Pop e erudito: a literatura zapping de ‘Nocilla Dream’

em 1 de abril de 2013

Informações

  • Autor: Agustín Fernández Mallo
  • Tradutor: Joana Angélica d'Avila Melo
  • Editora: Companhia das Letras
  • Páginas: 216
  • Ano de Lançamento: 2013
  • Preço Sugerido: R$36,00

Zapear pelos canais de televisão é absorver uma pequena parcela de informação por uns segundos até que apareça uma nova imagem, com uma nova informação, em um novo canal, que logo dará lugar para outro. Quem nunca disse “estava mudando de canal e parei” para falar que viu o programa por acidente (e muitas vezes não era)? Resta saber, na verdade, em qual ponto a pessoa foi fisgada por aquela informação piscada na tela e consumiu seu conteúdo. Com a onipresença da informação no mundo pós-moderno, mais as manchetes são consumidas e pouco as matérias jornalísticas, mais sinopses e menos livros, etc. Agustín Fernández Mallo cria os “capítulos zapping” em Nocilla Dream 1, seu primeiro romance após anos dedicados à poesia e à física, numa frenética troca de personagens e locais – passando por Argentina, China, Dinamarca, EUA, Polônia e Inglaterra – com histórias fantásticas do cotidiano, mas, ao mesmo tempo, tão reais como quaisquer outras.

Primeira parte de uma trilogia intitulada “Nocilla Project” – os outros dois livros ainda inéditos no Brasil –, esse romance serviu como batismo para a “Generación Nocilla”, geração de escritores nascidos entre 1960 e 1976, apadrinhados pelo movimento McOndo de Alberto Fuguet e Rodrigo Fresán, e que muitos chamam de “afterpop” – ou o excesso simbólico provocado pelos meios de comunicação.

O termo zapping foi atribuído ao escritor apenas após a publicação, mas, no final do livro, ele nos avisa que parte dessa obra foi extraída da “ficção coletiva” que todos chamam de “realidade”, e outra parte da “ficção pessoal” conhecida como “imaginação”. Misturando essas duas surge um efeito colateral que gera dúvidas a quem lê, sobre o quanto aquilo pode ser real ou ficcional. Esse mesmo leitor nunca parou para julgar o quão surreal é um deserto com cassinos, hotéis e bordéis; uma existência no meio do nada. Tamanho desconforto surge pela falsa falta de ligação dos capítulos e das narrativas, porém é necessário olhar de fora, ampliar a visão, para enxergar as fronteiras e magnitudes das quais há um bombardeio constante. Fernández Mallo sabe o quanto seus cenários, os desertos espalhados pela narrativa, foram exaustivamente descritos em outros livros consagrados ou explorados em filmes de Hollywood – principalmente pós-apocaliptícos e de aventuras sobre busca de tesouros. A função imposta pelo próprio autor é de usar toda a informação que o leitor tem antes de Nocilla Dream e apenas apresentar-lhe as pequenas narrativas absurdas, microcósmicas, que eles perderam durante sua contemplação dos mesmos cenários em outros lugares.

Em termos de “afterpop” o filósofo francês Jean Baudrillard é quase como um fantasma do Natal do presente, soprando nos ouvidos. A representação do deserto, os bairros como máquinas do vazio, a realidade anulando a realidade e, claro, o caos do excesso de informação, muito do que é lido em Nocilla Dream remete a Baudrillard, apesar de não citado explicitamente. Por outro lado, pensadores importantes fazem participação especial em trechos do livro como Ayn Rand e a sua filosofia do individualismo; e Heidegger e sua influência para o desconstrutivismo (um flerte com Derrida também é reconhecido em alguns momentos). A obra não bebe apenas da filosofia, mas de grandes nomes da literatura como Calvino, Bernhard e Borges, que é citado constantemente, além de ganhar um templo de um de seus maiores seguidores.

De uma forma ou de outra, alguns microcapítulos têm uma ligação microscópica, e em outros elas são gritantes como um álamo carregado de pares de tênis. Há os casos em que os personagens são ligados através da temática, de um objeto, de um objetivo ou de um sentimento e é aí que reside a grande sacada: um objeto será um objeto em um lugar, mas uma sensação em outro. Todas essas nuanças são costuradas por citações matemáticas, físicas, filosóficas e até da teoria de linguagem cinematográfica. Em tese, chamar esse romance de um romance de inversão, não tão forte como o antirromance O jogo da amarelinha, de Julio Cortázar, é quase certo. Contudo não poderia ser classificado por um único gênero ou um apanhado de contos interligados. Para essas interligações teríamos de eleger um fio condutor, como um personagem ou um padrão, e não há tal elemento para figurar como central além de um fenômeno curioso.

 

O nômade toma por lar uma ideia. Os grandes nômades são pessoas de ideias inamovíveis, à medida que vão deixando para trás pessoas e cidades.

 

Nocilla Dream transpira um fantástico realismo, não há elementos extraordinários ou mágicos no meio de um ambiente ordinário, são excertos, biografias e histórias suprarreais que poderiam ser sobrenaturais e fora do comum. Um dos exemplos mais absurdos, ou beirando o irreal, é a história de William, funcionário de uma fábrica de malhas, que ao chegar em casa tomado por um desejo de passar roupa e ao mesmo tempo escalar rochas, funda o que é conhecido como Passagem a Ferro Radical – esporte fenômeno em muitos países com competições à la Copa do Mundo dos amarrotados. Outro exemplo é a existência das micronações, grupos de pessoas que resolvem emancipar-se de um Estado e criar os seus próprios, autossuficientes como o Príncipado de Sealand, localizado numa base marítima desativada na Segunda Guerra, ou O Reino de Elgaland e Vargaland, uma nação que faz fronteiras com todos os países. Ambas histórias são reais, dá para pesquisar sobre elas na internet e nem é preciso uma grande garimpada, Elgalan e Vargaland tem site oficial (indicado pelo autor). Tantas informações jogadas em páginas e mais páginas sugam o leitor para esse mundo real que agora passa a ter outro significado na ficção.

A realidade traz boas histórias para o autor, mas seu exercício mais ambicioso e divertido é levar a realidade para outro patamar na ficção, quase como um mundo paralelo. Ernesto Che Guevara ainda vive em Nocilla Dream, fingiu a própria morte para viver uma vida de regalias e luxo, tem uma namorada e viaja ao Vietnã a passeio, e ri de si mesmo ao encontrar as camisetas com seu rosto estampado. O Che mito de uma revolução e transformado em símbolo de uma luta do comunismo tem sua imagem explorada à exaustão, e não é Fernández Mallo que o faz, seu personagem fictício é apenas a personificação do que ele se tornou: um ícone de massa, quiçá um ícone de cultura pop. A sobrevalorização do mito Che apaga sua real importância. Jean Baudrillard já havia dito que “a informação devora seus próprios conteúdos”.

Inaugurando um movimento literário que acompanha o mundo atual, em sua ânsia por informação desenfreada, Nocilla Dream depende do quanto o leitor quer se entregar – e isso não é necessariamente um pedido de imersão, muitas vezes pode ser feito como uma troca rápida de canal coletando aqui e ali o que se julga importante. É um livro de referências diretas, e outras um pouco mais obscuras, onde o pop e o erudito, a ciência e a filosofia se encontram, se chocam e se misturam em um mundo contemporâneo e sem fronteitas. As sortidas e incríveis histórias coletadas pela mente perspicaz de Agustín Fernández Mallo fazem desse romance um road book da era da informação sem fronteiras.

Leia um trecho exclusivo

  1. Nocilla é a versão espanhola de Nutella, creme de avelã com chocolate ao leite, criado pela Ferrero Roche em 1944. A ideia para o nome do livro veio da música “Nocilla, que merendilla” http://www.youtube.com/watch?v=yv7H960mkk0

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