Ascensão e queda do rei – mas não do reino – de Gonçalo M. Tavares

em 11 de dezembro de 2013

Informações

  • Autor: Gonçalo M. Tavares
  • Tradutor:
  • Editora: Companhia das Letras
  • Páginas: 360
  • Ano de Lançamento: 2008 (ed. portuguesa: 2007)
  • Preço Sugerido: R$ 54,00

Como texto final sobre a série romanesca “O reino”, de Gonçalo M. Tavares, pensei em fazer uma recapitulação da minha leitura. Tentei ser sistemático apesar de não ter começado o sendo; iniciei a série pelo terceiro volume. Não se trata de um enredo linear, como nas séries de literatura juvenil, mas acredito que faz sentido realizar a leitura dos quatro romances de “O reino” na ordem publicada em Portugal – a Companhia das Letras começou por Jerusalém, o terceiro e mais premiado volume. Desse modo, depois de Jerusalém, parti para Um homem: Klaus Klump (primeiro), A máquina de Joseph Walser (segundo) e, agora, Aprender a rezar na Era da Técnica (quarto).

Esse último romance da série tem o subtítulo de “Posição no mundo de Lenz Buchmann”, como se fosse um bildungsroman. Novamente, assim como nos outros romances da série, temos nomes germânicos ou que remetem à língua alemã – ainda que possam ser inventados –, daí a existência do protagonista com esse nome. Apesar disso, não há qualquer intenção do autor de caracterizar o país, a cidade onde se passam as tramas da série como a Alemanha ou qualquer espaço ou tempo definidos historicamente. A temática do autoritarismo e as relações humanas marcadas pela violência nos lembram dos fascismos do século XX, porém esse aspecto pode muito bem dizer respeito a qualquer regime claramente autoritário da modernidade.

Estruturado em duas partes chamadas “Força” e “Doença”, o romance deixa claro desde seu título que tratará da vida de Lenz Buchmann, cirurgião renomado cujo pai falecido era reconhecido como pessoa de boa reputação. A crueldade de sua criação, exposta desde o primeiro capítulo por sua obrigação imposta na infância pelo pai de ver a doméstica ser estuprada, é aos poucos minimizada pela violência do cotidiano de Lenz que degrada suas relações humanas, bem como a de outras personagens. A educação dada visando a “força”, a liderança leva ao dominador, cirurgião preciso que desvaloriza seus pacientes e aprendizes, homem que abusa da esposa, que humilha mendigos e que, acima de tudo, não pode sentir medo. Após a morte de seu irmão Albert, político apesar de ser sempre visto como mais “fraco” por seu pai, Lenz sente a necessidade de legitimar a importância de seu pai, de seu sobrenome, por isso investe na carreira política ao se filiar ao Partido, magnânimo como todo grupo de um governo autoritário, presente em várias obras da literatura – George Orwell vem à cabeça de todos.

Gonçalo Tavares é a todo momento chamado de “Kafka português” pela melancolia e pelo distanciamento entre os indivíduos modernos criado pelo poder. Nos primeiros romances de “O reino”, temos a caracterização desse “homem banal” criado pelo autoritarismo, uma “máquina” como Joseph Walser. Em Jerusalém, temos o também médico Thomas Busbeck, que deseja escrever um tratado sobre o horror na história enquanto ele mesmo promove relações sociais à sua volta permeadas pela violência. O humanismo do século XIX é, na obra de Gonçalo, questionado por uma razão que destrói a sensibilidade não apenas na ciência, mas também em toda a configuração social.

Em Aprender a rezar na Era da Técnica, Lenz Buchmann incorpora essa figura do dominador social, como Busbeck, que almeja o poder político em toda sua extensão, não apenas econômica ou cultural. Seu dinheiro e sua biblioteca, herdada de seu pai, são cautelosamente preservados como símbolo dessa dominação social a ser completada pela direção partidária. No dia em que assumirá a posição de vice-presidente da cidade junto com o candidato Hamm Kestner, em uma eleição manipulada com nenhum outro candidato mencionado no texto, Lenz tem uma dor de cabeça agonizante que o leva ao hospital. Aí descobre, finalmente, que possui um tumor alastrado por seu corpo, iniciando-se a segunda parte do romance, “A doença”.

É interessante pensarmos como a doença justamente parece ser o ponto de inflexão, de mudança de rumo na vida de Buchmann. Nos ensaios Doença como metáfora e AIDS e suas metáforas, a escritora e crítica americana Susan Sontag nos explica como doenças epidêmicas e crônicas são vistas pela sociedade ocidental sob metáforas que servem para estigmatizar o doente. Falamos que um vírus “invadiu” um corpo (metáfora militar) e tomou conta desse organismo, como se ele fosse um território, uma nação. Perdemos o domínio desse corpo para o invasor, que pode muito bem conquistar outros terrenos/seres. Os doentes, de acordo com essa ideia, são pessoas inferiores, que devem ser isolados da sociedade para mantê-la “saudável” e “higiênica”.

No caso de doenças crônicas, como o câncer (“cancro” no vocabulário lusitano), consideramos aquele que o desenvolveu como alguém fraco, inferior, que se deixou levar infelizmente por algo que surgiu dentro dele como resposta a essa falta de força. Cientificamente, é claro, até podemos comprovar que qualquer um de nós pode ter um câncer, especialmente se não tomarmos alguns cuidados, porém socialmente o portador da doença será sempre alguém de quem se ter pena.

Não é à toa, portanto, que Lenz Buchmann tem um tumor alastrado por seu corpo. A metáfora da doença cabe muito bem para desmoralizá-lo como possível figura de poder dentro do Reino de Gonçalo. O médico renomado, agora político, se torna imediatamente alguém do qual todos têm pena, porém que não deixam de ver como inferior. O câncer, doença considerada “incurável” no imaginário popular, é com certeza a pior coisa que lhe poderia acontecer, que o rebaixa ao nível até mesmo de um surdo-mudo, também rejeitado socialmente, inclusive pelo próprio Lenz.

Ao final da obra, Gustav Leignitz, irmão de Julia, secretária de Lenz, se sente finalmente superior a outro homem, ainda mais a outro que já demonstrou ser mais “forte” do que ele e que, agora, se vê acometido de uma doença que metaforicamente é responsável pela submissão de si por um dominador. Eles se tornam responsáveis por cuidar do ex-cirurgião em sua casa, em seu leito de morte. Buchmann já não é mais lembrado pela cidade nem mesmo pelo Partido, pois se tornara alguém inferior ao cargo que lhe designaram. Ele definha até seu falecimento, sem conseguir se matar como fez seu pai aos primeiros sinais de envelhecimento. Aquele que fora um candidato a “rei” do Reino de Gonçalo M. Tavares deixa de ser “forte” porque se torna “fraco” para, por consequência, morrer. O Reino, porém, se mantém, bem como suas personagens em suas relações destrutivas. Aprender a rezar na Era da Técnica realmente fecha a série por sintetizar – no maior volume dos quatro em extensão – todas as temáticas desenvolvidas nos outros romances ao se concentrar em uma personagem.

Um comentário para “Ascensão e queda do rei – mas não do reino – de Gonçalo M. Tavares

  1. (montei um comentário que acabou virando três.)
    quando li AarnEdT não havia cogitado a hipótese de lê-lo como um bildungsroman. acho que ele ultrapassa a esfera do romance de formação – um O retrato do artista quando jovem, do joyce, p. ex., se encaixa melhor na definiçào – ao narrar não apenas a infância e juventude de lenz buchmann com também sua ascensão e decadência enquanto homem político, até sua morte.
    concordo quanto a ler a série na ordem em que foi publicada em portugal, pois assim o desejou o escritor. bem porque há personagens que aparecem em mais de um livro – não me lembro bem, mas há uma cena num hospital em que o médico do Jerusalém ou o do AarnEdT ignora um paciente, que era o protagonista do primeiro livro, e que aparece do ponto de vista de ambos (médico e paciente), o que é genial.
    gostei do remate final sobre O Reino e sua unidade, que no final se sustenta. não acompanho os contemporâneos in loco, mas tenho minha fezinha de que gonçalo m. tavares está entre os melhores escritores não só de língua portuguesa, mas de todo o mundo. OR mostra claras influências de kafka, que ele absorveu como poucos; mas também há muito de hannah arendt, walter benjamin e machado de assis (aproximar AarnEdt deO alienista dá um ensaio razoável). e acho que suas outras obras (pelo menos as que li: a série O Bairro, os poemas de Um e um livro bem inclassificável: O homem ou é tonto ou é mulher) são tão boas quanto OR. enfim, apenas um comentário de um leitor entusiasmado.

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