Histórias e Estórias – Da ingenuidade – Parte I

em 27 de junho de 2012

Esses dias me lembrei de uma vez em que ouvi alguém comentando que deixou de ler Rousseau porque o achava muito ingênuo. Como não tinha lido nada do filósofo além de fragmentos d’O contrato social, e só tinha ouvido discussões muito en passant sobre suas posições, ideias e concepções, acabei ficando quieto e até, se me lembro bem, cheguei a pensar que a ingenuidade era um motivo bem plausível para se abandonar um livro ou desistir de se aprofundar em algo. Mas será que é mesmo? E antes disso, o que faz um autor ou uma obra serem ingênuos?

Particularmente considero os escritos de Rousseau obras essenciais para compreender a formação e a “natureza” do “mundo” contemporâneo, principalmente O contrato social e Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. E as acho essenciais, ainda, para compreender certas nuances do pensamento de Marx e Engels, mas isso é uma opinião que não consigo sustentar para além de obviedades e de minha própria subjetividade (juro que ainda hei de escrever uma coluna sobre Kafka através dos escritos de Rousseau).

Há passagens d’O contrato social que podem ser consideradas “universais” na medida em que contemplam contingente expressivo de pessoas e de civilizações ao longo da História, mas há passagens que são igualmente subjetivas e históricas em sua especificidade. Explico-me: o entusiasmo de Rousseau com relação à participação popular na fiscalização, definição e condução do governo faz parte tanto de seus ideais como dos de seu tempo, não possuindo, em relação a nossa sociedade e nosso tempo, um quinhão de universalidade tão grande. O que Rousseau tinha como aspecto essencial da legitimidade de um governo era sua aprovação e endosso popular e geral, sem eles o governo não teria razão de existir, ser aprovado em âmbito geral é a sua condição de existência.

O que às vezes parece é que Rousseau era idealista demais, talvez por acreditar de tal forma na organização estatal, talvez por acreditar na unidade da sociedade como um corpo, pelo menos quando se tratasse de definir interesses gerais (atribuição, aliás, do governo). Ocorre, pois, que na época em que essas ideias foram formuladas o estado das coisas era muito diferente do que nos aparece hoje.

A unidade com a qual o filósofo concebia a sociedade não havia ainda sido tão fracionada, pelo menos não nos aspectos que dizem respeito a nossa sociedade contemporânea. A divisão social na França à época de Rousseau era, grosso modo, nobreza, clero e terceiro estado, um antagonismo muitíssimo diferente daquele que veio a se estabelecer posteriormente (principalmente em fins do século XVIII na França), com o desenvolvimento e consolidação do Estado e da civilização burgueses.

Rousseau não podia observar essa divisão de forma nítida porque ela não acontecia de modo sistemático na realidade histórica em que vivia. A consolidação da sociedade burguesa é posterior a Rousseau, de modo que, mesmo que ele esboçasse as bases da divisão social e da desigualdade no Discurso supracitado (sobre a desigualdade entre os homens), ele não pudesse cotejar todos os corolários dessa nova organização existencial em gestação. Isso acaba por lhe outorgar, não raro, um caráter ingênuo, quando ele, na verdade, é histórico.

Isso torna Rousseau obsoleto? Tenho uma birra gigantesca com a palavra “obsoleto”, por isso venho em defesa de Rousseau. Seu pensamento é histórico, o que não quer dizer que ele esteja acorrentado nas contingências do tempo, mas sim que suas obras precisam ser postas diante de sua historicidade antes de serem escarafunchadas atemporalmente, como expressão universal em todos os seus aspectos. Fazendo-se isso, suas ideias e projetos se desenham sob novas perspectivas, ensejando um escopo de questionamento pleno de frescor e pujança. Muito do que ele escreveu continua atual e com um apuro invejável, nos desafiando frontalmente a perscrutar nossa própria realidade em termos semelhantes. Afinal, quando Rousseau diz que a construção da primeira cerca e o silêncio temeroso que a ela se seguiu ensejaram a criação do elemento central da desigualdade entre os homens, quem pode fazê-lo cair por terra? Quando ele diz que a não-participação de um povo na vida política da sociedade é sinal de sua decadência, quem pode negá-lo? Quando ele reconhece a ação histórica do homem na passagem do estado de natureza para o estado civil, quem pode achá-lo ingênuo?

Suas ideias sobre o Estado podem ter assumido diferentes feições perante os reveses da História, pois ele não podia prever a apropriação tão elitizada e excludente do Estado pela burguesia. A blindagem burocrática, a administração impessoal e o caráter de classe do governo não foram ideias suas, mas usos que determinados sujeitos, posteriormente dominantes na sociedade, acabaram por cultivar. A ingenuidade, portanto, é consequência direta de sua própria historicidade, uma espécie de ironia histórica (nem por isso menos trágica).

2 comentários para “Histórias e Estórias – Da ingenuidade – Parte I

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