O livro de Praga – Narrativas de amor e arte (Sérgio Sant’Anna)

em 24 de abril de 2012

O borbulhar do gênio

Uma leitura de O livro de Praga – narrativas de amor e arte ou porque Sérgio Sant’Anna é o maior escritor brasileiro vivo.

Vencedor de inúmeros prêmios e, bem mais importante que isso, dono de uma obra sólida que desde o primeiro livro apresenta um projeto literário de uma complexidade poucas vezes vista na literatura brasileira, Sérgio Sant’Anna é um nome certo quando se fala de literatura brasileira contemporânea. Alguns dos melhores jovens autores em atividade no Brasil, inclusive, admitem a forte influência e admiração por sua incontornável obra, que abriu muitos dos caminhos trilhados hoje pela literatura feita no Brasil.

Sérgio foi um dos escritores convidados a participar do polêmico projeto Amores Expressos, ao lado de autores representativos na nova geração da prosa brasileira, como Daniel Galera e João Paulo Cuenca. O destino de Sant’Anna foi Praga, na República Tcheca, e o volume resultante dessa viagem, O livro de Praga – narrativas de amor e arte (Companhia das Letras, 2011), surpreende, primeiramente, pelo seu formato. Não é um romance, mas também não é exatamente um livro de contos. Como o próprio título diz e o autor faz questão de salientar em entrevistas, são narrativas, que guardam sim um centro comum e uma determinada linearidade, mas que de certo modo também são independentes entre si.

Sérgio não só continua investindo na metaficção e no questionamento da representação, características que marcam sua obra desde, principalmente, O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro (1984), mas também transcende certas estratégias anteriores. Se antes ele questionava a representação da realidade através da literatura e, muitas vezes, se colocava como “o autor” ou “o contista” dentro de suas narrativas, em O livro de Praga não só constrói mais uma vez a história de um escritor, como explicita na própria narrativa a dinâmica do projeto dentro do qual estava envolvido e para o qual o livro foi escrito, o que pode ser percebido já no primeiro texto do livro, “A pianista”. Nessa narrativa, o protagonista Antonio Fernandes deseja comparecer ao concerto de uma misteriosa musicista e para isso precisa, além de pagar uma altíssima quantia, ser previamente aprovado pela pianista em questão. Ele revela então ao assessor desta que sua estada em Praga é “patrocinada”, do mesmo modo que foi a estada do próprio Sérgio Sant’Anna e dos outros autores participantes do projeto:

– Bem, senhor Fernandes (…), desculpe-me, é preciso informar tudo. O senhor recebe um patrocínio para quê?

Percebi que ele me tratava com um pouco mais de deferência e aproveitei a deixa:

 – Faço parte de um projeto privado que envia escritores brasileiros a várias cidades do mundo, como Pequim, Tóquio, Cairo, fora as de sempre, Berlim, Paris, Nova York, para escreverem histórias de amor ambientadas na cidade que coube a cada um. Para mim foi designada Praga e fiquei muito feliz com isso. Me interessa tudo na cidade, inclusive as manifestações artísticas, como esse concerto. A música desperta fantasias sobre as quais se pode escrever, inclusive fantasias amorosas, ainda que de um amor platônico, da alma.

São outras as ocorrências dessas estratégias ao longo de O livro de Praga. E em um trecho da primeira versão de uma das narrativas, que saiu na revista Granta em 2009, o protagonista inclusive não se chamava Antônio Fernandes e sim Serge.

As referências também aparecem como linha temática importante dentro da obra. A obsessão com as artes plásticas, que em vários momentos anteriores da obra de Sant’Anna aparecia na forma de referências ao pintor americano Edward Hopper, agora dá as caras, já no primeiro conto do livro, por meio de uma cena passada em uma exposição de Andy Warhol. Outras várias referências musicais, históricas e literárias permeiam o livro como, por exemplo, a quase obrigatória presença do escritor tcheco Franz Kafka, que se dá em “O texto tatuado”, narrativa na qual um personagem apresenta ao protagonista a oportunidade de contemplar “fragmentos de um texto desconhecido de Kafka, tatuados com letras fosforescentes no corpo de minha irmã gêmea nua”. Autores como Fernando Pessoa e Lewis Carrol também pertencem ao repertório acessado por Sant’Anna no decorrer da narração, além de nomes da música clássica e escultores, entre outros.

Presente ao longo de todas as narrativas, a sexualidade é também característica marcante do livro de Sant’Anna. Se o compromisso dos autores do projeto Amores Expressos era escrever uma história de amor, Sérgio optou por um caminho um pouco diferente ao centrar as narrativas em aspectos e descrições eróticas, algumas inclusive bastante explícitas. “A pianista”, por exemplo, pode ser vista como uma história sobre sexo e arte, enquanto “A suicida” expõe os contornos da relação sexo e morte. Já “A crucificação” foca o sexo e a religião, mas até mesmo o sexo reduzido a sua mecânica, desprovido de contextualização e sentido aparente, aparece no livro em “A tenente”.

Mantendo uma linha narrativa que parece procurar tornar o texto o mais próximo possível do que se convenciona como realidade, por meio das estratégias metaficcionais, Sant’Anna construiu uma obra bastante obscura e inverossímil, o que à primeira vista pode parecer uma contradição. Entretanto, é justamente através desse impasse que o autor vai além do que poderia ser a simples realidade narrada através dos fatos de uma determinada história. Colocando um personagem muito próximo de si mesmo dentro de uma narrativa sombria, Sant’Anna questiona o próprio conceito de real, em tramas que vão do trivial a mais total perplexidade, sempre regidas pela criatividade e segurança de alguém que sabe exatamente o que está fazendo. E o faz de maneira absolutamente genial.

Sobre a autora: Laura Assis é graduada em Letras pela UFJF e mestre em Estudos Literários pela mesma instituição, com dissertação sobre literatura brasileira contemporânea. É professora de Língua Portuguesa, Literatura e Redação e tem textos críticos e de criação publicados no site O Bule, no jornal Plástico Bolha, no Caderno Encontrare e nas revistas Um Conto e Darandina. No Twitter: @laura_assis


SANT’ANNA, Sérgio. O Livro de Praga – Narrativas de Amor e Arte. Companhia das Letras, 2011. Preço sugerido: R$37,50

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Companhia das Letras

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