A Mente Cativa (Czesław Miłosz)

em 11 de fevereiro de 2012

Hoje em dia são mais ou menos óbvios os problemas que se apresentavam àquele que enveredava pelo caminho da criação literária à leste da Cortina de Ferro: o dilema entre sacrificar a integridade artística e, por vezes, moral, em troca de ser publicado, ou, em alguns casos, da própria vida. Apesar disso, o problema está longe de ser solucionado: qual teria sido a postura correta? Teria existido isso de ‘postura correta’? Os escritores que se curvaram aos ditames do Comitê Central do Partido Comunista da URSS o fizeram por alguma falha moral ou por uma crença cega e obstinada  no futuro da humanidade sob o socialismo?

Como toda questão humana, provavelmente não existe uma resposta exata, não existe uma só resposta e, possivelmente, nunca exista uma resposta. O poeta polonês Czesław Miłosz, no entanto,  tentou. De uma perspectiva privilegiada, aliás: em 1951 ele havia acabado de romper com o regime comunista de seu país, buscando asilo político na França. Dois anos depois ele escreveu A mente cativa, em que retrata a condição dos intelectuais, e dos literatos em especial, nas repúblicas democráticas – aqueles países que oficialmente não eram parte da União Soviética, mas cujos governos obedeciam Moscou praticamente sem questionamentos.

O livro começa com o capítulo chamado ‘As pílulas de Murti-Bing’, em que ele referencia o livro Insaciabilidade, de seu compatriota Stanisław Ignacy Witkiewicz – também conhecido por Witkacy. No livro as tais pílulas são capazes de tornar os homens felizes, livrando-os de quaisquer aflições metafísicas. Isso, porém, acabava com a criatividade, minando a arte e a literatura. Miłosz explicita as pílulas como uma metáfora para as promessas de bem estar do comunismo – mas é mais ou menos claro que poderia, igualmente, servir para o consumismo ocidental.

Seguem-se mais dois capítulos que também têm um que introdutório: ‘Fitando o oeste’ e ‘Ketman’. No primeiro desses, como indicado pelo título, o autor dá um panorama geral de como as pessoas, e, novamente, principalmente os intelectuais, enxergavam o mundo capitalista. No capítulo seguinte ele define e classifica em oito tipos o ketman, prática nascida com um filósofo islâmico e amplamente difundida no mundo soviético, que consiste em disfarçar suas opiniões pessoais, de modo a parecer que se está em concordância com o sistema, enquanto se permite a indulgência privada em opiniões díspares.

Chegamos, então, à parte central do livro, em que ele usa exemplos práticos para explicar seu ponto de vista. Ele lança mão dos casos de quatro escritores, todos que conheceu pessoalmente. São eles Alfa, o moralista, que é Jerzy Andrzejewski; Beta, o amante desapontado, codinome que Miłosz dá para Tadeusz Borowski; Gamma, o escravo da história, onde fala sobre Jerzy Putrament; e, finalmente, Delta, o trovador, ou Konstanty Ildefons Gałczyński. Cada um deles cedeu ao regime soviético de uma maneira diversa, e por variados motivos.

No oitavo, e penúltimo, capítulo, ‘O homem, esse inimigo’, ele fala sobre como a consciência é capaz de aprisionar os homens, impedindo que escapem ao sistema em que se encontram, por mais que tenham objeções morais aos que foi feito em nome da ideologia sob a qual vivem, e pela qual escrevem. Por fim, em ‘A lição dos Bálticos’ ele lança um olhar cheio de uma tristeza saudosa sobre a situação das repúblicas Bálticas – lembremos que Czesław Miłosz nasceu e passou toda sua infância na Lituânia.

 A mente cativa é um relato contundente sobre a realidade dos escritores na Europa centro-oriental, tão importante quanto os de Joseph Bródsky ou Aleksandr Solzhenitskyn. Certamente é uma obra parcial, apesar de Miłosz não encaixar-se exatamente como pró-Ocidente e muito menos como pró-Rússia.

É um livro icônico de seu pensamento, mas não de sua obra. A escrita é bastante fluída, com pequenos problemas ocasionados por uma tradução demasiado transparente, em que se podem entrever estrutura e expressões que são eficazes em polonês mas que no português causam estranhamento. Sua obra poética e ficcional, no entanto, oferece uma leitura menos tortuosa.

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