A colagem anônima de Alan Berliner

em 23 de abril de 2013

Aproveitando a ocasião recente da 18ª Edição do Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade, decidi versar um pouco sobre a obra do Alan Berliner, outro documentarista americano por quem tenho muito apreço. Berliner esteve em São Paulo, pela primeira vez, para conversar sobre seu novo lançamento, First Cousin Once Removed (Primo de Segundo Grau), e também para falar um pouco de seus filmes anteriores, pouquíssimos explorados aqui no Brasil.

Conheci os filmes de Alan Berliner no ano retrasado, ainda quando estava escrevendo minha dissertação de mestrado. Mais ou menos na mesma época em que entrei em contato com os documentários do Ross McElwee, que acabou por se tornar meu objeto de estudo atual. Da mesma forma que nos documentários de McElwee, os filmes de Alan Berliner apresentam questões relativas à reflexividade do diretor nos filmes e de seu universo familiar. A metodologia empregada por Berliner para a construção dos filmes, entretanto, difere-se bastante da do outro diretor. O afinco com o qual Berliner utiliza-se de material de arquivo, de home-movies anônimos e o meticuloso trabalho de montagem desempenhado pelo diretor (Berliner disse, na conferência do É Tudo Verdade, que a única coisa que nunca deixaria de lado é a possibilidade de ser responsável pela montagem de seus próprios filmes) são pontos-altos de sua autoria como documentarista.

O diretor começou a receber notoriedade a partir do lançamento de seu primeiro longa-metragem, The Family Album (1988). Antes disso, entretanto, Berliner desenvolveu uma série de curtas-metragens em que mostrava sua propensão a trabalhar com diversas fontes de material de arquivo e seu exímio trabalho de montagem imagética e sonora. Em diversas ocasiões o diretor ressalta sua admiração a diretores relacionados a movimentos de vanguarda no início do século XX, tais quais Dziga Vertov e Walter Ruttmann, em especial às Sinfonias Metropolitanas. A aproximação de Berliner às aspirações vanguardistas pode ser exemplificada através de um de seus curtas metragens, Everywhere at Once (1985).

Everywhere at Once:

 

Em The Family Album o diretor apresenta uma interessante experiência que será base para seu trabalho futuro. Trata-se do primeiro longa-metragem do diretor, como dito anteriormente, em que Berliner desenvolve uma colagem de home-movies anônimos (obtidos em diversos lugares, cuja procedência não é conhecida) e imagens antigas de sua própria família. A montagem realizada por Berliner é entrecortada por uma série de depoimentos – aparentemente de pessoas de sua própria família – porém não há um grande esforço em que se personifique, de fato, as pessoas entrevistadas. Versa-se sobre memória, sobre família, sobre nascimentos e mortes, discursos que poderiam partir de qualquer núcleo familiar.

Trecho inicial de The Family Album:

 

Entendemos a aproximação do diretor com questões da sua própria família, entretanto, em seus filmes subsequentes, Intimate Stranger (1991) e Nobody’s Business (1996). No caso do primeiro, grande parte do material imagético do filme é, da mesma forma que em The Family Album, uma colagem de home-movies. O filme tem, entretanto, um objeto temático bastante definido: Joseph Cassutto, avô materno de Berliner. Através de entrevistas realizadas com pessoas de sua família (dessa vez, devidamente personificadas), Berliner reconstrói a história de seu avô: ausente no âmbito familiar como pai e marido, porém um exímio empreendedor que acabou por criar laços fortíssimos com a cultura japonesa, país onde encabeçou uma multinacional.

No caso de Nobody’s Business, Berliner constitui um retrato de seu pai, cuja história, segundo o próprio, não interessaria a ninguém. A ação argumentativa do filme é baseada em divertidas entrevistas realizadas pelo diretor com seu pai, Oscar Berliner, morto alguns anos depois do lançamento do filme. O filme constitui-se, no final das contas, não apenas um esforço de Berliner em preservar a memória de sua família, investigando sua raiz judaica – algo a que seu pai não dá a mínima importância – mas, principalmente, um interessante contraponto (entre pai e filho) de pontos de vista em relação à vida e à memória. O filme, um dos mais conhecidos do diretor, foi premiado em festivais como os de Berlim, Flórida e São Francisco.

Promo de Intimate Stranger:

 

Sustento que após Nobody’s Business, Berliner incorpora uma leve virada em seu trabalho em seus dois filmes subsequentes. Deixando (um pouco) de lado a empreitada arqueológica em relação a sua família, o foco do diretor volta-se para o momento presente em questões que concernem seu universo particular como indivíduo. No caso de The Sweetest Sound (2001), Berliner desenvolve sua argumentação através de uma narração em primeira pessoa. Decidido a realizar um filme sobre nomes, o diretor lança-se na investigação do nome que mais lhe diz respeito: o seu próprio. O filme parte, como em experiências anteriores, de entrevistas com membros de sua família. Berliner investiga tanto a origem de seu sobrenome quanto a decisão de seus pais em nomeá-lo “Alan”. Mais interessante, entretanto, é o esforço travado pelo diretor em reunir o maior número de pessoas chamadas “Alan Berliner” em um jantar. Entre outras curiosidades evocadas pelo diretor, Berliner expõe o fato de existir na França um cineasta homônimo – Alain Berliner – e sua frustração perante a isso.

Clip de The Sweetest Sound:

Na mesma toada, em Wide Awake (2004) o diretor parte de uma situação bastante particular para desenvolver a narrativa. Berliner tem um sério problema de insônia e busca no documentário entender o motivo pelo qual não consegue adormecer após jornadas exaustivas de trabalho noturno. Dentre os filmes do diretor Wide Awake é o que apresenta aspectos mais profundos de autorreflexividade. O fato de Berliner ser insone está acarretando, no momento do filme, graves consequências em sua vida. Com o nascimento de seu filho – devidamente registrado, incorporado ao filme e sobre o qual o diretor tece comentários reflexivos –, o diretor encontra-se em uma delicada situação, não conseguindo estar acordado nos momentos em que o filho precisa dele e, dessa forma, gerando mal-estar entre si próprio, sua esposa e sua família.

Alan Berliner fala sobre Wide Awake:

 

 

Quando o diretor esteve aqui no início do mês, perguntei a ele sobre as diferentes maneiras através da qual concretizava esses processos de autorreflexão em seus documentários. Entre outros comentários, Berliner respondeu que o grau de exploração de seu universo individual em Wide Awake é algo que realmente o espantou ao ver o filme pronto. Disse, ainda, que dificilmente faria algo do tipo novamente.

Seu documentário mais recente, First Cousin Once Removed, confirma o depoimento do diretor. Há uma retração no aspecto autobiográfico visto nos últimos filmes de Berliner, ainda que a figura do diretor no filme tenha certo peso, pelo forte laço estabelecido entre ele e seu objeto de filmagem. Berliner é primo de segundo grau (em inglês, “First Cousin Once Removed”) de Edwin Honig, proeminente poeta, professor universitário e tradutor americano. Honig, entre outros feitos, foi condecorado pelo rei da Espanha e por Portugal devido às suas traduções de Cervantes e Pessoa, respectivamente, para língua inglesa. O diretor passa cinco anos de sua vida (os últimos cinco de Honig) registrando conversas com o poeta em uma clínica (ou hospital) para pacientes com Alzheimer. Honig não se lembra de Berliner, nem que foi tradutor, professor ou poeta. A questão primordial dos primeiros filmes de Berliner – a memória – vem à tona novamente sombreado pelo triste aspecto da possibilidade do esquecimento.

A falta de lembranças de Honig não modifica, entretanto, sua inteligência fora do comum percebida através das respostas dadas às perguntas do diretor. A seriedade com a qual Honig lançou-se às letras é contraposta no filme à mágoa de seus filhos e ex-mulher, por ter de certa forma falhado na empreitada familiar. First Cousin Once Removed rendeu a Berliner o grande prêmio no Festival Internacional de Documentários de Amsterdã deste ano, mesmo festival que já havia, em 2006, prestado homenagem ao conjunto da carreira do diretor.

Trecho – talvez postado pelo próprio Berliner – de uma tomada que faz parte de First Cousin Once Removed. Antes do longa-metragem o diretor lançou um curta – uma espécie de work in progress – sobre Edwin Honig.

 

 

Vale a pena checar os filmes de Berliner, disponíveis para compra na Internet em sites estrangeiros. Acredito que em pouco tempo teremos uma retrospectiva de seus filmes aqui no Brasil, devido à sua vinda recente e, consequentemente, à ciência maior de sua obra. Deixo aqui, para finalizar, um trecho que filmei durante a 13ª Conferência Internacional do Documentário, da qual o diretor fez parte. Ele estava respondendo à minha pergunta, que mencionei anteriormente, sobre as diferentes maneiras pelas quais representou a si próprio em seus documentários. (Desculpe pela imprecisão: não sabia se prestava atenção ao que estava filmando ou se prestava atenção ao que ele respondia).

 

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