Prazer, Ross McElwee

em 1 de abril de 2013

Continuando de onde paramos Autorreflexão em Documentários, vou expor um pouco hoje sobre a obra de um diretor que, embora pouco explorado em solo brasileiro, é um dos cineastas mais comentados em bibliografia estrangeira quando se abordam questões de autobiografia e ensaísmo aplicado ao Cinema Documentário. Na verdade, ele é também minha “menina dos olhos” do momento, sendo o cineasta a quem dedico meus estudos atualmente. Trata-se do estadunidense Ross McElwee (1947– ).

McElwee começou a filmar no final dos anos 1970 e dirigiu sete longas-metragens até o momento, após filmar alguns curtas no início de sua carreira. Seu filme mais conhecido é Sherman’s March (1986), seu primeiro longa-metragem, pelo qual o diretor recebeu o prêmio de melhor documentário no Festival de Sundance no ano seguinte. Em 2007, McElwee recebeu o Career Award no Full Frame Documentary Festival. Em edições anteriores do festival, diretores-chave do documentarismo norte-americano haviam sido contemplados com esse mesmo prêmio de reconhecimento, como Albert Maysels, D.A. Pennebaker, Barbara Kopple e Richard Leacock.

De fato, a metodologia e o leque estilístico desenvolvido por McElwee para a construção de seus filmes, bem como o afinco com o qual o diretor lança-se na empreitada autobiográfica tornam o diretor uma figura singular como documentarista, bastante referenciado nos EUA. Aqui no Brasil, apenas dois filmes do diretor foram exibidos (até onde sei) e em ocasiões distintas. Seu filme Six O’Clock News, de 1996, foi exibido há alguns anos no Itaú Cultural e, mais recentemente, o último longa-metragem dirigido pelo diretor, Photographic Memory (2011), foi exibido no Festival 4+1 (no Rio de Janeiro e, simultaneamente, em Buenos Aires, Cidade do México, Bogotá e Madrid).

O diretor iniciou sua carreira como documentarista durante o curso de prática cinematográfica no MIT (Massachusetts Institute of Technology) que assistiu em 1977. No curso, McElwee teve como tutores Richard Leacock, figura fundamental para o desenvolvimento do Cinema Direto norte-americano, e Edward Pincus, cineasta também vinculado à metodologia do Direto, mas que recebeu notório reconhecimento por seu filme Diaries (1971 – 1976), finalizado por Pincus em 1980.

Diaries, como o próprio título sugere, trata do registro realizado por Pincus de seu universo privado – especialmente, sua vida matrimonial e familiar – em um período turbulento da vida do diretor. Considero Diaries um dos três grandes acontecimentos da década de 1970 no que diz respeito ao desenvolvimento de aspectos autobiográficos na narrativa não-ficcional. Os outros dois são Walden: Diaries, Notes and Sketches, de Jonas Mekas, e Yoman, a série de diários filmados de David Perlov.

A possibilidade de filmar no ambiente familiar, alavancada por Pincus, e a excelência na valorização da tomada, certamente ensinada por Leacock, são alguns dos ingredientes principais da metodologia desenvolvida por Ross McElwee em seus filmes. Todos os filmes dirigidos pelo diretor (mais especificamente a partir de Backyard, 1984) têm como parte de seus eixos temáticos a transposição do universo particular de McElwee como indivíduo à tela. Trata-se de um diretor que filma – quase obsessivamente – momentos de seu cotidiano,  trabalhando com afinco relações afetivas e familiares: no início de sua carreira, entre si próprio, seus pais e irmão e, posteriormente, entre si próprio, sua esposa e seus filhos.

Início de Sherman’s March:

Nesse sentido, acompanhamos o desenvolvimento da esfera privada de Ross McElwee como indivíduo a cada filme por ele lançado. Em Sherman’s March, seu filme mais conhecido, McElwee nos apresenta uma quixotesca jornada de duas horas e meia de duração em que assistimos à busca do diretor – um tanto frustrada – por um novo relacionamento amoroso. Já em Time Indefinite (1993), descobrimos que o diretor está casando, que seu pai veio a falecer e que seu primeiro filho, Adrian, nasceu. Dez anos depois, Bright Leaves (2004) nos mostra que Adrian já é um pré-adolescente e que sua relação com o pai começa a dar sinais de desgaste e de distanciamento. Isso vem a se confirmar (e, de certa forma, se atualizar) no último longa-metragem de McElwee, Photographic Memory (2011), que denota o abismo que há na relação entre pai e filho (já adulto), apesar deste último ter seguido caminho semelhante ao do pai na realização de produtos audiovisuais. Cabe notar, portanto, que a questão autobiográfica que envolve a obra de Ross McElwee não se aplicada a cada filme isoladamente – apesar de assim também funcionarem – mas, sim, de um processo autobiográfico contínuo iniciado pelo diretor no final dos anos 1970 e que se atualiza a cada novo filme lançado.

Nenhum outro documentarista trabalhou com tanta profundidade e com tanta “coragem” (talvez seja esse o termo) a exposição de si próprio e de sua família para a construção de narrativas (durante mais de trinta anos!) da forma que faz McElwee – o cineasta Alan Berliner trabalha nesse sentido mas, ele também, foi influenciado pela obra de McElwee –, sendo esse uma das grandes particularidades de sua autoria como documentarista. Dessa forma, a expressão “Viver ou Filmar?”, título de uma monografia sobre o trabalho de McElwee1, torna-se pertinente no sentido de que há a sensação de que o diretor faz de seu trabalho cinematográfico uma extensão de sua vida e, da mesma forma, sua vida torna-se uma extensão de seu trabalho cinematográfico. Em outras palavras, por um lado McElwee tem como base sua individualidade e a exploração do universo ao seu redor para a construção de uma carreira cinematográfica (pela qual se tornou reconhecido) e, por outro lado, seus filmes se apresentam frequentemente como um instrumento catártico fazendo com que o diálogo entre Vida e Filme seja, mais do que nunca, premente em sua produção.

Outro grande aspecto singular dos documentários de McElwee reside na estilística por ele empregada para a construção de suas narrativas autobiográficas. Para além do trabalho de forte valoração da tomada – a característica vérité da metodologia do diretor também é bastante exaltada –, frequentemente aponta-se a aproximação de seus filmes à tradição literária do ensaio. A argumentação em primeira pessoa (predominantemente através da narração em over) do diretor demonstra um estilo ao mesmo tempo honesto e sofisticado da escrita sobre si próprio. Antes de assistir ao curso no MIT o diretor obteve um diploma em escrita criativa pela Brown University, um indicativo da aproximação do diretor à escrita literária. McElwee coloca-se em seus filmes, através de sua narração, como um sujeito indagador, reflexivo, que se dá o luxo de equivocar-se, que rememora seu passado e que faz projeções sobre o futuro. Dessa forma, seus filmes são constantemente referenciados em textos analíticos sobre as possibilidades do Filme Ensaio (Essayfilm), remetendo sua escrita às preocupações de autores que lidaram com o mesmo gênero, tal qual Michel de Montaigne.

Entrevista com Ross McElwee:

Os filmes de Ross McElwee não foram lançados em terras brasileiras (por enquanto), mas foram lançados em DVD recentemente nos EUA e estão à venda em diversas lojas virtuais. Há também alguns trechos de seus documentários no YouTube, bem como diversas entrevistas com o diretor. Talvez por hoje seja isso. Fecho o texto com a citação do teórico norte-americano Michael Renov, que dedica muito de sua pesquisa às possibilidades da representação autobiográfica no Cinema Documentário. Essa, que colocarei abaixo, foi tirada de seu livro The Subject of Documentary, uma das maiores referências sobre o tema. Gosto dessa citação pois ela também responde algumas de minhas questões quando me pergunto o porquê de ter escolhido esse tema como estudo atual – autobiografia, ensaísmo, autorreflexão (etc.) no Cinema Documentário.

“Should the matter of subjectivity be a central one for media makers and scholars, or is current interest in the personal a local, short-lived and inconsequential affair?

My first reply is intuitive, for my years of teaching and writing about the self as expressed in film and video tell me that subjectivity continues to matter a very great deal. I know that it matters to my students, who have, over the years, been confronted by countless personal films and tapes and, more often than not, have responded from their guts with anger and with empathy, but only rarely with indifference.”

 

Trailer do ultimo longa-metragem de Ross McElwee, Photographic Memory:

  1. MINNICH, Rick. Leben oder Filmen? Die autobiographischen Filme von Ross McElwee. Vdm. Verlag: 2008

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