Para voar, desamarre o sapato

em 14 de fevereiro de 2013

Eu sei que o meu cadarço está desamarrado!

Posso não ter consciência a respeito de muitas coisas da vida, sejam elas grandes questões filosóficas ou até mesmo os pequenos acontecimentos diários que se passam ao redor do meu próprio umbigo. Já acordei com o rosto virado para uma parede branca e confundi isso com cegueira, de tão debilmente equivocada que sou. Mas uma coisa eu sei bem: sei quando o cadarço do meu tênis está desamarrado.

Sei porque o tênis fica frouxo, porque consigo ouvir o tec-tec da pontinha de plástico batendo no chão e porque sinto o bater do cadarço direito contra minha panturrilha esquerda, e vice-versa. Sei porque ando meio cabisbaixa e enxergo eles perfeitamente lá, balançando quase como se tivessem vida própia.

Então você, caro desconhecido, não deve me parar na rua para me avisar sobre isso. É um erro. Impressionante como nunca tem alguém pra dar a direção correta ou te ajudar se você é assaltado, mas sempre tem gente pra avisar que o cadarço está desamarrado. Uma vez, há quase um ano, o poeta Carlito Azevedo disse que Drummond é um escritor tão bom porque está “à altura de sua própria queda”. Eucanãa Ferraz, que dividia uma mesa da Flip com Carlito, rebateu dizendo que “Poeta é o que inventa a sua própria queda, é o cara que quer cair, quer olhar no abismo. Muitas vezes ele olha e ri, e se deixa cair.”

Eu não sou Drummond e muito menos poeta, e é evidente que eles estavam falando de uma queda interior e metafórica, dessas que você sente sem sair do sofá. Uma das quedas de Drummond foi a perda de um filho, por exemplo. Mas imagine se alguém parasse os poetas (e não só eles, mas qualquer artista) e dissesse: “Oi, com licença, nem te conheço mas amarra aí seus sentimentos, senão você vai cair. Para de drama.” Pensa em quantas obras a gente teria perdido. Eu sei que se eu cair por causa do cadarço desamarrado, estarei à altura da minha própria queda e sei que isso é mais fatal do que qualquer queda metafórica. Eu assumo o risco. Por favor, não insistam.

Uma pessoa morre a cada 4 dias, em São Paulo, por cair de sua própria altura. Mata mais do que tiro, depressão e acidente aéreo. O paulista deve saber bem disso porque gosta mais de estatística do que de fila. Por isso avisam tão desesperadamente quando você está ali correndo o risco. Mas não deveriam. Não é por acaso que estamos nessa condição.

Por que tanta gente morre assim? E por que simplesmente não amarrar os sapatos e prevenir? Bom, para voar, basta errar o chão, já diria Douglas Adams. Para errar o chão, basta estar suficientemente distraído. Nos deixem ter essa chance de voar, que de congestionamento e rotina a gente já tá cheio e mais vale correr o risco.

falling

8 comentários para “Para voar, desamarre o sapato

  1. Quando me mudar pra São Paulo, vou parar de ler andando. Como aqui em Curitiba não tem esse tipo de estatística, continuo lendo e andando sem medo.

    Que texto lindo, Dona Comovente. Ops, que texto comovente, Dona Linda. Err… Acho que deu pra entender, né? Beijo. Vou ali dormir-tropeçar-sonhar-e-voar-distraído um pouquinho.

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