A Conferência de Sérgio Sant’Anna em Porto Alegre

em 20 de maio de 2013

CARLOS ANDRÉ MOREIRA, no Facebook:

“O Sérgio Sant’Anna cancelou a vinda, só para avisar quem pretende conferir. Mas Marcelino e Noll continuam.”

 

SITE DO JORNAL Zero Hora:

“Marcada para este sábado, a mesa redonda Narrativas de Vertigem e Convulsão, que contaria com João Gilberto Noll e Sérgio Sant’Anna, com mediação de Marcelino Freire, sofreu modificações.

Sant’Anna não participará mais do bate-papo. Freire promoverá uma espécie de entrevista aberta com Noll. O evento faz parte da 6ª FestiPoa Literária e acontece às 16h30 deste sábado, no Auditório Luís Cosme da Casa de Cultura Mario Quintana.”

 

TIAGO GONÇALVES, no Facebook:

“Bruno Mattos agora está obrigado a escrever o texto ‘A Conferência de Sérgio Sant’Anna em Porto Alegre’.”

 

NOTAS DE ANDRÉ ARAUJO, O CORRESPONDENTE:

“Quando será que o escritor (escritor?) Sérgio Sant’Anna irá abrir o jogo?”

 

O AUTOR:

O texto anterior havia sido enviado originalmente com o título “A Conferência de Sérgio Sant’Anna em Porto Alegre (antes)”, foi descartado pelo Felippe, editor deste site, por “ser muito clichê”. Agora, perdemos a oportunidade de fazer um paralelo com O Concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro. A não ser que se explique isto aqui mesmo, no corpo do texto. Daí fica tudo bem.

 

NOTAS DE ANDRÉ ARAUJO, O CORRESPONDENTE:

“Sentado na padaria em frente à Casa de Cultura Mário Quintana, tomamos café. Passa em nossa frente um morador de rua, empurrando um carrinho de supermercado. No carrinho estão: um gato preto, apoiado nas duas patas dianteiras, como um capitão; um filhote de cusco, também preto, deitado atrás do gato; um cão egípcio no andar de baixo do carrinho, estático tal qual um hieróglifo; e, numa coleira, caminhando ao lado do carrinho, uma mistura de sabujo com mastim, farejando o chão. Muitos param para conversar com o Brancaleone que guia esse exército. Eu só tiro uma foto do meu celular. Decidimos entrar na Casa de Cultura, mesmo que o Sérgio tenha dado para trás.”

 

RODRIGO ROSP, na entrada do Festipoa:

“Parece que o Noll também não vem…”

 

O APRESENTADOR DO FESTIPOA, apresentando a mesa no FestiPoA:

“O Sérgio Sant’Anna ficou impossibilitado de vir, e o Noll está com uma gripe muito forte que o impediu de vir até cá.” (Ele falou assim mesmo, com a expressão “até cá”, mas o autor fica pensando que vai parecer que a fala foi alterada para ficar mais bonita, e isso pode comprometer toda a credibilidade.)

Ele fala isso e, das quase cem pessoas que estavam no auditório para ver a conferência de Sérgio Sant’Anna em Porto Alegre, uma única jovem se levanta e sai do auditório sem ouvir o final da frase. Todo um manifesto contido em seu protesto individual.

 

O AUTOR, no texto anterior:

“Daí, mesmo se ele chegar lá no dia, se acomodar na cadeira e não proferir uma única palavra, a gente vai achar que é metalinguagem de primeira e sair dizendo que foi do caralho.”

 

MARCELINO FREIRE, falando sobre um trecho de seu romance ainda inédito:

“Mas é uma ladainha também. Não deixa de ser uma ladainha”.

É que ao menos se ele tivesse se acomodado na cadeira. Mas nem isso…

 

NOTAS DE ANDRÉ ARAUJO, O CORRESPONDENTE:

“Parece cada vez mais óbvio que a não vinda de Sérgio Sant’Anna para a Festipoa é o evento literário do ano, por vários motivos:

a) qualquer evento literário que não seja um livro é um contrassenso, então um não evento tal como esse é a única via possível;

b) a sua falta de realização efetiva tornou a tarde de sábado numa espécie de teia de referências, à deriva, só com os textos do autor como guia;

c) a ausência de Sérgio Sant’Anna força sua aparição como algo além de sua mera existência física, pois é preciso construir o Sérgio Sant’Anna em Porto Alegre;

d) todos aqui sabemos que escritores na página são muito mais agradáveis que na realidade (à exceção de Marcelino Freire, talvez);

e) é tudo muito meta-existencial, muito Sant’Annesco.”

 

O APRESENTADOR DO FESTIPOA, apresentando a mesa no FestiPoA:

“Mas o Altair Martins topou vir até aqui para bater um papo com o Marcelino Freire”.

Isso a jovem não ouviu, pois já tinha saído para cuidar de sua vida.

 

O AUTOR:

A fotógrafa também era jovem, bonita e usava botas amarelas; parecia exausta, ainda que sustentasse certo ar de bom humor. A fotógrafa, assim como as quase cem pessoas presentes no auditório, não parecia muito preocupada com o fato de que Sérgio Sant’Anna não participaria da conferência em Porto Alegre. Era uma profissional, fotografaria a quem fosse. Quantas pessoas na cidade se importariam com isso, além do autor e de André Araújo? Que diferença isso faz para as pessoas de Porto Alegre?

 

GUILHERME, AMIGO DO AUTOR, respondendo às perguntas acima:

“Eu nem sei quem é esse cara… Vocês vão trazer quentão pra gente tomar hoje de noite?”

 

ALICE, VIZINHA DO AUTOR, no elevador:

– Acho ruim, né. Poxa, por que ele não viria pra cá? Porto Alegre, cheia de coisa afudê, um friozinho massa. Tinha gente aqui que tava na maior esperança de que ele viesse.

– Você sabe qual é o trabalho dele?

– Escreve? Não sei, estou supondo. Mas, se for, eu nunca li.

 

NA MESA

Marcelino Freire está falando sobre um evento que fez em Recife em homenagem ao Raduan Nassar. Desde o início, ele sabia que o escritor não estaria presente no evento. Por isso, investiu pesado na busca de outros participantes. Conseguiu a confirmação de pelo menos cinco nomes. O problema é que eles cancelaram um a um, e todos em cima da hora. “Por isso, o telefone é o maior inimigo do organizador de eventos literários. Cada vez que toca um celular, você já pensa: ‘quem será que não vem?’.”

O curioso é que o Raduan Nassar, no fim das contas, apareceu.

 

A VERDADE

Neste evento aqui de Porto Alegre, o Raduan Nassar está tão presente quanto o Sérgio Sant’Anna.

 

JOÃO, amigo do autor, desde Madrid:

“Como assim, ele não foi? Ah, tu viu que ontem o Atlético de Madrid foi campeão?”

 

RECADO, que o autor passa por escrito para André Araujo durante a fala de Altair Martins:

“Já sei como resolver. Como não poderemos trocar cartas sobre um evento que não houve, eu escrevo algo com estrutura semelhante ao Concerto do João Gilberto no Rio de Janeiro. E crio um personagem chamado André Araujo, o Correspondente. Mas quem escreve os textos dele é você mesmo, e neles você fala o que bem entender. Acho que nem precisa explicar. Só coloca em cima “Notas de André Araújo, o Correspondente”. A gente só incorpora este recado no corpo do texto.”

 

MARCELINO FREIRE, na conferência:

“Só deixando claro, para quem chegou agora e estiver achando que ele é o Sérgio Sant’Anna e eu sou o João Gilberto Noll, ou que eu sou o Sérgio Sant’Anna e ele é o Marcelino Freire…”

 

NOTAS DE ANDRÉ ARAUJO, O CORRESPONDENTE:

Marcelino espetaculoso: Mas como sabe ler um conto esse Marcelino! Tive a impressão de que ele nem estava lendo na verdade (‘Da Paz’, do livro Rassif), mas sim num processo de possessão por uma mãe recifense puta da cara com essas marchas pela paz. Senti um quê de André Sant’Anna (sim, o filho do homem), nos seus monólogos de Sexo e Amizade. Tem um conto do André que também se passa num Concerto do João Gilberto no Rio de Janeiro, mas em um que rolou. Pai e filho, interpretem como quiser. Êêêêta, meu deus!”

 

ALTAIR MARTINS, na conferência:

“A minha geração, principalmente, tem muito essa ideia de que o Brasil não está pronto. O Brasil é sempre um país provisório. É uma ilusão de ótica. Uma roupa na vitrine.”

 

NOTAS DE ANDRÉ ARAUJO, O CORRESPONDENTE:

“Quando o Altair expôs didaticamente toda a tese de seu novo romance, lembrei na hora do Borges no Tlön, Uqbar, Orbis Tertius. Parece que a gente tá sempre no processo de inventar um país pra viver (ou um planeta, se formos borgianos all the way). O Altair acertou nesse esquema de o Brasil ser uma espécie de país adotivo, uma pátria de criação. Mas não acho que isso não é apenas um lance sociológico, como ele deu a entender, mas também uma questão literária terceiro-mundista, de criação de um povo. Estamos a cada livro novo inventando uma tradição que irá formar, cedo ou tarde, uma ideia geral de país. A pergunta que fica é: que país está sendo criado através da nossa literatura contemporânea?

 

O AUTOR:

Acaba sendo interessante, termos vindo até aqui para ver dois autores cuja obra não conhecíamos e que não pretendíamos ler. Vai contra a lógica do espetáculo. Movimenta a cena. É bom para nós, para os escritores, para o evento. Faz a gente pensar em quanta coisa boa perdemos a cada dia.

 

BIS DE MARCELINO:

“Mas é uma ladainha também. Não deixa de ser uma ladainha”.

Vai ver foi coisa séria. Espero que não. Espero que esteja tudo bem com o Noll e com o Sant’Anna. Que não tenha sido nada demais.

 

TAIZE ODELLI, sobre Sérgio Sant’Anna não ter vindo:

“Achei fail. Mas eu nem sei o motivo dele não ter vindo.”

 

FERNANDA, amiga do autor:

“Ele não veio, então? Acho chato. Na verdade, não tô entendendo nada. Quem é o Sérgio Sant’Anna?”

 

NOTAS DE ANDRÉ ARAUJO, O CORRESPONDENTE:

“Apareceu o Sérgio Sant’Anna? Não exatamente. Mas, tal como Kramer, nessas notas ele veio. Altair e Marcelino, me desculpem, foram coadjuvantes na epopeia meta-existencial Sant’Annesca. Ia sugerir pro Bruno Mattos passar no McDonald’s da Andradas depois da palestra. Mas, do jeito que as coisas estavam indo, fiquei com medo de encontrar meu editor enfiado na lata de lixo. Não sei se os contos do Serjão vão continuar aparecendo na minha vida; por via das dúvidas, caminho olhando para cima e com o livro na mochila. “

 

O AUTOR:

Por nada que eu comeria num lugar desses. Nem para viver o final de um conto de Sérgio Sant’Anna. Nada mais a acrescentar.

 

MARCELINO FREIRE, no fim do esquema todo:

“Aplausos, para eu ficar motivado.”

 

 

Sobre o co-autor: André Araujo, o Correspondente, responde por si mesmo, é jornalista e por enquanto está levando. Siga em @andreeumesmo

3 comentários para “A Conferência de Sérgio Sant’Anna em Porto Alegre

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