Crítica: ‘Hannah Arendt’ e a banalidade do mal

em 22 de julho de 2013

Informações

  • Título: Hannah Arendt
  • Diretor: Margarethe Von Trotta
  • Roteiro: Pam Katz e Margarethe Von Trotta
  • País: Alemanha
  • Ano: 2012
  • Elenco: Barbara Sukowa, Axel Milberg, Janet McTeer, Julia Jentsch, Klaus Pohl, entre outros

Margarethe Von Trotta é uma diretora política, entretanto, infelizmente, não é muito prolífera. São poucos os seus filmes (cerca de 20 títulos), muitos para a televisão e feitos em colaboração com seu marido, Volker Schlondorff, mas em sua enxuta filmografia destacam-se pequenas joias, como A Honra Perdida de Katharina Blum (1975) e Rosa Luxemburgo (1986).

Pertencente à nova onda do Cinema alemão iniciada nos anos 60 e da qual fizeram parte Werner Herzog e Rainer Weiner Fassbender, Von Trotta, berlinense de 1942, sempre voltou-se ao passado para entender a história de seu país, como alguém que tenta unir peças de um infinito quebra-cabeça do qual, mesmo não percebendo, certamente faz parte.

Em Rosa Luxemburgo (1986) contou com o brilho de Barbara Sukowa, vencedora da Palme D’Or de melhor atriz daquele ano, para reconstruir a trajetória da teórica e militante marxista. Vinte e seis anos depois retoma a parceria com a atriz para outra densa cinebiografia de outra mulher forte e controversa: a teórica política Hannah Arendt, judia alemã que foi presa num campo de concentração (Konzentrationslager) francês, antes de conseguir exilar-se nos EUA.

Longe de ser uma biografia no sentido estrito do termo, o filme foca um período crucial na trajetória da pensadora alemã, que se inicia com a captura pelo exército israelense do ex-oficial da SS Adolf Eichmann, escondido na Argentina, seguido por seu julgamento em Jerusalém, ao que Hannah, já influente pensadora pela publicação de As Origens do Totalitarismo (1951), dá um jeito de testemunhar, como correspondente do periódico New Yorker.

A partir daí, todo o miolo do filme torna-se um exercício de reflexão, sempre desenvolvido com muita inteligência e contando com boas interpretações. A Hannah de Sukowa, embora muito mais bela que a Hannah real, é capturada em suas longas pausas reflexivas, inebriada pelos cigarros infinitos, no esforço de entender, pelas declarações de Eichmann, como se constitui o mal humano. Interligados a esses momentos estão os embates de Hannah com seus amigos próximos – um grupo influente de escritores e intelectuais americanos –, seu marido filósofo Heinrich Blücher (boa interpretação de Axel Milberg) e sua melhor amiga, a escritora Mary McCarthy (Janet McTeer).

O resultado do esforço intelectual e ápice dessa obra de Von Trotta é o desenvolvimento do conceito de Banalidade do Mal, cuja gênese está na defesa de Hannah de que o mal muitas vezes é desempenhado pelos indivíduos sem verdadeiramente haver intrínsecas origens morais – como no caso de Eichmann que, segundo a autora, mais do que um antissemita, era um burocrata seguindo ordens superiores do Führer.

Suas controversas conclusões foram originalmente condensadas em cinco artigos na New Yorker, e na sequencia deram origem ao livro Eichmann em Jerusalém (1963). Por essas produções foi acusada, apesar do paradoxo, de ser uma judia antissemita – sobretudo nas passagens em que acusa algumas lideranças judias de colaboração com o nazismo – e de posicionar-se em defesa Eichmann. Tornou-se, assim, imediatamente incompreendida (o que prejudicou muito a sobrevivência de sua obra) e desde então uma das figuras mais controversas da História recente.

Mas as controvérsias em relação a Hannah vêm desde antes de suas produções sobre o mal, sobretudo numa passagem de sua biografia ocorrida em 1924-25, quando, enquanto graduanda em Konnigsberg, envolveu-se com seu professor de Platão, o filósofo Martin Heidegger, que em 1933 filiou-se ao Partido Nazista, sobre o qual, mesmo depois da guerra, nunca lançou críticas.

As passagens da relação de Hannah e Heidegger (Klaus Pohl, que impressiona pela semelhança) no filme de Von Trotta são em forma de flashbacks, normalmente enquanto a filósofa desenvolve a gênese de suas teorizações sobre o mal, e contrabalanceadas pela reação apaixonada que mantém com seu marido.

Em clássica entrevista a Günter Gauss no “Zur Person” de 1964, Hannah recusa veementemente o título de filósofa, dizendo encaixar-se mais na de teórica política. Suas contribuições para as Humanidades foram tão amplas que limitá-la a uma denominação seria um erro abissal. Hoje em dia, suas produções estão sendo revisitadas, em livros reeditados, como Homens em tempos sombrios, pela Companhia de Bolso, mostrando que as mentes firmes e os espíritos inquietos não podem ser esquecidos e permanecem atuais.

Hannah Arendt (1906-1975)

Hannah Arendt (1906-1975)

2 comentários para “Crítica: ‘Hannah Arendt’ e a banalidade do mal

  1. Nossa, fiquei com muita vontade de assistir! Adoro o trabalho da Hannah e o livro Eichman em Jerusalém é um dos meus favoritos.

    E não sabia desse bafo do Heidegger, menino! hahaha

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