A graça e a desgraça do México oitentista

em 18 de outubro de 2013

Informações

  • Autor: Juan Pablo Villalobos
  • Tradutor: Andreia Moroni
  • Editora: Companhia das Letras
  • Páginas: 160
  • Ano de Lançamento: 2013
  • Preço Sugerido: R$36,50

Viver numa família grande deve ter lá suas vantagens, o irônico é que nunca encontrei nenhuma lista sobre como é bom ter diversos irmãos, tios ou avós morando sob o mesmo texto. As desvantagens são quase inúmeras: dividir quartos, comida, tarefas, atenção dos parentes, castigos e, em alguns casos até aniversário 1. Essas grandes famílias estão cada vez mais raras – salvo as exceções de Brad Pitt e Angelina Jolie ou Mr. Catra –, ter um irmão para essa próxima geração será um grande lucro.

Se Vivêssemos Em Um Lugar Normal, novo livro de Juan Pablo Villalobos, apresenta a história de uma família de 9 membros – sete filhos, uma mãe dona-de-casa-dramática-como-uma-personagem-principal-de-insira-sua-novela-mexicana-favorita-aqui e um pai professor de educação cívica – vivendo em um lar apelidado pelo narrador de “caixa de sapato”, no morro da Puta que Pariu,  em Lagos Morenos, e sobrevivendo ao México em crise inflacionária dos anos de 1980.

Parte de uma trilogia iniciada por Festa no covil, temos visões sobre o México através dos olhos de uma criança (Festa) e de um adolescente em formação (Se vivêssemos). A terceira parte, sob a ótica da velhice, ainda não tem previsão de lançamento e sequer um título escolhido. Este novo livro de Villalobos é bem humorado por todas as suas 160 páginas, mas é aquela típica graça da desgraça. A batalha por quesadillas na mesa, o desaparecimento de membros da família, a perseguição a extraterrestres pelo filho mais velho. A mãe que recusa a clara condição social familiar afirmando serem de “classe média”. O pai que quer mudar o cenário político com seus palavrões e insultos em frente à TV mas se recusa a sair do mesmo lugar – Sofá? Casa? Cidade? – e para convencer os filhos de que “não há lugar como nosso lar”, promove uma viagem, com intuito de mostrar que o mundo é igual em todo lugar, e leva-os para uma cidade tão miserável quanto aquela onde vivem.

Como se fosse possível piorar a situação, um casal de poloneses constrói uma mansão ao lado da “caixa de sapato” e logo atraem olhares para quanto ao morro tornar-se um grande empreendimento imobiliário.

 

(…) como se os níveis socioeconômicos fossem um estado mental

 

Narrado pelo mais lúcido dos filhos do casal, Orestes, acompanhamos as digressões de cada membro da família, enquanto somos bombardeados de analogias recheadas de palavrões sobre quesadillas e a economia, sobre probreza e riqueza, sobre oportunidade e comodismo. É através desses diversos contrastes que o autor constrói um protagonista racional capaz de sintetizar os mais espinhosos assuntos de maneira didática, a exemplo de quando compara os vizinhos ricos aos ursos da história de cachinhos dourados:

 

Os três eram robustos, levemente gordos mas não obesos, só gordinhos, gozavam desse excesso de peso que se costuma considerar uma marca de elegância nas famílias mais endinheiradas. (…) Bem que poderiam ser os ursos da história infantil, dava vontade de entrar escondido na casa deles para roubar sua sopa e dormir um pouco na cama deles.

 

Nem todo sarcasmo é tão evidente na história como este citado acima ou aquele usado para explicar o cenário econômico do país através de medidas por “quesadillas”. Parei para pensar, e entender, diversas vezes o porquê do pai de Orestes batizar todos os filhos com nomes helênicos e por mais que pareça uma opção, não acreditei ser por acaso. O próprio Villalobos me contou:

 

Lagos de Moreno é chamada “a Atenas do ocidente de México” (fala sério…).

 

Em uma análise mais apurada, e consequentemente triste, Orestes constata um abismo na diferença de idade entre ele e seu vizinho, apesar de serem biologicamente equiparáveis. Explico: por viverem na mesma vizinhança, mesmo em duas classes completamente diferentes, os dois são postos como amigos inevitáveis. Por um lado, Oreo (assim nomeado após o começo dessa amizade) encontra-se deslumbrado de entrar em uma casa tão grande (um quarto só para brinquedo, um quarto só para TV, um quarto para empregada, etc.), mas um pouco incomodado pelo entretenimento eletrônico do vizinho, um jogo estúpido de atirar em naves que invadem a terra sem objetivo ou vitória relevante. Espanta-se também com a quantidade de comida oferecida, que ele devora em poucos minutos, por questão de educação, em um simples lanche da tarde.

As diferenças não ficam apenas nos dois jovens. O pai de Orestes é admirado pelo vizinho por ser professor, mas vive à mercê de uma profissão de péssima remuneração e sem real reconhecimento no México. Até mesmo sua esposa prefere os filhos em escolas particulares – demonstrando indiretamente o quão precário considera o sistema de ensino público e quão baixo é o trabalho do patriarca se comparado, por exemplo, com o de inseminar vacas, que tem o vizinho.

 

Que tempos difíceis eram aqueles: ter a vontade e a necessidade de viver, mas não a habilidade. (Charles Bukowski)

 

Essa citação de Misto Quente voltava a me atormentar quanto mais perto eu chegava às derradeiras páginas do romance. A família de Oreo busca subterfúgios, através da fé, de orgulho, de fantasias, de uma fuga dessa vida, ao longo da narrativa para escapar dessa realidade desgraçada. Todavia, eles não têm nada que os faça sair realmente, por desilusão – ou por demasiadas ilusões sobre escapes mágicos causadas por seus anseios de se livrarem uns dos outros para comerem mais quesadillas. Esse retrato da família desafortunada é um retrato do México dos anos de 1980 e o autor não perde a mão ao deixar pequenos cenários espalhados pela narrativa mostrando como religião, comodidade e conformismo só alimentam essa inditosa nação.

Outra qualidade inegável do livro e de Juan Pablo Villalobos é o estilo narrativo. Se em Festa no Covil esse era o grande destaque, Se Vivêssemos Em Um Lugar Normal não perde em nada e exalta que o autor é capaz de manter um narrador crível dessa idade. A voz de Orestes é cativante desde suas reflexões mais banais até a cólera juvenil intrínseca de seus palavrões.

Uma história com ótimo balanço entre a graça e a desgraça, sucinta, e que ainda presenteia com um final fortemente latino – o que é sempre bem-vindo – além de abrir o apetite para a terceira parte da trilogia. 2

  1. ok, isso é comigo, mas a diferença é de 20 anos, então sem problemas se a comemoração tiver piscina de bolinhas
  2. E para comer quesadillas. Sério.

2 comentários para “A graça e a desgraça do México oitentista

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