Bot pra que te quero

em 25 de novembro de 2013

Foi mais uma semana boa e comum em nossas vidas online. E como toda semana boa e comum, tivemos ao menos um meme pra sorrir, alguma produção interativa-original pra falar “wow”, um tópico pra reclamar da situação econômica da classe média brasileira e um aplicativo engraçadinho para fazer a situação econômica da classe média brasileira ficar pra depois: o bot.

Não é exatamente uma ideia complexa, mas funcional. Levando em conta que grande parte do conteúdo que produzimos na internet está em redes sociais, e aí me permito incluir o e-mail como parte desse grupo, é natural pensar em uma revisitação desses textos. Olhando para duas das principais plataformas sociais, facebook e twitter, notamos como é difícil ter uma visão geral daquilo que produzimos. Não existe uma forma acessível  de pesquisa ao que foi postado a tempos atrás, ou divisão de assuntos, tampouco busca de palavras-chave.

Já surgiram algumas alternativas que se integram a  essas plataformas, como o timehop, aplicativo que mostra o que você postou a exato um ou mais anos atrás. O wordle, que mapeia as palavras mais usadas nesse tempo todo de vida online e o TwimeMachine, ferramenta de busca de tweets. O caminho seguinte seria desconstruir e brincar com esse conteúdo. O bot tem isso e mais: Usa como base o narcisismo tão necessário para o sucesso na internet.

Digo isso porque só entende a piada, como um todo, o próprio usuário-coautor. Somente ele sabe quais palavras usa em sua rotina e será capaz até mesmo de lembrar algumas situações em que aquele trecho foi originalmente escrito para depois ganhar um novo sentido na construção do bot. O interessante aí é notar o comportamento do outro: os usuários que leem o seu bot têm uma camada de entendimento diferente sobre o conteúdo criado. Eles podem te conhecer e até identificar as palavras que você usa, mas predomina o discurso final do nonsense.

Ilustração: Ana Mohallem

Ilustração: Ana Mohallem

E, de alguma forma, o nonsense, bagunçado e esvaziado, é mais interessante do que as suas piadas ou reflexões originais. (Nesse post têm uma reflexão parecida, pra quem quiser continuar brisando nessa linha). A mesma desconstrução é vista em imagem no Feeling Cagey – esse também apareceu há poucos dias – que transforma selfies-desconhecidas em Nicolas Cages. Eu me arrisco a um palpite: há uma crescente nessa forma de humor, que consiste em destruir o narcisismo ou conteúdo dotado de significado do indivíduo em nonsense coletivo.

trolololo

Você não conhece essas pessoas e mesmo assim isso é engraçado. O narcisismo do indivíduo, quando vira nonsense coletivo, é engraçado pra caralho.

Por fim, um exemplo não menos maravilhoso que os dois: uma boate em Dublin decidiu transformar fotos de festa em vídeos constrangedores. O resultado beira o nonsense e também trata de uma desconstrução do narcisismo, mas também cai na antiga teoria de Thomas Hobbes, em que rimos por nos sentirmos superior às pessoas envolvidas. “O riso é um tipo de glória repentina”

 

 

Me permito agora a um joguinho. Autores, atores, dramaturgos, cantores, poetas e Luana Piovani. Todos eles ligaram seus computadores agora para produzir bots inspiradores. Aqui é um caso raro em que temos a chance de entender a mensagem como um todo, antes e depois de sua recriação (ou não).

“No meio do caminho teve a ideia de cortar o tempo em fatias, enlouquecendo nossas horas deixa confundido este coração.” – Drummondbot

“Com um vinho barato o pop não poupa quem não engana a si mesmo e.” – GessingerBot

“Xiii Marcella nem senta lá com meu anjo” – Xuxabot

“E o perdão ele engole as lágrimas” – Carpinejarbot

“Deixa eu dizer seja eu meu peito e” – MarisaMontebot

“Me empreste suas penas tudo cabe em uma metade da zebra” – ArnaldoAntunesbot

“Houston, grande salto para os salmões precisam da minha profissão” – NeilArmstrongBot

“é fazer sexo com quando eu era pequeno meu segundo órgão favorito” – WoodyAllenbot

“aah sua puta” – LuanaPiovanibot

 

Essa falácia toda só não se aplica em um caso: Djavan. Isso porque ele já é um bot natural. Se remixarmos o seu discurso, é capaz de fazer mais sentido que o original.

Mais fácil aprender japonês em braile do que você decidir se dá ou não? -Djavanbot

 

(Djavan era bot before it was cool. Observação a luz de um Sarau Elétrico)

 

 

2 comentários para “Bot pra que te quero

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