Do que eu falo quando eu falo de Cloud Atlas

em 15 de abril de 2013

Informações

  • Autor: David Mitchell
  • Tradutor:
  • Editora: Sceptre
  • Páginas: 866
  • Ano de Lançamento: 2011
  • Preço Sugerido: £ 9.99

Já há alguns meses eu gostaria de falar sobre um livro, mas… quem disse que estava conseguindo? Só de pensar que estou prestes a fazer justamente isso, minha mente já pensa em 1537 formas de me sabotar, fazendo-me lembrar de detalhes significantes que não poderiam ficar de fora do texto. Já percebi que só vou conseguir escrever uma “resenha” que me satisfaça depois de reler a obra umas duas vezes (ou 37) e reunir material suficiente para um livro a respeito de minha(s) leitura(s). “Do que eu falo quando eu falo de Cloud Atlas” será o título.

Mas isto aqui não é uma resenha. Ceci n’est pas une critique. Pelo menos, não desse tipo que pretendo escrever. Como não conseguia escolher um recorte que me fosse satisfatório (“Desconfie dos trechos escolhidos”, é o que diz uma personagem de Noturno indiano), gostei de quando descobri certa música e resolvi que escreveria um pedaço de minhas impressões a partir dela e de um poema de Drummond.

(Só falarei dela mais adiante, mas se quiser colocá-la pra tocar no repeat durante a leitura, fica a dica: Feel So Close, de Calvin Harris. Preferência pessoal: Radio Edit – não costumo gostar de remixes.)

Feel So Close by Calvin Harris on Grooveshark

* * *

Eu queria ler o livro há alguns anos, mesmo sem saber do que se tratava. Um bate-papo público em 2010 entre os tradutores de seus romances no país 1 foi o que provocou minha primeira pesquisa pelo nome de David Mitchell, o autor, no Google – curiosamente, descobri a existência de David Foster Wallace no mesmo evento. Sem compromisso, comprei uma edição flipback em Londres, mais pelo preço irresistível e pela curiosidade a respeito do formato 2. Li uma resenha aqui, vi um trailer ali e me desafiei a ler o romance antes de assistir à adaptação cinematográfica.

Que livro.

“Um dos melhores livros que li nos últimos anos” e “É o tipo de livro que eu gostaria de ter escrito” são frases que não dizem muita coisa. Resumi-lo não é tarefa fácil 3 nem é minha intenção. No entanto, enquanto eu tentava convencer uma amiga (objeto de um antigo amor platônico) a conferir o filme, mesmo não sendo tão bom quanto o livro, fiz uma comparação interessante. Falei-lhe da “Balada do amor através das idades”, de Carlos Drummond de Andrade (você pode lê-lo na nota de rodapé 4 ou ver Fabrício Corsaletti recitando-o no link), que ambos sabíamos de cor 5 aos 15 anos . Disse que o romance era parecido com aquilo, só que em maior escala.

Eu não acredito em vidas passadas. Nem mesmo costumo ler a respeito disso – a adaptação cinematográfica foi responsável por todo o destaque dado a esse tema, pois, no livro, ele não é proeminente. Mas algo que gosto muito de ler é uma história de amor bem contada. E isso foi o que, creio, Drummond e Mitchell fizeram em seus textos.

Tudo bem, não só – esta é apenas uma entre várias formas de ler a “Balada…” e Cloud Atlas. Há um momento no romance em que certo personagem diz “Power, time, gravity, love. The forces that really kick ass are all invisible.“. Lembro claramente que foi então que a associação com o poema surgiu em minha mente. Poder, tempo, gravidade e amor são quatro temas (forças) interessantes de serem notados em ambas as obras – é só parar para observar um pouco a “Balada…” 6 que você vai notar que não estou exagerando.

Mas, finalmente, não acho que esteja fazendo propaganda enganosa ao convencer alguém de ler o romance por conter uma bela duma história de amor. Não apenas porque frisei que o livro não é somente sobre isso, mas porque, sinceramente, creio que o leitor que busque exclusivamente isso não se decepcionará com o livro – a despeito de tudo mais que encontrará em sua jornada-leitura.

* * *

Ao invés de explicitar a situação em que descobri a canção 7 (sim, essa que talvez esteja tocando repetidamente enquanto você me lê), creio que seja melhor ir direto ao ponto e dizer onde Calvin Harris, Carlos Drummond de Andrade e David Mitchell se encontram. Se você não está ouvindo a música nem pretende fazê-lo algum dia, duas informações: (1) ela começa com os versos “I feel so close to you right now / It’s a force field8 ; e (2) os dois versos que mais são repetidos são “I feel so close to you right now” e “And there’s no stopping us right now” 9 – cada um é cantado 5 vezes.

A ligação mais óbvia se encontra na primeira informação. Não temos uma noção exata da ciência à qual Harris se refere quando cita “force field” em sua canção, mas, mesmo que tivéssemos, eu não saberia muito bem o que fazer com esse conhecimento – outro colunista poderia aproveitar a deixa e utilizá-la em um gráfico científico, ou algo 10 do gênero. Interessante, para mim, é notar a aparição do termo “force” em um novo contexto. O “right now” me faz pensar que essa sensação de proximidade entre o eu lírico e o “you” com quem ele fala seja súbita – ou seja, não desenvolvida por um longo tempo nem passível de ser explicada racionalmente.

Não são poucos os personagens de Cloud Atlas que confiam meio que cegamente em desconhecidos – além dos que não creem em quem só quer ajudá-los e dos que acreditam em seus inimigos. Continuemos a falar dos primeiros. Se eles nem sempre racionalizam a situação, nós leitores somos levados a pensar por eles: por que isso acontece? A resposta simples (e cínica) é a de que “as coisas precisam acontecer”: em outras palavras, um personagem precisa encontrar (e confiar cegamente no) outro para que algo determinado aconteça e cheguemos a um final previsível. Outra, mais complexa, responde com outra pergunta: como conhecemos as pessoas que mudarão nossas vidas? Um bazar de quadrinhos, um churrasco, uma festa literária, uma fila do Burger King: em qualquer um desses lugares 11 podemos encontrar pessoas que, subitamente, nos serão importantes.

Acabo de perceber que falei apenas de uma das várias camadas da narrativa. “I feel so close to you right now” serve tanto ao que há entre personagens do mesmo segmento quanto à relação entre protagonistas de histórias totalmente diferentes e, por fim, ao que liga estes e os leitores corajosos que enfrentam o catatau de David Mitchell.

Não há razão alguma para que Luisa Rey, jornalista que investiga um possível escândalo de uma companhia de energia (protagonista do segmento “Meias-Vidas: O primeiro mistério de Luisa Rey”), acredite que Joe Napier, um dos chefes de segurança da mesmíssima companhia (o qual se sente tão próximo a ela naquele momento), não passe de mais uma pessoa que tenta matá-la – nós mesmos ficamos em dúvida, mesmo tendo acesso a informações que ela não tem. No entanto, o ceticismo da personagem não subsiste quando da menção da marca de nascença de um tal Robert Frobisher (autor das “Cartas de Zedelghem”, protagonista do segmento assim intitulado): afinal, é a mesma marca que ela possui, o que a faz se sentir tão próxima 12 a ele naquele momento.

Somos tentados a falar para ela (se nos fosse permitido dialogar com personagens tão logo se dá a suspensão da descrença) coisas como “Moça, isso são apenas cartas que você está lendo. Não têm nada a ver com você! Nem era para você estar lendo isso: elas são para Sixmith!” ou “Eu até entendo que o papo new age deve influenciá-la – os anos 70 não foram fáceis pra ninguém. Mas, no século XXI, você vai ver como isso é bobagem…”. Mas, ei, é basicamente isso o que fazemos quando lemos um bom livro: (1) esquecemos que aquilo é “apenas” literatura (chegamos a conversar com os personagens pra aconselhá-los a não viajar na maionese e não… fazerem exatamente o que estamos fazendo) e (2) usamos toda a nossa bagagem (em outras palavras, todas as nossas “bobagens” – muitas delas características de nossa época) ao vermos significado no que lemos – o que torna a minha leitura muito diferente da sua, por exemplo.

Ou seja: ao lermos um bom livro, nos sentimos muito próximos de seus personagens naquele momento.

E, então, não tem o que nos faça parar com isso.

* * *

And there’s no stopping us right now.

Tanto é assim que a coluna não acabou.

Em meu exemplo, falei brevemente: de ligações entre os personagens de cada um dos segmentos do romance de David Mitchell; de relações entre tais personagens e outros, presentes nas narrativas que encontram (sejam elas diários, cartas, romances policiais travestidos de jornalismo literário, memórias adaptadas para o cinema, interrogatórios para fins de preservação histórica ou narrativas orais de um ancião); e de uma comunhão entre todos estes e os próprios leitores de Cloud Atlas, que o leem tentando entender por que continuamos a cometer sempre os mesmo erros – a citação é do filme, não do livro. Mas minha experiência de leitura envolve mais uma possibilidade de “feel so close to you right now”; sem ela, eu talvez não tivesse terminado o romance.

Li-o em muitos locais: no ônibus, na feira literária, na praia de Boa Viagem, numa festa de final de ano, na casa da avó, no albergue em que me hospedei em Pipa (meu primo até me perguntou se eu estava lendo a Bíblia antes de dormir), no ônibus, no carro, na praça de alimentação, na pizzaria, na granja cheia de árvores frutíferas do tio, na beira da piscina (usando o livro para esconder o sol – Cloud Atlas envolto em céu azul e muitas… nuvens), na rede, na rede, na rede, na tediosa João Pessoa, onde finalmente terminei o livro, em prantos. Ainda que, na teoria, a leitura seja considerada uma atividade de caráter solitário, eu não me sentia exatamente só quando li o romance. E não é porque estava acompanhado de “personagens tão complexos que pareciam reais e, assim, se tornaram meus amigos 13 ”.

Explico. Não é porque você está lendo que você se esquece do celular. Pois bem. Eu possuo um amigo (conheci-o num churrasco, veja só) que já tinha lido o romance. Toda vez que sentia vontade de comentar a respeito deste, eu mandava uma mensagem de texto. Simples. Foram muitas mensagens de texto trocadas. Mais ou menos como se a gente estivesse vendo o mesmo filme por meses e comentando alto “Não faz isso, moça! Ele só quer ajudar!”.

Eu estava em Curitiba, em Recife, em Parnamirim, em Pipa, em João Pessoa; ele, em São Paulo. Se eu conhecesse a canção de Calvin Harris naqueles dias, saberia exatamente como nomear aquela sensação.

I feel so close to you right now.

Tem mais. Um dos meus melhores amigos (conheci-o num bazar de quadrinhos, veja só) fez aniversário. Ele tem um bom inglês. Fã de Irvine Welsh. Já leu Finnegan’s Wake no original. O tipo de pessoa que, creio, não teria medo de enfrentar Cloud Atlas. Claro que foi este o presente que lhe dei: uma edição paperback com a mesma capa rosa da minha, com um trabalho tipográfico bonito para as “capas” de cada um dos segmentos do romance. Parte disso foi porque ele dá conta do livro. Parte porque já enquanto lia o livro também mandava mensagens pra ele dizendo como estava curtindo.

E parte porque, sendo uma das pessoas mais próximas de mim, eu gostaria de dividir com ele algo que considerei precioso – mesmo que ele venha a não gostar do livro, afinal.

I feel so close to you right now.

Mas não é só em churrascos e bazares que “encontramos” as pessoas. Às vezes, é por meio de comentários na internet. O livro está aí, para quem quiser ler. A Companhia das Letras anunciou que o livro sairá no Brasil com o selo dela. Ainda não há previsão de lançamento – boatos dizem que o tradutor pode ser o grande Paulo Henriques Britto, o que já dá uma ideia do quanto a tradução promete ser complicada.

Seja em inglês, seja em português, o que não vai faltar é modos de eu me sentir próximo de pessoas que nunca vi pessoalmente.

I feel so close to you right now.

  1. Menino de lugar nenhum, publicado em 2008 pela Companhia das Letras, ficou sob a responsabilidade de Daniel Pellizzari; Os mil outonos de Jacob de Zoet, previsto pela mesma editora para este ano, foi traduzido por Daniel Galera.
  2. Veredicto: sim, é bem legal; queria eu que todos os pockets daqui fossem portáteis desse jeito.
  3. Até criaram um wiki para a obra!
  4. Balada do amor através das idades//Eu te gosto, você me gosta/desde tempos imemoriais./Eu era grego, você troiana,/troiana mas não Helena./Saí do cavalo de pau/para matar seu irmão./Matei, brigamos, morremos.//Virei soldado romano,/perseguidor de cristãos./Na porta da catacumba/encontrei-te novamente./Mas quando vi você nua/caída na areia do circo/e o leão que vinha vindo,/dei um pulo desesperado/e o leão comeu nós dois.//Depois fui pirata mouro,/flagelo da Tripolitânia./Toquei fogo na fragata/onde você se escondia/da fúria de meu bergantim./Mas quando ia te pegar/e te fazer minha escrava,/você fez o sinal-da-cruz/e rasgou o pito a punhal../Me suicidei também.//Depois (tempos mais amenos)/fui cortesão de Versailles,/espirituoso e devasso./Você cismou de ser freira../Pulei o muro do convento/mas complicações políticas/nos levaram à guilhotina.//Hoje sou moço moderno,/remo, pulo, danço, boxo,/tenho dinheiro no banco./Você é uma loura notável/boxa, dança, pula, rema./Seu pai é que não faz gosto./Mas depois de mil peripécias,/eu, herói da Paramount,/te abraço, beijo e casamos.
  5. Quando penso nessa moça, ainda há algo de adolescente, de épico, de “o amor da minha vida” – meio como no poema de Drummond. Como se houvesse esperança de me descobrir moço moderno, herói da Paramount, capaz de remar, pular, dançar, boxar e ter (muito) dinheiro no banco – e, caso não seja nessa, talvez na próxima vida.
  6. Relações de poder são explicitadas em todas as situações: os gregos que dominaram os troianos, os romanos perseguindo os cristãos, os piratas querendo fazer escravos, as complicações políticas que levam cortesãos e freiras à guilhotina. Quanto ao tempo, não é necessário pensar muito: o poema explicita que se passa “através das idades”, com pessoas que se gostam “desde tempos imemoriais”. Mesma coisa com relação ao amor: é a “Balada do amor (…)”, afinal. E a gravidade permeia tudo isso…
  7. Se você estava mesmo curioso a respeito disso, lá vai: Eu estava no meio da academia. Treinando bíceps, pelo que lembro. A música parecia um remix, ainda que não pareça com nenhum dos remixes oficiais do single de Calvin Harris. Tentei decorar um pedaço da letra para pesquisar no Google e, por via das dúvidas, o tatuei com caneta esferográfica no antebraço: “I feel so close to you right now”. Não parecia ser uma música muito diferente de tantas outras que tentam dar ritmo coletivo aos exercícios. Muito menos ter uma letra das mais elaboradas: são os mesmo versos, repetidos ad aeternum. Mas, por algum motivo, tentei não prestar mais atenção nela, pois, se ela me lembrava de Cloud Atlas, as chances de eu começar a me emocionar era de 97%. E daí pra exteriorizar a emoção é um pulo. (Viu como não valia a pena?)
  8. Eu me sinto tão próximo a você neste momento. / É um campo de força.
  9. E não tem o que nos faça parar agora.
  10. Até mesmo um dos personagens do romance conseguiria fazer algo melhor do que eu: Isaac Sachs demonstra isso, ao fazer uma longa exposição – que disserta sobre Titanic, ficção, construções virtuais do espaço-tempo, matrioskas e sonhos, entre outras coisas – para chegar à seguinte proposição: “I have fallen in love with Luisa Rey”.
  11. Baseado em fatos reais.
  12. Algo semelhante a quando você vicia numa música do New Order (digamos, Temptation) porque a ouviu na trilha sonora do filme As vantagens de ser invisível e, meses depois, descobre que a mesma música já aparecia em Trainspotting, um clássico do cinema que, não se sabe por qual razão, você nunca tinha visto antes. True story.
  13. Uma coisa é pensar isso; outra, escrever numa resenha. Não vejo cabimento.

9 comentários para “Do que eu falo quando eu falo de Cloud Atlas

  1. Tuca!!!

    Sabia que quando você finalmente falasse de Cloud Atlas valeria a pena! No final, tivemos até uma expansão do livro do Mitchell. Imagino lá na biblioteca de Babel, o Tuca’s Annotated Cloud Atlas, em que os capítulos do Mitchell são interpolados pelas histórias dos seus leitores. Será que termina bem? Será que termina mal? Não sei, mas mando meu alô para os personagens-leitores do século XXX.

    1. Espero que você não pense que sou o mais insensível mastigador de parafusos, mas a que história de amor de Cloud Atlas você está se referindo?

    2. “In conclusion, force fields as commonly described in science fiction do not fit the description of the four forces of the universe. Yet it may be possible to simulate many of the properties of force fields by using a multilayered shield, consisting of plasma windows, laser curtains, carbon nanotubes, and photochromatics.” – Physics of the Impossible

    3. Mas sua ideia de force field é melhor. : )

    4. Fico realmente muito feliz de ter participado dessa história. (Qual personagem eu sou fica aí para as pessoas adivinharem.)

    Grande abraço,
    Gigio

  2. Uuuhhh. Um Annotated Cloud Atlas seria massa. ^^

    1. Acho que não era a só uma, porque há algumas. Há vários tipos de amor representados no livro (mais ou menos como há nos Amores Expressos, como forma dos autores se safarem da historinha romântica que talvez se esperasse deles). Há amor-amizade (várias), há amor que sobrevive a uma longa separação (Adam & Tilda), há amor com toques Woolfianos (Frobisher & Sixmith), há amor súbito, científico e, digamos, explosivo (Isaacs & Luisa)… and so on. Minhas favoritas nesse sentido são as duas últimas.

    Abraço, Gigio.

  3. É uma pena que meu inglês – e meu português – seja péssimo, aposto que na tradução muitas partes importantes e coisas que só ficariam claras no idioma original serão perdidas. Mesmo assim estou esperando ansiosamente – arrancando os cabelos, para ser precisa – pelo lançamento no Brasil.
    Gostei muito do seu texto, espero um dia ser tão boa quanto vc parece ser – essa é a primeira resenha ou não-resenha que eu leio aqui .

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