“Se é do Brasil, não pode?” Entrevista com vocalista da Fresno

em 27 de fevereiro de 2013

De repente, na minha timeline, pulou a notícia de que a Fresno estaria no South By Southwest deste ano, que vai de 08 a 17 de março. O evento, conhecido pela sua relevância em relação a música, cinema e tecnologia, serve como uma grande vitrine. Mas o que chamou ainda mais minha atenção foi quando eu li: “Banda Cine está confirmada no SXSW”. Confesso que, num primeiro momento, o preconceito falou bem alto.

Mas um jornalista não pode ser formado de quaisquer conceitos sem argumentação. Por isso, num bate-papo com o querido Brunno Constante, que hoje trabalha na área artística da Mix TV e é editor do Fita Cassete, li a seguinte frase: “é um festival que tem tudo, por que não o pop?”. Mas insisti: “mas não perde um pouco da essência dele?”. E a resposta, certeira: “tem banda pop dos EUA que toca lá e está de boa. Se é do Brasil, não pode?”. Exatamente isso!

Quem completa o pensamento é o próprio Lucas Silveira, vocalista da Fresno: “sobre o Cine, eu acabei descobrindo depois! Não foi uma coisa combinada. Muito legal saber que eles também estão buscando caminhos alternativos. Ficar parado é que não dá. Além deles, o Brasil também estará muito bem representado em vários estilos, pelo Bonde do Rolê, Gang do Eletro, EMICIDA, Tipo Uísque, Black Drawing Chalks, entre vários outros guerreiros que tão aí levando nosso som pro mundo ouvir”.

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Para repercutir um pouco dessa história toda e mostrar o quanto nossas bandas independentes estão aí, na luta, o Posfácio conversou com o Lucas. Olha só o que ele contou:

Desde o disco “Revanche”, em 2010, a Fresno já apontava para um novo rumo… Com essa mudança, não drástica porém significativa, vocês sentem também uma mudança de público? Não no sentido de perder um público, mas de agregar gente nova…

A mudança do público foi bem mais comportamental do que qualquer outra coisa. Muitas pessoas nos conheceram pelas baladas que tocaram nas grandes rádios, mas aprenderam também a dar valor a outras facetas da banda que acabam não aparecendo tanto na grande mídia. Uma dessas facetas é a coisa dos riffs fortes, do peso, das letras, que às vezes são mais agressivas. Isso dá um respiro no show, que deixa de ser uma coisa apenas… Romântica. A vida não é só romance. Nossa vida tem uma pitada bem grande, por vezes até maior do que a gente precisava, de coisas duras, difíceis de lidar e que nos incomodam profundamente, e com o tempo eu fui aprendendo a escrever sobre essas coisas também, fazendo da Fresno uma vitrine para todos esses questionamentos, representando nossas vidas de uma maneira mais integral. Isso acaba filtrando um pouco o público, pois não é uma coisa que pode agradar a todos. Muitos gostam apenas de música para se divertir, pular, dedicar para alguém, e não se importam com coisas mais profundas, nem com guitarras mais altas. Mas não é para essas pessoas que a gente toca. Tocamos, antes de qualquer coisa, para sermos verdadeiros com nós mesmos. Muitos fãs enxergam essa verdade na nossa música e acabam seguindo com a gente nessa evolução constante e sem freios.

Agora, vocês vão tocar nesse que é um dos eventos gringos mais importantes em relação a música, tecnologia, interação, etc… Como surgiu esse convite?

É um festival que abrange todo e qualquer tipo de som feito no mundo. As bandas se inscrevem todos anos e passam por um processo de seleção. São mais de mil artistas em 2013, e temos um orgulho enorme de fazer parte disso. É minha segunda aparição por lá, pois ano passado apresentei no SXSW o meu projeto eletrônico “SIRsir”. Tive um feedback muito bom, mas de cara percebi que seria muito legal ir ao festival para tocar rock. Austin é uma cidade roqueira por vocação, as esquinas respiram rock e por todo lado se ouve o som de guitarras. Nada mais justo que representar o rock brasileiro por lá.

Como você acredita que será a recepção do público ao trabalho de vocês? Têm alguma ideia de quem é esse público que espera por vocês lá?

Austin é uma cidade muito aberta ao rock e às novidades. Em poucos passos, você atravessa a rua, sai de um show de folk-country e vai parar numa rave super ‘frita’. Quando você enjoa disso, tem um maluco operando uma parafernalha e gerando ruídos inclassificáveis, frente a uma plateia que fica ali, coçando a cabeça. Quatro caras soltando riffs de guitarra e teclados, cantando músicas em uma língua desconhecida tende a atrair muito a atenção dos gringos também. Isso eu tive certeza quando fui ao festival, ano passado. As pessoas são fascinadas pela novidade.

Será o show do “Infinito” ou vocês vão preparar uma apresentação diferente para o evento?

Como não temos ‘hits’ nos EUA, não temos maiores obrigações senão tocar o que mais simboliza o que a Fresno faz hoje. Portanto, será um show mais calcado no repertório do ‘Infinito’. Inclusive, estamos ensaiando músicas do disco que ainda não mostramos em shows aqui no Brasil, para testá-las ao vivo nos EUA. Aí, na volta da tour, nossos shows aqui do Brasil terão mais músicas e vão mudar um pouco.

Além do SXSW, vocês fazem outros shows por lá?

Desta vez, tocaremos apenas no Texas. Nosso showcase oficial é no dia 13, junto do Black Drawing Chalks, que é uma puta banda Goiana, e o Alien Ant Farm, além de outras. Sempre existe a possibilidade de surgirem mais shows lá mesmo no festival, o que é bem improvisado e sujeito a mudanças o tempo todo, mas eu vou aproveitar essa viagem para fazer novos contatos e organizar um tour grande, passando por mais cidades americanas para o verão deles, que é logo mais.

Você esteve na gringa por conta de outras ações… Isso colaborou de alguma forma para a entrada da Fresno por lá? Ou foi algo inusitado?

Com certeza. Essas viagens que fiz para o exterior em 2011 e 2012 abriram muito a minha cabeça e me deram coragem para tentar meter as caras em coisas cada vez mais ousadas. Tem muita gente produzindo coisas muito fodas, muito diferentes, cabeçudas, estranhas, emocionantes e inspiradoras. Um festival com o SXSW é uma vitrine para todas essas pessoas se reunirem e mostrarem o seu melhor. A partir do primeiro momento que passei nos EUA, passei a ter certeza de que precisava levar a Fresno para lá, para que todos voltassem tão inspirados quanto eu voltei.

Após o lançamento do disco e do clipe, show na gringa… O que a Fresno prepara para os próximos meses? Tem clipe, DVD ou música nova chegando?

Nosso clipe para ‘Maior Que As Muralhas’ acabou sendo adiado para depois da viagem. Vai sair em abril. Além disso, muitas coisas estão sendo orquestradas por aqui. A mais importante delas é o World Bike Show, um evento sustentável no qual fazemos um puta show de rock para milhares de pessoas, de graça, e com energia limpa, gerada por pessoas pedalando em bikes-dínamo. O primeiro rolou no Parque Ibirapuera e reuniu quase 20 mil pessoas. Os próximos acontecerão no Rio e em Brasília, e temos planos de fazer disso um grande tour, com registro em vídeo para a galera curtir em casa. É algo muito épico!

Com essa nova empreitada, como ficaram seus projetos paralelos (SirSir, Visconde, Beeshop…)? Estão parados ou você continua na hiperatividade?

Eu continuo na hiperatividade sempre. Essa é a minha doença e é a culpada pelo sucesso que acabei obtendo nas coisas que venho fazendo. A Fresno não estaria no SXSW se eu não tivesse um dia inventado o SIRsir e tentado levar para o exterior. Não teria aprendido a orquestrar instrumentos não-roqueiros como violinos e sopros se jamais tivesse gravado um disco do Beeshop. E jamais teria percebido a força que algumas músicas abandonadas da Fresno tinham se eu não as tivesse gravado com o projeto Visconde. De muitas maneiras diferentes, a minha hiperatividade e a existência dessas inúmeras facetas e projetos acabam influenciando diretamente o que acontece na Fresno, fazendo com que nosso trabalho seja cada vez mais rico, amplo e diferente do que se vem fazendo por aí. Meu pensamento é sempre pro alto e pra frente. Estou sempre confabulando com os comparsas a fim de criar coisas que inspirem, que façam as pessoas pensarem ‘eu também posso fazer algo assim’. E que essas coisas sirvam de combustível pros sonhos de uma molecada que precisa de incentivo, de histórias que provem que quando se faz o que se ama com muita vontade, as coisas acabam dando certo, de uma maneira ou de outra.

13 comentários para ““Se é do Brasil, não pode?” Entrevista com vocalista da Fresno

  1. Excelente entrevista, Carol! Serviu de inspiração pra mim, que lancei um EP independente ( wwwjowFR.com.br ). Me identifiquei, porque se você quer criar algo, tem que arriscar a cara a tapa e criar o que ninguém espera de você. Essa é a lição que fica. Abraço!

  2. Entrevista muito bem elaborada. Lucas, como sempre, um grande artista e uma grande pessoa. Não sei se estou certo ou errado, mas a Fresno deveria gravar um dvd acústico. Tipo “Acústico MTV”. Fora isso, a Fresno hoje apresenta um som muito além da grande maioria das bandas: velhas ou novas. Ficando atrás apenas daquelas que realmente são gigantescas(Legião Urbana e Los Hermanos). E parabéns para Carol que foi bem nos pontos onde eu, também, tinha dúvida. Muito bom.

  3. Este grande evento que conta com a presença de bandas com estilos tão distantes como Cine e Fresno, mostra que na música tem espaço pra todos, ideia que deveria ser adotada pelas pessoas aqui no Brasil, também. Não deve existir esse preconceito claramente apresentando no início da entrevista. No entanto, bela entrevista.

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