Granta: Noites de alface e Mãe

em 17 de agosto de 2012

Até o dia 24, teremos uma “conversa por escrito” comentando os contos da revista Granta, que reúne os 20 Melhores jovens escritores brasileiros, e cada conversa abordará dois contos por vez. Confira os posts anteriores:

Granta: Animais e Aquele vento na praça

Granta: Antes da queda e O que você está fazendo aqui

Granta: Tólia e Apneia

Granta: Valdir Peres, Juanito e Poloskei e O jantar

NOITES DE ALFACE

Vanessa Barbara

Vanessa Barbara nasceu em junho de 1982 no bairro do Mandaqui, em São Paulo. É jornalista, tradutora e escritora. Publicou O livro amarelo do terminal (Cosac Naify, 2008, prêmio Jabuti de Reportagem), o romance O verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil Endrigo, o escavador de umbigo (Editora 34, 2011), ilustrado por Andrés Sandoval. Como tradutora, recentemente lançou sua versão de O grande Gatsby (Penguin/Companhia das Letras). É editora do site A hortaliça (www.hortifruti.org) e cronista do jornal Folha de S.Paulo. “Noites de alface” é um trecho de seu próximo romance.

Felippe: Devo confessar que no começo imaginei que “Noites de alface” seria totalmente melancólico, o que é surpreendente se eu levar em consideração as crônicas da Vanessa Barbara – carregadas de ironia. Uma grata surpresa foi ver uma crescente: do tom depressivo para algo um pouco mais leve foi um pulo, ainda que continue sendo uma distância gigante para a maioria dos escritores. Há muitos detalhes nessas duas folhas e meia, muito sobre o casal Ada e Otto, sobre os vizinhos, sobre as receitas, sobre o cotidiano, sobre o que interrompe o cotidiano e sobre a continuação da vida. Após a leitura, dei um sorriso leve; o final do excerto desse futuro romance deixa muitas portas abertas. Imaginei Otto viajando, conhecendo os vizinhos, arranjando encrenca e criando situações absurdas para ver se as pessoas pensam que ele seja louco.

OK, viajei um pouco. Mas, como posso condensar? A escrita de Vanessa Barbara é divertida e despretensiosa, deixa no ar vários detalhezinhos bacanas que podem – e devem – ser usados na continuação dessa história, não apenas no cozimento apropriado de uma couve-flor.

Tuca: “Noites de alface”! Eu juro que um dia ainda vou entender toda a pira hortifrutigranjeira dessa mulher, viu?

Creio que ultimamente ando muito emotivo com histórias de amor, particularmente com histórias de amor do tipo que considero bem escritas (bastou uma meia-boca pra me devolver ao cinismo): A trama do casamentoBonsai (estes dois, inclusive, acabei confundindo em algum momento), Extremamente alto & incrivelmente pertoFragmentos de um discurso amoroso (acabei de emprestar esse e promete). Essa coisa de romance entre velhinhos me remeteu à leitura de O amor nos tempos do cólera.

A mistura de emoções – tristeza, ternura, alegria, melancolia, felicidade – foi subitamente substituída pela raiva quando gritei (mentalmente) algo como “Are you fucking kidding me?” e arremessei o livro para longe (também mentalmente, estava no meio de um ônibus) quando percebi que o fragmento tinha apenas cinco páginas. Cinco páginas! Eu queria ficar pelo menos mais umas dez, vá lá, na companhia de Ada e Otto (não à toa, reli duas vezes o trecho) e percebi que aquilo era apenas um teaser. A Carol Bensimon, pelo menos, brindou o leitor com um trailer de duração/extensão convencional; Daniel Galera nos deu um extended trailer de sua próxima obra, a mais longa de todas as que escreveu. Vanessa, se você estiver por aí, me lendo, saiba: eu queria mais!

Felippe: Vou te dizer que nem senti raiva quando me deparei com aquele final. Poderia muito bem ser um conto e o desfecho seria plenamente satisfatório. Como não é um conto, fico na espera.

Tuca: Acho que fui mal compreendido. Eu não senti raiva do final: concordo que, ao chegar a ele, o consideraria satisfatório e ficaria imaginando o resto da história que esse conto, muito do bonitinho, tinha me apresentado. Eu senti raiva mesmo foi ao virar a página e ver que “Noites de alface” terminava pouco depois da metade da página 131. Como eu acho que me sentiria se tivesse lido na internet um trecho de Bonsai, de Alejandro Zambra, e depois visse que o livro está naquela diagramação minúscula.

Vanessa Bárbara já tinha produzido fortes reações nesse leitor comum. O livro amarelo do terminal é emocionante, as colunas no Blog da Companhia provocam a mais profunda das identificações e os textos esparsos que leio em sua Seleta de Legumes conseguem divertir e provocar a reflexão. “Noites de alface” não destoa disso. A forma mais exata que consigo conceber de descrever a leitura de cada paragrafinho do texto é comparando-a com a primeira vez que assisti a O fabuloso destino de Amélie Poulain. Tenho alguns amigos que, incrivelmente, disseram que o filme não tinha história; eu, no entanto, vi mais história em cada pedacinho de estatística, em cada ceninha ínfima do que em muitos blockbusters hollywoodianos ou alguns filmes brasileiros metidos a cult. Com a oração “jogando pingue-pongue nos fins de semana” eu fiquei mais satisfeito (e vi mais histórias por trás disso e me conectei mais aos personagens e vidrei-me mais na narrativa) do que com contos inteiros de outros autores do mesmo volume da Granta. É isso.

Felippe: Exato, essa oração do pingue-pongue pode, ou não, representar alguma vertente explorada mais para frente no romance – assim como a história das receitas, ou a de Otto ouvir as histórias dos vizinhos, como falei anteriormente, sumarizando. Todos esses detalhezinhos, esses microcosmos e mini narrativas, são tão completos e amplos que podem ditar o direcionamento de várias “aventuras” do Otto, como podem ser apenas isso: detalhes ricos em significado. Essa riqueza de minúcias, que acompanha V. nas suas crônicas e colunas, é a peça chave para “Noites de alface” ser tão incrível como conto, como consideramos agora, ou como romance, mais adiante.

Vamos torcer apenas para a Vanessa não demorar.

Tuca: Assino embaixo, fanboy que sou. ^^

MÃE

Chico Mattoso

Chico Mattoso nasceu na França, em 1978, mas sempre viveu em São Paulo. Formado em letras pela USP, foi um dos editores da revista Ácaro e tem textos publicados em diversos jornais e revistas. Longe de Ramiro (Editora 34, 2007), seu primeiro romance, foi finalista do prêmio Jabuti. Em 2011, publicou pela Companhia das Letras seu segundo livro, Nunca vai embora. Também trabalha como roteirista. Mora atualmente em Chicago, onde estuda escrita dramática na Northwestern University. 

Taize: “Mãe” é um conto que possui uma estrutura bem simples. Ele apresenta um cenário, dá uma virada mostrando que esse cenário é fruto de uma ficção e termina tornando essa ficção realidade. Rodrigo imagina como seria a morte de sua mãe, o que provavelmente sentiria quando ela se fosse, se ficaria paralisado pelo choque da notícia, como receberia as pessoas no velório. Mas Rodrigo não pensa realmente nisso. Esse é apenas um conto que escreve e que está mostrando para sua namorada, e que Chico Mattoso mostra não ser a realidade quando ele passa a pensar na sua mãe de verdade. Eu particularmente gosto dessa “manipulação” que um autor faz com o leitor. Descreve todo um ambiente cheio de emoções intensas para depois derrubá-lo com uma verdade incomum – nesse caso, quando sua namorada diz que o texto não convence, Rodrigo passa a divagar sobre as dificuldades de se ter uma mãe viva.

Mas essa não é a única virada do conto, é necessário uma terceira para que a discrepância entre o que Rodrigo diz na ficção e o que pensa na realidade tenha algum efeito mais forte. E essa terceira parte, apesar do bom começo, deixou algo a desejar, por focar mais na vida atual do protagonista do que no que ele realmente sente quanto a partida da mãe. Lamentando mais pela própria vida do que pela perda dela.

Palazo: Concordo que as duas primeiras partes do conto estão bem desenhadas. A virada de cena, da ficção para a realidade, foi bem executada e cria um impacto interessante e cativante na leitura. Se a história continuasse saltando entre ficção e realidade é bem provável que teríamos um efeito melhor do que o desfecho escolhido por Chico Mattoso. Na última parte parece que o Rodrigo foge do assunto relacionado à morte da mãe, refugiando-se do salão principal, dos parentes e da urna. Talvez uma fuga da ficção da primeira parte, daqueles sentimentos ali colocados no papel.

Fora que achei estranho a presença do filho, ex-esposa e ex-namorada. Servem para marcar a temporalidade do conto, mas parecem soltas e sem fundamento na história.

Taize: Também senti isso, que na terceira parte o foco se perdeu. O leitor percebe que ele está de certa forma abalado pela morte da mãe, preferindo a reclusão, mas o que ele trouxe nas primeira e segunda partes não aparece nessa última. A impressão é de que o conto deixou a relação do filho com a mãe – viva ou morta – de lado para mostrar uma decadência na vida do protagonista, separado, sem mulher, que são coisas que não aparecem nas outras partes do texto, ou um medo que ele não revela ter.

Mas uma coisa que ainda dá para notar é a mudança em relação ao que ele sentia por essa mãe. Não foi nem o que ele escreveu naquele conto (se formos pensar que ele mesmo era protagonista do próprio texto), e nem é uma felicidade ou satisfação pela ida da mãe como faz parecer que aconteceria na segunda parte. Foi uma reação que pende mais para a falta de reação. E aí surge o filho, a ex-mulher, a ex-namorada…

Palazo: Será que a falta de reação não está ligada ao medo dos pensamentos que geraram o conto da primeira parte? O momento projetado e que enfim chega leva-o à fuga, e a presença do filho, ex-esposa e ex-namorada tem o papel de mantê-lo distraído, longe do ponto principal que é a morte da mãe.

Fiquei com a impressão de que Chico Mattoso tentou criar um conto circular, em que o final remete ao início. Você teve a mesma sensação?

Taize: Tive essa sensação sim, mas para mim esse círculo não se fechou, não completamente. Esse “tudo voltou” a que ele se refere no final pode ser o conto que escreveu 13 anos atrás, só que o leitor não tem ideia nenhuma de se esse “voltou” significa que ele lembrou do conto, lembrou do que havia escrito nele, e o que essa lembrança lhe provoca – percebe que realmente estava se sentindo daquela forma em relação à morte da mãe ou não? Essa falta de certeza sobre o que “voltou” para ele meio que me frustrou. E o que acontece depois disso? Ele finalmente mostra alguma reação pela morte dela? Volta a escrever ou ler o conto para ver se dessa vez não soa “falso”? Ficaram dúvidas demais para eu dar a história por encerrada. Eu geralmente gosto desses finais em aberto, mas nesse caso não funcionou muito bem.

O conto é ótimo, claro, toda essa “manipulação” que ele faz no início, do que parece ser uma realidade ser na verdade uma ficção do protagonista realmente me prendeu ao texto. Apenas o final deixou aquele gostinho de “hmm, bom, mas nada demais”.

Palazo: Fiquei com a sensação que o autor quer que retomemos o início do história quando finaliza com o “tudo voltou”. Mas na verdade a sensação que dá mesmo é esse de incompletude, que falta alguma coisa, e parece mesmo que faltou fôlego para Chico Mattoso encerrar o conto.

Óbvio que não vou ignorar a habilidade com que o autor conduz a história e prende o leitor em seu início, mas a frustração do desfecho deixa aquele gosto de decepção.

5 comentários para “Granta: Noites de alface e Mãe

        • (Acho que não, hahahaha)

          Não reli, como provavelmente faria se tivesse me encarregado de conversar sobre o conto do Chico Mattoso. Vou me deixar guiar pelas anotações que deixei no rodapé do texto, ainda que isso possa produzir menos um comentário do que uma glosa.

          “Tudo que é bom dura pouco” – sim, isso resume bem o quanto gostei de “Mãe”.
          “Edipiano” – a relação filho-mãe lembrou-me a famosa relação, feita por Freud, entre mito grego e psique. O tema dá bastante pano pra manga e, ultimamente, tem perpassado meus pensamentos
          “3 momentos da relação Rodrigo & Mãe (talvez Rodrigo e Marina)” – há uma ambiguidade: ainda que o conto tenha o título Mãe, podemos analisá-lo nos importando mais com o protagonista e Marina (sua namorada e ex, dependendo da seção)
          “conto, leitura mais imediata e memória” – tentativa de conceituar brevemente a estrutura, dividida em três partes, de “Mãe”
          “como tentamos antecipar a memória na literatura, às vezes” – como escritores, nem sempre podemos depender de que coisas semelhantes já tenham ocorrido com a gente para podermos escrever sobre elas, Faz-se necessário usar a imaginação e construir tão bem a linguagem que não nos envergonhemos na hora em que pudermos comparar o real com o escrito muito antes. Sempre falhei miseravelmente nesse sentido. Acredito que haja pessoas que sejam boas nisso, mas gostei de me identificar com Rodrigo.
          “Ritmo+beleza: algo que eu gostaria de ter visto no Fuks e na Geisler” – enquanto Geisler manteve um bom ritmo mas não produziu frases que ressoassem em mim (ou dessem vontade de anotar separadamente, pela beleza ou pelo insight), Fuks possui frases belas a rodo, mas o ritmo é atravancado e dá vontade de abandonar (a sensação de que nada está acontecendo não ajuda). Com Chico Mattoso eu encontrei um equilíbrio, o que me fez considerá-lo bem superior ao dos dois citados anteriormente.

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