José, por Pilar

em 13 de agosto de 2013

O sotaque espanhol da jornalista Pilar del Río entrega aqui e ali, na forma de uma ou outra palavra na língua de Camões, o resultado de uma convivência de 22 anos com o escritor português José Saramago, falecido em junho de 2010. Presidenta da fundação criada em 2007 e que leva o nome do escritor e marido, Pilar tem consciência da responsabilidade que carrega ao guardar o legado do até agora único Nobel de Literatura da língua portuguesa, láurea concedida em 1998.

Aos 63 anos, dona de uma voz suave mas que ganha em firmeza ao defender a obra e as ideias de Saramago, Pilar minimiza qualquer influência que possa ter tido no ato de criação do companheiro, mas, como afirma o conterrâneo Valter Hugo Mãe no prefácio de José e Pilar: Conversas inéditas, “o grande mestre não estaria nunca completo nesta sua dimensão mais pessoal sem a companhia de Pilar del Río, tão distinta quanto já complementar do escritor”. O livro é resultado da compilação das entrevistas feitas pelo cineasta português Miguel Gonçalves Mendes durante o tempo que passou com o casal para a realização do documentário José e Pilar (2010).

Visitando o país para o lançamento das reedições de Levantado do chão e Memorial do convento pela Companhia das Letras, Pilar del Río afirma que este sempre fora o desejo do escritor. “Para Saramago era importante uma união, ele queria que todos estivessem unidos numa casa editorial e com uma linha de publicação que os identifique. No Brasil, ele não conseguiu ver esse sonho realizado por não conseguir desfazer os contratos”, explica Pilar, que gentilmente cedeu esta breve entrevista por telefone, na qual também comenta aspectos da obra e da personalidade de Saramago, o qual define como um humanista.

 

Do ponto de vista de alguém que conviveu com Saramago, de que forma se dava o seu processo de criação e escrita?

Saramago primeiro tinha uma ideia grande e importante. Por exemplo, algo supostamente inverossímil, como a Península Ibérica se desprender (narrativa desenvolvida no romance A jangada de pedra). Primeiro era ter uma ideia, a continuação disso era o título do romance. A partir daí ele começava a pensar, e o livro já estava escrito na cabeça dele. Somente quando estava muito seguro de tudo, ele começava a escrever.

 

Saramago escreveu de maneira mordaz, ácida e talentosa sobre a religião católica, por exemplo, e o fez num lugar especialmente ligado à fé e à igreja católicas. Dado que suas obras tiveram repercussões várias sobre esse público português – bem como de todos os lugares do mundo –, qual era a reação de Saramago diante do efeito que suas obras causavam?

Os escritores não escrevem pensando na reação dos leitores. Saramago, como todos nós, vivia no século 21 da era cristã. Ele não podia se retrair, escrevia aquilo do ambiente em que vivia, independente de Portugal ser mais ou menos católico.

 

 

Ele escrevia do que vivia, e sempre respeitava a crença individual de cada um. Mas a religião como poder manipulador sobre os seres humanos, isso ele não respeitava, porque não formava parte de sua vida.

 

Não importava lhe escrever uma frase se esta incomodasse o poder. Ele nunca agrediria um ser humano concreto, mas a ideia de poder, completamente.

 

Vários dos livros de Saramago foram dedicados a você. Qual é a sensação de ter recebido essas dedicatórias? Que papel você acredita ter tido na concepção e elaboração desses livros?

Não tinha o mais mínimo papel. As dedicatórias eram algo absolutamente gratuito, que o autor queria fazer, eu agradecia na intimidade e ponto. E ninguém tinha influência no ato criativo, todos juntos podíamos influir no ato criativo do escritor.

 

Qual é a sensação de ser responsável por tão rico legado como esse que Saramago nos deixou? O que tem sido feito para que a obra dele seja mais e mais conhecida?

A responsabilidade é enorme, o medo e pavor também. Medo de não ter a capacidade suficiente para defender uma obra que está além de minhas próprias forças, pois tenho conhecimento de minhas limitações diante da obra. A missão da fundação que eu presido é o debate cívico das ideias que Saramago defendeu. Não defendemos os livros dele em si, pois para isso existem os leitores. Mais que isso, nós defendemos os valores cívicos, o pensamento de Saramago.

 

Em tempos de informações produzidas por uma mídia de massa simplista, Saramago foi reconhecido não raro por ser ateu e comunista, além, é claro, de escritor. Como ele buscava lidar com sua posição no mundo contemporâneo enquanto cronista de suas humanas contradições e conflitos?

A simplificação é o pior poder que os meios de comunicação têm nesse momento. Rotular é injusto, rotular uma pessoa por um partido político é redutor.

 

 

Os meios de comunicação, em meios gerais, simplificam e reduzem.

 

Saramago era um humanista, um pensador, um homem de seu tempo, que não acreditava em Deus, que não acreditava numa ideia por mais que todos os Estados do universo lhe falassem pra acreditar. Os Estados não devem intervir, pagamos impostos para ter direitos.

 

O romance Claraboia permaneceu inédito até 2011, quando os herdeiros de Saramago decidiram publicar a obra, que havia sido recusada por uma editora quando escrita, nos anos 1950. De que forma este livro se insere no conjunto da obra de Saramago? Como foi decidir publicá-lo?

Saramago não quis publicar porque não havia lugar para publicar. É um romance que, lido agora que sua obra está acabada, reflete os gostos e as preocupações de Saramago. Abel Nogueira, o protagonista, foi nomeado em homenagem a Fernando Pessoa. Lá estão presentes a preocupação com a música, a discussão filosófica, a ironia, o sentido do humor. Não é um livro de juventude, é um livro de início, onde se descobre que há uma rota que Saramago vai cumprindo ao longo de sua vida. Quando penso em religião, ali está incluído. É um livro fundamental e que está muito bem escrito.

Saramago já era Saramago antes de ser Saramago.

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