Carol Bensimon [In: “Desafio Autoras de literatura contemporânea brasileira”]

em 7 de outubro de 2012

Era uma festa. Eu não sou muito de festas. Mas aquela era uma festa diferente. Era o coquetel de lançamento da edição número 9 da revista Granta em português. Dica: como tornar uma festa a mais disputada da FLIP? Simples: mate todos de curiosidade a respeito de quem são os melhores jovens escritores brasileiros segundo um júri com alguns especialistas.

Eu estava com aquele aperto no coração até poucas horas antes, me perguntando se os boatos estavam certos e realmente todos os 20 tinham que estar em Paraty na ocasião. Daniel Galera já tinha dito que não iria. Carol Bensimon, até onde eu sabia, estava em San Francisco ou no Arizona, algo assim. Os boatos eram mentirosos: o Galera entrou e não precisou tirar foto com os grantescos; a Bensimon… bem, ela não só entrou, como também estava por lá.

Se eu falei um minuto com ela, foi muito. Acho que expressei minha surpresa por ela estar no Brasil, dei meus parabéns e falei que, já que ela estava na cidade, provavelmente a gente se esbarraria depois e eu pegaria o seu autógrafo – não ia segurá-la, sendo aquele o momento em que ela fazia parte do centro das atenções. Pensando bem, acho que falei também que ela figuraria neste Desafio.

Nunca mais a vi. Não ao vivo, pelo menos. Mas, de qualquer forma, isso não é literatura. Não é relevante: pertence ao campo das efemérides, apenas. Não foi ali que decidi que leria toda a obra dela, por exemplo.

*

Há algum tempo, alguns amigos meus insistiam que eu devia ler Sinuca embaixo d’água – não estavam mancomunados entre si, eram de círculos distintos. “Arthur, você precisa ler esse livro”, repetiam. Às vezes, soltavam um “Arthur, você vai gostar mesmo de ler esse livro”. Como as pessoas que usaram o verbo gostar e o advérbio mesmo já conheciam meu gosto literário de outros carnavais, sabia que seria um romance que eu teria de ler, mais cedo ou mais tarde.

Eu li o livro. E gostei. Gostei bastante. Entusiasmei-me, até. Mas dois detalhes (um deles é mais geral; o outro, uma birra pessoal) me impediram de me entusiasmar muito com o livro. Antes, as características boas.

Antônia morreu num acidente de carro. A principal personagem de Sinuca embaixo d’água está morta quando o romance se inicia. Por meio de expediente semelhante ao utilizado em obras como Relato de um certo Oriente, de Milton Hatoum, e Antonio, de Beatriz Bracher, Carol Bensimon constrói a personagem central com os pedaços de memória dos outros personagens. Afinal, usando as palavras de Arundhati Roy, o acidente de carro deixou um buraco em forma de Antônia na vida de três rapazes, os narradores recorrentes da história.

Bernardo, Camilo e Polaco. Cada um deles revela uma faceta da vida dela, o lado ao qual eles tinham acesso, além de apresentarem a si mesmos pouco a pouco – aliás, creio que foi a alternância dos três narradores, à Michael Cunningham, que fez tanta gente insistir que eu lesse o livro. Além dos três, que se revezam na ordem apresentada, há capítulos únicos, narrados por quatro personagens menores – Helena, Gustavo, Lucas e Santiago –, que interrompem o fluxo da narrativa com pontos de vista diversos. Em que medida se conhece alguém realmente? Muitos matizes de Antônia persistem enigmáticos ao fim da trama, como costuma ocorrer com personagens complexos que não têm oportunidade de darem sua versão da história.

Já faz algum tempo que li o livro (mais do que um ano) e ainda não cumpri a promessa de relê-lo por partes (primeiro tudo do Bernardo, depois tudo do Camilo e, finalmente, os capítulos do Polaco). Como a memória funciona de um jeito esquisito, dia desses tentei pensar nas possíveis metáforas que o título, Sinuca embaixo d’água, poderia carregar. (Não que a “viagem” fosse necessária: os elementos da expressão estão presentes no romance e formam uma imagem bonita, por si sós.) Pensei na sinuca, jogo de precisão com esferas pesadas, como um equivalente do acidente de carro, que num instante transforma uma pessoa em passado. Em seguida, pensei em como estar embaixo d’água torna as coisas mais lentas, imprecisas, incertas – tal como a memória, fonte para o romance inteiro. Viajei demais?

O tema da morte, o tom de melancolia, o personagem construído com memórias, a variação de narradores, a linguagem – uma atração à parte –, tudo isso corroborou para que eu agradecesse aos meus amigos pela indicação. Quais foram, então, os “poréns”? O primeiro, mais genérico, está relacionado às vozes de Bernardo, Camilo e Polaco serem deveras parecidas. Se você se distrai e continua a ler o capítulo sem voltar umas páginas e ver quem é o narrador, é capaz de que ache que é outro, em vez do correto. Pode ter sido uma opção da autora, mas, como eles têm vivências tão diferentes, creio que seria mais interessante se tivessem, cada um, um estilo mais distinto.

A birra pessoal é, como o nome diz, uma pequena birra. Amei, adorei o primeiro capítulo (você pode lê-lo aqui, no site da Companhia das Letras), com toda a sua dinâmica, sua história dos rollers etc. O problema todo é que eu me lembrei de algo que tinha lido, algo que produziu efeitos semelhantes: o primeiro capítulo de Mãos de cavalo, de Daniel Galera – o famoso capítulo do Ciclista Urbano. E, por mais que a comparação seja bestinha, não posso negar que ela aconteceu na minha cabeça. Foi algo meio “escolha o seu time”: Star Trek ou Star Wars? Fiquei com o Galera.

Falei que era birra, falei que era pessoal. Sinuca embaixo d’água não deixa de ser um romance muito bom, uma indicação muito interessante para os amigos, por nenhum desses dois detalhes.

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Desde a leitura do único romance publicado da autora, tive tempo de sobra para acompanhar seus textos. Só pelas suas colunas para o Blog da Companhia, já dava para incluí-la neste Desafio, apesar da regra “ao menos dois livros da autora em questão”. Textos como “Discos compartilhados em um sábado à noite”, “A arqueologia dos trechos sublinhados” e “A estrutura literária de uma viagem” são pequenas joias que se encontram entre os publicados nos últimos meses. Tudo de graça, na internet, para quem quiser ler.

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Era questão de tempo até que eu lesse Pó de parede. Principalmente pela curiosidade crescente que eu tinha pelos livros da Não Editora. Aproveitei uma promoção e comprei logo uns cinco dela.

Decididamente esse, para mim, é o melhor livro dos dois. É patente o cuidado com cada aspecto da linguagem, tempo da narrativa, enredo — assuntos quase sempre abordados em suas colunas. Achei-o mais fechadinho. Três contos longos (novelas?) e fortes, embalados em um projeto gráfico muito bem acabado. A arquitetura (uma espécie de personagem que fala mais alto em um conto, mais baixo em outro) figura nas fotografias que separam os textos no volume – as casinhas, creio, são aquelas de Banco Imobiliário.

Concordo com Daniel Galera, autor de um dos blurbs da quarta capa: meu preferido certamente é o primeiro. A mudança de pontos de vista, a passagem do tempo, os conflitos internos dos personagens e a estranheza destes me ganharam. Senti um carinho (a palavra talvez cause estranhamento, mas não estou exatamente ligando pra isso) enorme por eles, mesmo pelos que aparecem brevemente apenas. Laura… ah, Laura: esta personagem faz o conto abordar um tema que costuma me atrair na literatura – falar mais é revelar spoilers.

Também gostei bastante do terceiro conto, principalmente da questão das vozes diferentes. Acho que a autora foi mais bem-sucedida nesse aspecto no decorrer de Pó de parede do que em Sinuca embaixo d’água (essa foi a principal razão pra eu “apenas” ter gostado razoavelmente deste em vez de gritar “adorei o livro!”). O contraponto entre Carlo Bueno, escritor megafamoso e vendido, e Clara, aspirante a escritora e Capitão Capivara profissional mostra que, provavelmente, o efeito produzido em Sinuca foi algo almejado pela autora, não um descuido.

Outra coisa de que gostei no livro foi a forte presença da letra “C”, de Carol, que aparece em todos os títulos e se destaca especialmente no terceiro conto. E do fato de serem três os textos, tal como em Sinuca são três os narradores principais. Mas isso é mais meu TOC falando do que crítica literária propriamente dita.

O formatinho do livro, a edição cuidadosa e a excelência da escrita – desculpem, mas quando terminei Pó de parede, eu meio que gritei “adorei o livro!” – fazem deste título um desses livrinhos que costumo chamar de preciosos.

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Agora é só esperar por Faíscas, o novo romance dela, cujo trecho a fez ser escolhida pela Granta. O segredo é tentar não pensar. Se você ficar se lembrando de como aquele pedaço do livro é legal, a ansiedade consumirá os seus dias. Se você esquecer, daqui a pouco será 2013 e você já vai poder conferir Faíscas.

Quer uma dica para ajudar a passar o tempo? Crepe de Nutella nos ouvidos! Deve ter muita gente que sequer desconfia que a moça é escritora, mas curte pacas as mixtapes que ela cria. ^^

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