O “para sempre” não existe

em 13 de setembro de 2013

Informações

  • Autor: Boris Vian
  • Tradutor: Paulo Werneck
  • Editora: Cosac Naify
  • Páginas: 256
  • Ano de Lançamento: 2013
  • Preço Sugerido: R$49,90

Na primeira vez em que vi a capa de A espuma dos dias, livro de Boris Vian, pensei: “minhas avós adorariam essa imagem”. Os dois periquitos rodeados por flores chamam a atenção de longe pelo seu estilo kitsch, que nesse caso não é nem um pouco ruim. Acredito que não há imagem melhor para representar o romance de Vian, que brinca com o absurdo e o inusitado para contar a história de vida e morte de um amor. Afinal, o amor é brega na maior parte do tempo.

Publicado originalmente em 1947, A espuma dos dias apresenta uma realidade em que pianos dão forma e sabor a elaborados drinks, ratos são os melhores amigos de um cozinheiro – e esse, uma das pessoas mais respeitáveis do círculo social do protagonista, diferente de sua irmã, que resolveu estudar filosofia. As geringonças descritas por Vian são um deleite à parte na construção do livro, concentrado na vida breve do jovem casal Colin e Chloé. Para Colin, a vida existe apenas para ser aproveitada. O rico rapaz não economiza sua conta bancária para se divertir com amigos, promover festas e passeios, desfrutar das coisas caras. Quando encontra Chloé e, instantaneamente, decide que com ela irá se casar, desfrutar do prazer desse momento é o seu grande objetivo. As ações das personagens são assim, impulsivas e impensadas, e no momento em que as ideias surgem, tratam logo de executá-las.

O hedonismo do casal os leva a passar dias saboreando da boa comida de Nicolas, dos passeios com Alise e com Chick, um pobre engenheiro e melhor amigo de Colin que gasta todas as economias comprando obras de Jean-Sol Partre (uma versão ficcionada de Jean-Paul Sartre). Dinheiro não é preocupação alguma para esse casal, e enquanto essa alegria perdura, o leitor também se esbalda com a leitura das surreais descrições feitas por Vian.

“– Por que eles têm tanto desprezo? – perguntou Chloé. – Trabalhar não é tão bom…

– Disseram a eles que é bom – disse Colin. – Em geral, achamos bom. No fundo, ninguém acha isso. Fazemos por costume e justamente para não pensar nisso.”

 

A passagem em que Chloé questiona Colin sobre o trabalho mostra bem a realidade diferente com que esses dois jovens lidam: de maneira geral, eles não precisam ter a mínima preocupação com contas a serem pagas ou economias. Isso até Chloé cair doente, e os cuidados que ela necessita custarem a Colin o equivalente ao tamanho de seu sentimento por ela: praticamente tudo. Essa discussão sobre o sentido do trabalho também é importante para que o leitor perceba o grau de sacrifícios que Colin virá a fazer para salvar a vida de sua mulher.

Para restabelecer a saúde da esposa, Colin deve rodeá-la constantemente de flores, pois elas intimidam o crescimento da flor mortal que se desenvolve no pulmão de Chloé. Conforme o desespero de Colin ao ver sua amada definhar aumenta, a saúde dela diminui. E junto com ela, tudo ao redor perde cor, tamanho e importância. A imponente mansão em que vivem tem seus corredores estreitados. Os sóis que a iluminavam – pois Colin gostava muito de claridade – vão aos poucos perdendo força, até que entre pela janela um fino feixe de luz incapaz de fazer sombra. Nicolas, o estimado cozinheiro, é obrigado a se demitir, por mais que sua dedicação a Colin seja maior do que a sua vontade própria. E é aqui que todo o hedonismo, todo o esbanjamento de tempo, dinheiro e energia, dá lugar à melancolia e ao definhamento de Chloé, de Colin, de Chick e de tudo o mais que tenha alguma relação com o casal – nem os ratos escapam.

É triste, e belo, acompanhar essa gradual decadência, sentir o desespero que vai tomando conta das personagens e minando as esperanças que de início tanto os nutriam. Casais jovens e que se amam incondicionalmente não merecem fim assim, e da mesma forma que a doença de Chloé consome toda a alegria e a cor de seu ambiente, o leitor vai sendo tomado por esse sentimento melancólico que anuncia uma fatalidade.

O trailer da adaptação cinematográfica de A espuma dos dias sugere uma leveza única à história: as personagens flutuam em nuvens, voam, se movimentam como se dançassem ballet embaixo d’água. Essa sensação de leveza não é uma exclusividade do vídeo, mas se deve muito à narrativa de Vian. O fluir das palavras, as junções absurdas que o autor faz entre texturas e objetos – como os vestidos de metal das jovens nas festas, a cama flutuante do quarto de Colin, os pratos elaborados com sabores inusitados de Nicolas – sugerem uma praticidade que deixa as personagens caminharem pela trama sem dificuldades, sem esbarrarem em coisas mundanas. Com um toque do dedo, Colin é capaz de fazer uma mesa inteira virar e levar a louça suja por um tubo até a pia da cozinha, onde ela será prontamente lavada. É possível imaginar isso acontecendo em câmera lenta, envolvido em um bruma que transforma a cena em mágica, como se fosse um sonho em que tudo acontecesse na velocidade de um estalar de dedos. Durante seu período feliz, o casal realmente enxergava as coisas acontecendo dessa forma, como se o amor e a felicidade que viviam fossem derrubar qualquer obstáculo que os separassem do desfrute da vida. O que, certamente, deixa de acontecer conforme Chloé se entrega à doença inesperada que a acomete. Tudo fica mais difícil e menos leve, até o ato de caminhar parece um martírio.

A espuma dos dias pode parecer, no começo, um tradicional conto de fadas, cheio de cor, leveza e coisas sublimes, mas é mais perfeito que isso. Perfeito por ser realista – por mais fantástica que a narrativa de Boris Vian seja –, onde o casal feliz não é feliz para sempre, pois o “para sempre” não existe. O que existe são jovens belos e sadios sendo pisoteados por uma inconveniente doença, ou por uma inconveniente guerra, ou por uma inconveniente cultura opressiva que arranca qualquer possibilidade de futuro, alegria e tranquilidade, por maiores que sejam os esforços para tentar salvar o que resta. É essa impossibilidade do final feliz, e todo o cenário construído por Vian, que faz a leitura ser marcante.

4 comentários para “O “para sempre” não existe

  1. Desde que vi a adaptação cinematográfica me apaixonei pela história, encontrei nela elementos que costumam me encantar nas leituras: o fantástico e o surreal inseridos numa trama de mensagem palpável. A delicadeza de tudo, a perfeição que não era perfeita, enfim. Encantador. E espero que o livro me encante tanto ou mais que o filme. (Comprei o livro, claro, mesmo pagando uma pequena fortuna por ele…)
    Ah, adoro esse estilo kitsch da capa hahahaha.

    Um beijo, Livro Lab

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