Esquimó (Fabrício Corsaletti)

em 1 de outubro de 2012

Informações

  • Autor: Fabricio Corsaletti
  • Tradutor:
  • Editora: Companhia das Letras
  • Páginas: 80
  • Ano de Lançamento: -
  • Preço Sugerido: R$29,50

Quando tentamos escrever sobre poesia, às vezes nos deparamos com certas necessidades que nem sempre podem ser concretizadas. Uma delas é ter em mente todas as referências possíveis para leitura da obra de um poeta, algo muito solicitado para análise de vários autores contemporâneos. Podemos nos sentir quase que intimados a pensar como o escritor pensou aquela intertextualidade toda na hora da escrita. A questão é que isso é impossível. O nosso trabalho de leitura é sempre o nosso, nunca uma incorporação dos ideais da escrita do autor.

Ao ler o quinto livro de poesia de Fabrício Corsaletti, Esquimó (2010), podemos nos sentir também tentados a buscar mais informações acerca da vida do poeta, de seus amigos e de suas leituras favoritas. Evitei ao máximo realizar esse esforço todo que acredito que Corsaletti, assim como outros autores, não querem exigir de nós, leitores. O que experimentei na leitura de sua obra certamente poderia ser mais bem fundamentado se buscasse outros dados exteriores. No entanto, decidi ler Esquimó por Esquimó (com o acréscimo do texto das orelhas do livro, é claro).

Além disso, também há outro fator a ser considerado: não li as obras anteriores do autor, só um poema ou outro pela internet. Portanto, qualquer leitura comparativa da obra em seu conjunto não poderá ser realizada aqui. Ainda assim, tenho a sensação de que por este pequeno livro de apenas 80 páginas podemos ter uma ótima noção da poesia de Corsaletti. Há 45 poemas nessas páginas que, apesar da pequena quantidade, refletem uma variedade estilística consideravelmente grande. Difícil sintetizar o que podemos perceber por seus versos curtos, porém densos.

Algo com certeza chama a atenção do leitor desde o início de Esquimó: Corsaletti tem especial apreço por variações entre versos, variações que se limitam na maior parte das vezes na mudança de um só elemento do conjunto, como em “Variações para Mari”:

1

sua extravagância me excita

fico feliz de amar uma

mulher extravagante

 

2

sua discrição me excita

fico feliz de amar uma

mulher discreta

Uma pequena alteração que já pode nos fornecer uma visão completamente distinta do eu-lírico. Seria alguém indeciso? Ou vulnerável? Todas interpretações possíveis da parte do leitor, é claro, e todas estimuladas por um recurso dos mais simples. Muitos dos poemas do começo do livro se estruturam principalmente sob esse modelo, porém mais adiante essas “variações” nos levam a uma estrutura sintática recorrente que também dá quase que uma ideia de monotonia, uma mudança que parece leve, mas nos induz a outro raciocínio totalmente diverso. Em “Como tenho vivido” “Poesia e realidade”, “Poesia e sociedade”, “Feliz com as minhas orelhas” e outros mais temos essa forma simplificada do verso, que mantém a sintaxe mais básica do português (sujeito, verbo e complemento). Nenhuma dessas constatações vem a desmoralizar o poeta em sua capacidade, muito pelo contrário: nota-se em seus poemas que o complexo vem justamente do que parece limpo e simples.

Como poderia se esperar, a edição deste livro pela Companhia das Letras também nos fornece ligeiros dados biográficos do autor: sabemos que ele é jovem e se mudou de Santo Anastácio, interior de São Paulo, para a capital paulista em 1997. Mesmo que não soubéssemos disso, sua poesia nos contaria tal fato: a temática de contrastes entre o campo e a cidade a todo tempo surge em seus versos. Em vários poemas sua origem é lembrada ora com nostalgia, ora com dor. Não se tratam necessariamente de textos nostálgicos dos tradicionais, como lamentos sem fim do abandono da terra natal. A ironia tem seu lugar: no primeiro dos “Três poemas anastacianos”, por exemplo, o ideal bucólico de uma vida no sítio do tio é explorado até quase o final, quando se diz que de lá “mandaria e-mails / para o Chico / o Carlos Minchillo / a Angélica Freitas”. Mesmo no ambiente rural, a dinâmica urbana nunca seria abdicada por uma vida nova árcade.

Outro problema dirige a poesia de Corsaletti: a solidão, mas não pela solitude por si só, mas principalmente por um sentimento de deslocamento em relação à sociedade. A solidão amorosa também tem seu lugar, como pode se imaginar. Alguns dos melhores poemas tratam desse dilema do eu-lírico entre a integração à sociedade (e a adequação às suas convenções) e a fuga desiludida para a margem (e para todos os seus questionamentos infinitos). O tom não é niilista nem pessimista: questiona-se a realidade, mas não se sugere como possível solução a anulação de tudo, algo que poemas como “Despedida” demonstra bem:

o chão da cozinha

está de novo inundado

vou chamar o encanador

 

vou chamar o encanador

reciclar o lixo

e votar no candidato

menos escroto

 

[…]

mas como despedida

só por um momento

quero pensar que sou um pato

 

um pato gordo

e libidinoso

à beira da lagoa

correndo atrás de uma pata

Realmente acredito que a transformação em pato não é um manifesto pela negação de tudo da vida. Dentro do cenário deprimente de adequação à rotina e aceitação do status quo, o desejo pela simplicidade da vida do pato vem ao encontro do anseio pelo campo, além de inserir o desejo sexual (e amoroso) no meio disso. O livro mesmo se encerra com um que talvez seja de seus melhores poemas, justamente de temática amorosa: “Seu nome”. Trata-se uma variação que leva quase à exaustão o livro a partir da ideia de que tudo seria melhor se tivesse o nome (qual? não é revelado) de uma mulher. Sua alegria pelo amor parece amenizar muitas pesadas questões levantadas ao longo da leitura de Esquimó.

Em linhas gerais, Corsaletti parece fugir de certas tendências poéticas de nosso país, apesar de manter o diálogo com uma temática do cotidiano e do ego que se mantém forte entre nossos autores. Não há nada de mal nisso; aliás, diria que se trata de algo interessante: apesar das diferenças formais do autor em relação a alguns de sua própria cidade (São Paulo) e de outras metrópoles nacionais, ele consegue trabalhar com questões que lhes são pertinentes também. É bom lembrar também que referências à cultura popular, uma característica de muitos poetas atuais, também se fazem presentes no livro de Corsaletti. Por exemplo, notável é certamente sua obsessão pela atriz Eva Green, que tem um poema inteiro só para si (“Plano”).

Busquei me remeter somente a alguns pontos de Esquimó sem resolvê-los analiticamente, pois gostaria de apenas apresentar a obra. Fabrício Corsaletti é um dos poetas que vem se mostrando dos mais prolíficos do país, que, além de seus livros publicados, nos dá opções de leitura por sua coluna na Folha de S. Paulo e  também no momento pela seção “Correspondência” no blog do Instituto Moreira Salles.

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