uma reencanação do mito de narciso, num futuro distante, no mundo das cadeias de televisão, e de todos os jeitos do meio do caminho. Dois grandes destaques. A série que dá nome ao livro (e ao filme, recente, beeem bacaninha), em que diversos anônimos falam aparentemente para uma entrevistadora, cujas réplicas são suprimidas, sobre assuntos variados. Tem coisa épica nesse grupo. Além de um dos contos mais humana, filosófica e epistemologicamente fodidos que eu já li, em que o narrador trata da obra de Viktor Frankl e narra um estupro com uma garrafa. De te mudar mesmo. Pra tudo. Outro (destaque). A incrível meta-meta-estória de “Octet”, em que o autor – e não “um” autor – tenta questionar até as meta-estórias pós-modernas típicas, tenta desesperadamente falar com você.

15. Oblivion, 2004. O melhor livro de contos que você pode ler em muito tempo. Vai por mim. Quase todo o aparato meta-pós-isso-aquilo foi posto de lado em nome de contos tremendamente tocantes, realizados com uma prosa luminosa. Ele continua usando o bizarro misturado com o quotidiano (o cara que faz cocô em forma de estátuas famosas e os reality shows de uma empresa, sim, pasme, brasileira). Mas agora de uma forma muito mais concentrada no efeito sobre o leitor, e muito menos na experimentação formal. Difícil escolher destaques. Mas “The soul is not a smithy” é uma verdadeira joia. Assim como o brevíssimo “Incarnations of burned children”. O melhor livro que ele deixou, e que parecia apontar pra um caminho ainda mais foda, ainda mais preciso que o do romance anterior.

16. Nota: de todos esses livros citados até aqui, só Breves entrevistas com homens hediondos saiu no Brasil. Pela Companhia das letras. Alguma outra coisa é encontrável na internet. Na não-ficção vamos por partes.

17. Primeiro, os dois livros de coletâneas de ensaios (a mesma Companhia das Letras prepara pro ano que vem uma seleção de ensaios traduzidos por Danieis Galera e Pellizzari). A supposedly fun thing I’ll never do again, 1997, e Consider the lobster, 2005. Esses ensaios são quase mais empolgantes que a ficção. Parece que era aqui que o cara achava o tom entre a reflexão filosófica, humanística e a diversão com vozes, prosas e registros, de um jeito ainda mais poderoso. Os temas mais improváveis e mais singulares, abordados por uma persona ensaística que parece o irmão-prodígio de Woody Allen. Pra qualquer leitor. Leia tipo já. Ria um monte. Pense demais.

18. Um livro, Signifying rappers, 1990, com um colega de faculdade, que ainda hoje é considerado um dos primeiros destaques acadêmicos sobre o hip-hop. Mas esse eu não li. Viu? E ainda menti lá em cima.

19. Dois livros acadêmicos, Fate, time and language, que saiu no ano passado e publica o outro TCC dele, em filosofia. Lógica modal. Mais pra quem é do ramo.

E Everything and more, um livrinho sobre o conceito de infinito que é o livro de vulgarização científica mais divertido que eu já vi. Dizem que a matemática é meio furada, mas a prosa… É como ter aula com um matemático alucinado, aquele cara bacanão que você sonhava que podia existir quando estavam tentando te ensinar radiciação…

20. Um outro póstumo, singularíssimo, This is water, que na verdade é a transcrição em livro de um discurso de formatura que ele fez em 2005. É provavelmente a melhor coisa pra você ver se quer se aventurar por essa ficção mais madura do cara. Por aqui, saiu publicado na revista Piauí. E acho que ainda dá pra encontrar online facinho. Montaigne na veia. De um jeito muito cool. Uma puta aula sobre como ser no mundo.

Juízo

21. Tenha.

22. Cê gosta de ficção? Leia. Cê gosta de ficção inventiva formalmente? Leia mesmo. Cê gosta de ser obrigado a pensar? Leia correndo (ou andando). Cê quer saber se existia vida inteligente na literatura dos anos 90/2000? Leia, ah.. leia.

Cê quer saber se consegue ficar comovida e inconformada com a morte de um cara que você nunca conheceu?

Sobre o autor: Caetano Waldrigues Galindo 1 é professor de linguística e tradução no curso de Letras da Universidade Federal do Paraná e é responsável pela nova tradução da obra Ulysses de James Joyce que será lançado em 2012 pela Penguin-Companhia das Letras. Quando o Ulysses for publicado, dependendo do jeito de contar, será algo como o 15o-20o livro de outras pessoas que ele já escreveu.

  1.  confira aqui o 10 perguntas e meia com Caetano W. Galindo

22 comentários para “Definições para David Foster Wallace (ou DFW é, dois-pontos)

  1. Conhecia DFW apenas do pavoroso filme dirigido por John Krasinski em 2009, Brief Interviews with Hideous Men, com o qual ele deve ter pouco a ver pois já estava morto desde 2008. Daí, lendo esta matéria, meio joyceanamente escrita (pode ser ou não um elogio), achei que DFW fosse mesmo um escritor hermético, desses que escrevem para outros escritores ou críticos. Mas não desisti e fui conferir no site da Companhia das Letras o conto PARA SEMPRE EM CIMA, do livro BREVES ENTREVISTAS COM HOMENS HEDIONDOS, e que surpresa: ele é tremendamente bem-humorado e comunicativo! Leio bastante mas não sou expert em nada, então me pareceu que, pelo menos nesse conto, DFW está mais próximo de J. D. Salinger do que da turma que escreve “em mandarim”, como diz Nick Hornby em FRENESI POLISSILÁBICO. Mas pode ser que eu esteja completamente enganado a respeito de DFW e também de outras coisas…

    • Ele consegue ser bem humorado, mas irônico, ácido e muitas vezes bem cru. Tudo isso é muito bom e transforma a leitura dos contos e ensaios um verdadeiro deleite.

      • Pois é, rapaz. Até fiquei com vontade de comprar o livro, mas custa “apenas” R$ 62,00 (no site da Companhia das Letras). Vou esperar que um dia apareça no site TrocandoLivros e eu possa pegá-lo então.

    • Caro Jair….Achei teu comentário ilário…
      Também gosto de ler bastante, tipo andar com 2 livroa na bolsa, para caso acabe um no metro, logo saco o próximo…Não conheço o cara, mas acabei me interessando pelo artigo também e estou procurando mais para saber se merece que eu retire dos meus cofres algum dinheiro para investir no livro dele. Agora mais ainda, depois que ele pode ser do time dos escritores que são almplamente cultuados, mas que nós, (eu) pobre mortal não consegue ler um paragrafo de forma a compreender o que quer dizer…(FRENESI POLISSILÁBICO) Ótimo isso, embora não saiba o que seja exatamente….
      Dia desses comprei o Ulysses do Joyce, ta na minha mesa…olho pra ele e logo pego outro livro para ler…Será que é possível um ser humano comum lê-lo?

      [ ]

      Náufrago da Ilha

      • Naufrago, é possível ler Ulysses sim. É um livro divertido (uma comédia sobre o cotidiano acima de tudo).

        Quanto ao DFW, se quiser ler em português, tem o Breves entrevistas com homens hediondos que resenhei hoje para o Meia Palavra. Em inglês, alem do calhamaço Infinite Jest, tem Broom of the system (ainda não li). Li Consider the Lobster que tem uma linguagem mais jornalística e com notas de rodapé impagáveis.

      • Náufrago: do Joyce li os contos de Dublinenses e o Retrato do Artista Quando Jovem (2 vezes, esse); perfeitos. Já o Ulisses fiz duas tentativas e desisti logo nas primeiras páginas. Talvez faça um terceira ainda, quando sair a nova edição pela Penguin/Cia. das Letras, mas não sei. Quanto ao Nick Hornby, autores que escrevem em mandarim são aqueles que não estão preocupados se vão ou não ser entendidos pelos leitores; são dados a experimentalismos de linguagem, como o Joyce, o Faulkner, o Pynchon, etc. E certamente o Finnegan Wake do Joyce é, para Hornby, um desses livros incompreensíveis, senão o mais. Aliás, fiz uma brincadeira hilária com o Joyce e o Marcel Proust em meu blog de cultura e humor (são as postagens 02 e 33, de março/2011); caso queira conferi-las o endereço é: http://postagensebagagens.blogspot.com/

  2. pips, só faltou o roteiro d leitura do dfw pra os newbas. começamos pelos contos, romances, filmes, referências ou o inverso?

    • Eu comecei pelos ensaios e não me arrependi. Consider the lobster é incrível. Eu recomendaria que todos começassem pelos contos de Breves entrevistas, porque mistura todos os narradores do DFW, ou seja, se gostar pode partir para o resto.

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  6. Em Portugal David Foster Wallace vai ser lançado em Novembro. É um dos escritores que sempre me deixou curioso, mas perguntava-me porque é que raio é que nunca foi edito em Português! Até que enfim a Quetzal (editora) decidiu realizar a façanha. Sinto que vai ser um bom livro. Sinto que Infinite Jest vai ser um bom livro, assim o espero. Calhamaços como 2666 ou Liberdade nunca me deixaram decepcionados.

    • Boa pergunta Sérgio. No Brasil, até o momento, temos apenas o Breves entrevistas com homens hediondos. Devo estar falando besteira, mas o livro não teve uma vendagem muito boa e traduzir IF requer um grande investimento. Acho que após a morte do DFW e o crescente interesse dos brasileiros, a editora resolveu apostar. Agora em outubro sai uma coletânea de não-ficção do DFW e está em andamento a tradução de Infinite Jest, pelo Galindo, que escreveu esse artigo para nós.

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  8. Eu fiquei arrebatado quando, no IF, ele escreve sobre a capacidade que o Samizdat tem de não apresentar níveis de saciedade crescentemente decrescentes. Toda a terminologia para descrever a questão de saciedade e aumento da utilidade marginal, passando até pelas partes onde o Pemulis demonstra sua intrepretação de como compreender os problemas do Hal via conceito de derivada (do leibneiz e do newton —putaquepariu!!!!), é inacreditávelmente coerente com a microeconomia mainstream!

    Acho que foi aqui mesmo no pósfacio que disseram que o DFW escreve como se fosse um velho amigo. Depois de ter lido esse trechos “econômicos” meu bateu uma puta saudade do meu antigo professor de econometria!

    Valeu pelo artigo—ansioso para conferir a tradução!

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