Mudança: a China de Mo Yan

em 4 de julho de 2013

Informações

  • Autor: Mo Yan
  • Tradutor: Amilton Reis
  • Editora: Cosac Naify
  • Páginas: 128
  • Ano de Lançamento: 2013
  • Preço Sugerido: R$ 29,90

As abordagens de uma obra literária são tão várias quanto são as pessoas e suas opiniões acerca dela. Embora haja quem defenda que todas as leituras são possíveis, não consigo deixar de pensar que, se não existem minimamente parâmetros e linhas norteadoras, tudo vira nada na medida em que a relativização passa a dominar a paisagem.

Escolhi abrir o texto dessa maneira pensando no debate que ronda a relação entre a vida do escritor e sua obra. Creio que boa parte de vocês já deve ter tido contato com os dois – tacanhos – extremos dessa intrincada questão, a saber: aquele que prega que há uma correspondência integral e absoluta entre um e outro; e aquele que diz que não há relação possível nem concebível entre eles. Desconfiado que sou de ambos os posicionamentos, creio que análises empíricas são necessárias para quaisquer teorizações que se queira construir a esse respeito. “Estudos de caso”, se preferirmos tal terminologia, contemplam especificidades que, contrapostas dialeticamente a outras obras, autores e períodos, podem constituir-se em partículas de um construto teórico de envergadura consideravelmente maior e mais abrangente, que dê conta, por sua vez, de permitir possíveis linhas interpretativas que jamais devem subjugar a análise em si, sob a pena de engessá-la e torná-la cega.

Como já parece ter se tornado um costume de minha parte – e espero que deem vossa opinião a esse respeito, ó leitores –, essas linhas iniciais, à guisa de introdução, servem para orientar – e alertar – o leitor quanto a minhas idiossincrasias analíticas, as quais almejam constituir-se um emblema da honestidade do autor em relação a posições e visões que, conquanto defendidas com fervor, não ambicionam ser a palavra final acerca do assunto em questão. No caso específico dessa resenha, as linhas introdutórias servem ao propósito de pôr em relevo um dos pontos centrais do livro a ser analisado: o fato de ele transitar proveitosamente entre linhas autobiográficas e a narrativa literária.

Enfim, ao objeto da análise: a narrativa autobiográfica intitulada Mudança, de Mo Yan, escritor chinês que recebeu o Prêmio Nobel de Literatura no ano passado, sob a manifestação da Academia de que ele “com realismo alucinatório funde contos populares, história e o contemporâneo.”

Como o escritor faz questão de ressaltar no prólogo da obra, a proposta de escrever tal livro surgiu de um convite de Naveen, um amigo seu que trabalhava numa editora de Calcutá:

No início deste ano [2009], Naveen me escreveu um e-mail pedindo um texto sobre as grandes transformações ocorridas na China ao longo das últimas três décadas; o texto seria publicado por sua editora. Achei o tema demasiado amplo, muito além da minha capacidade, e não quis aceitar. Mas ele insistiu e muitos e-mails depois me disse para escrever “o que quiser e como quiser”. Com isso eu não tinha mais desculpas. Ao pegar a caneta, percebi que já não podia escrever o que quisesse e como quisesse. Ao pegar a caneta, percebi que já não conseguia me desvencilhar daquele tema. (pp. 7-8)

Ou seja, ao postar-se diante de Mudança, posta-se diante de um livro que reúne, sob a prosa concisa e precisa de Mo Yan, a literatura – especialmente na construção narrativa –, e os traços autobiográficos. Porém, como que para enriquecer tanto o livro quanto as possibilidades de análise dele próprio, está em pauta também a situação da China e a visão de um determinado sujeito acerca desse processo. A vida de Mo Yan – e, consequentemente, a história que ele resolveu contar – não se encontram descoladas da vida chinesa, dos eventos históricos que tomaram a China como palco e, em alguma medida, o próprio enfrentamento que moldou parte determinante da história humana no século XX, o embate entre capitalismo e comunismo em seus mais diversos e cotidianos desdobramentos.

O uso desses conceitos aqui não procura acoplar as reminiscências memorialísticas de Mo Yan a esse enfrentamento pura e simplesmente, mas atentar para o fato de que a China vivenciou um processo de ascensão de um regime comunista que certamente espraiou nas imediações da vida do escritor, como o próprio texto o atesta.

A textura cotidiana da vida experimentada pelo escritor constitui o cerne da obra, e a lucidez narrativa com relação à simplicidade sincera e direta dirige o andamento da história. Como se trata de visões particulares, que dizem respeito à vida pessoal do autor e sua caminhada rumo à literatura, Mudança é, antes de “(…) um texto sobre as grandes transformações ocorridas na China ao longo das últimas três décadas”, um texto sobre como “as grandes transformações ocorridas na China ao longo das últimas três décadas” interseccionam-se com a vida de um garoto de um vilarejo predominantemente rural que, alistando-se no Exército Popular de Libertação chinês, buscou pavimentar seu caminho rumo à literatura.

Essa distinção não serve para diminuir o relato, mas sim reconhecer sua especificidade e atentar para a interessantíssima possibilidade de enxergar fatos históricos aprendidos de um determinado ponto de vista através de uma outra perspectiva. Essa perspectiva, embora não encerre a chave interpretativa que permita abarcar a totalidade, aponta para recantos obscuros da experiência histórica que, sob outro prisma, talvez ficassem relegados à ignorância.

Através do relato de Mo Yan ficamos conhecendo o quanto as mudanças governamentais e econômicas, cujos desdobramentos estruturais conhecemos, apareciam sob outras expressões para pessoas comuns como aquelas que habitavam o vilarejo onde Mo Yan viveu. A autoridade do governo, por exemplo, era muito mais evidente a partir da posição de respeito e um certo receio do professor Liu Boca-grande do que a partir da doutrina ideológica propriamente dita. A presença da fazenda dos “direitistas” e dos caminhões Gaz 51 e colhedeiras soviéticas, por outro lado, possuía significados diversos quando posta diante dos aspectos cotidianos da vida daquele vilarejo. Havia um misto de desconfiança e admiração com relação às máquinas, e um misto de respeito e insubmissão no reconhecimento da autoridade dos soldados das proximidades.

Em outro momento, contando os eventos ligados à sua visita a Pequim, Mo Yan desfralda perante os olhos do leitor o quanto a cidade constituía um símbolo para os chineses e possuía um valor transcendental mesmo para as “pessoas mais comuns”. A simplicidade, aliás, da vida das “pessoas comuns”, em outros momentos, é algo que chama a atenção na narrativa de Mo Yan, visto que as urgências práticas do dia a dia dominam suas preocupações e os fazem viver reconfortadamente “longe” de dilemas ideológicos e severas crises internacionais.

Ao ler Mudança, senti falta de conhecer as demais obras de Mo Yan para poder ter uma noção mais apurada do lugar que o livro ocupa dentro de sua produção como um todo. Ainda que a demanda que deu origem ao livro seja extensivamente onerosa, Mudança se baseia na pujança de um relato individual como uma senda pela qual alcançar graus mais gerais acerca da vida e da sociedade chinesas. A escolha dos episódios a serem narrados, portanto, aponta para aquilo que Mo Yan considerou relevante ressaltar ao escrever um livro sobre “(…) as grandes transformações ocorridas na China ao longo das últimas três décadas”, de modo que sua significância deva ser cotejada nesses termos.

A presença do exército, a simplicidade da vida cotidiana, as ramificações da autoridade, a permanência de uma vida camponesa fortemente arraigada em valores e dinâmicas sociais muito tradicionais, entre outros elementos, são aspectos da experiência histórica naquela realidade. Com sensibilidade para perceber esses meandros da vida e percorrê-los num encadeamento de eventos bem humorados e ricos de significações humanas, Mo Yan fez com que Mudança fosse além de suas limitações subjetivas, sendo a um tempo literatura, relato autobiográfico e uma peculiar visão da realidade chinesa enquanto parte de um conjunto emblemático de transformações históricas que criaram a nossa própria realidade em alguma medida.

2 comentários para “Mudança: a China de Mo Yan

  1. Sabe, de algum modo eu imaginava que a primeira resenha de Mo Yan que fosse ler viria de você. Gostei dessa passagem do seu texto:

    “Mudança se baseia na pujança de um relato individual como uma senda pela qual alcançar graus mais gerais acerca da vida e da sociedade chinesas”

    A mudança é tanto do mundo quanto do indivíduo… E o interessante é que, pelo trecho que você citou, vamos percebendo que as mudanças, sempre mudanças, são indissociáveis do indivíduo — e vice-versa, claro. Mo Yan poderia escrever sobre outra coisa? Como ele mesmo disse, não. Mas poderemos falar sobre qualquer coisa da china e não nos lembrarmos dos contextos aludidos no livro, do Exército Popular de Libertação, do maoísmo?

    Sobre o que você disse ao abrir seu texto, o camarada Bruce Torres, que sempre aparece aqui (e provavelmente vai aparecer aqui) tem um ensaio em seu blog bem legal sobre isso:

    http://demaisconsideracoesliterarias.wordpress.com/2013/02/17/os-limites-interpretativos-comentario-e-defesa/

    Basicamente o que ele diz é que o autor não é o limite. O objetivo da leitura não é “entenda-o-que-eu-quis-dizer”; mas também não pode ser “eu-interpreto-como-quero”. A obra, naturalmente, as idiossincracias do autor, de seu tempo… de sua obra!, são aspectos que devem sempre ser usados como esteio, como base, como ponto de partida e a um só tempo ponto fixo (At the still point of the turning world, diria Eliot).

    Podemos analisar a Divina Comédia à luz do Hui Clois (Entre Quatro Paredes) de Sartre, em especial aquela coisa de que “o inferno são os outros”? Poder podemos, mas só se nunca deixarmos de ter em mente o essencial: estamos falando de Dante, da Renascença, da Divina Comédia. Estamos falando de Sartre, da (pós?)modernidade, do Existencialismo. Se montarmos bases sólidas entre isto e aquilo, e buscarmos andar em terra firme depois das bases bem fincadas…

    Acho que o leitor sério acaba adotando uma perspectiva bem parecida com o Mo Yan. Posso interpretar como quero? Ao abrirmos o livro, percebemos que já não podemos interpretar o que queremos e como queremos. Ao abrirmos o livro, percebemos que já não conseguimos nos desvencilhar daquele tema.

  2. Já favoritei o texto do Bruce Torres e tenho certeza que, a julgar pelos comentários sempre proveitosos dele, o texto será bom e esclarecedor. Quanto à questão que levantei no início, bem, posso dizer que ela ocupa boa parte dos meus dias, se não todo o período em que estou desperto e consciente do que se passa a meu redor.

    Dado que sou historiador e meu objeto de pesquisa é a literatura, essa questão possuem uma importância ainda mais crucial para mim, visto que preciso tê-la bem clara ao me debruçar sobre a pesquisa e a redação das análises. Por bem clara me refiro ao fato de estar atento à multiplicidade de interpretações e a necessidade do estabelecimento de alguns parâmetros para não descambar em relativismo.

    O texto literário é histórico em seu cerne porque seu autor é histórico em seu cerne. Isso, contudo, não deve ser confundido com a falácia do ‘determinismo’, como se, diante de determinados fatos históricos, somente uma reação fosse possível. É precisamente para apreender e dar conta disso que a dialética deve dar o tom da análise, e, a partir dela, aquilo que o historiador ou o pesquisador tomar por objeto de análise.

    A literatura existe à revelia da historiografia, não foi feita para ser objeto de análise, de modo que seja preciso ter em mente isso. Apesar de ser autônoma enquanto linguagem, sua autonomia não implica a-historicidade. Se o autor não nasceu pronto e se a obra não nasceu pronta, eles se fizeram, e se se fizeram, se fizeram em algum lugar, em algum tempo, em algum conjunto de relações sociais, culturais, econômicas, políticas, filosóficas e assim por diante. A literatura, no meu entender, não pode ser enxergada senão como uma prática social, uma agência histórica, um problema humano em primeira instância. Sempre há um porquê para se escrever, e esse porquê, assim como os livros e os homens, é histórico.

    Com sensibilidade, paciência, erudição, disciplina e método é possível construir análises magníficas independente do campo do conhecimento em que se esteja.

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