Quando exatamente nos apaixonamos?

em 20 de dezembro de 2013

Informações

  • Autor: Boris Vian
  • Tradutor: Paulo Werneck
  • Editora: Cosac Naify
  • Páginas: 256
  • Ano de Lançamento: 2013
  • Preço Sugerido: R$ 49,90

A paixão por um livro, por exemplo, se inicia quando escolho a capa do meu exemplar? (No caso do livro que citarei, não é apenas uma questão de pegar o menos sujo e amassado: as capas são distintas umas das outras.) Ou só vale depois de ter lido tudo?

Ainda no prólogo de A espuma dos dias, li

“[…] as poucas páginas de demonstração que vêm a seguir extraem toda a sua força do fato de que a história é totalmente verdadeira, pois eu a imaginei do começo ao fim”.

E foi o que bastou.

O aviso não indica, contudo, que eu estava preparado para a verdade do livro. Quando um personagem (já na primeira página) termina sua higiene pessoal aparando “obliquamente os cantos das pálpebras foscas”, não li isso literalmente. Pensei em uso inventivo da linguagem. Foi então que outras coisas absurdas passaram a ocorrer – tantas quantas poderíamos esperar numa obra feita para ser adaptada cinematograficamente por Michel Gondry –, dando margem à possibilidade de serem interpretadas em sua literalidade: “a história é totalmente verdadeira, pois eu a imaginei do começo ao fim”. Surpreendi-me quando descobri que o autor morreu décadas antes de Gondry se consolidar como diretor. Juntos, eles formariam uma dupla daquelas.

Enfim: Anything could happen, como diz a canção de Ellie Goulding. Aliás, se você assistir ao clipe dessa música, já estará preparado para a cena em que os protagonistas dão um passeio em uma nuvenzinha rosa.

“– Queria estar apaixonado – disse Colin. – Você queria estar apaixonado. Ele queria idem (estar apaixonado). Nós, vós, queríamos, queríeis estar. Eles queriam igualmente se apaixonar…”

Colin está muito bem, obrigado, até seu amigo Chick aparecer com uma namorada, Alise. Ah, agora ele passa a querer uma. Também quer receber cartas de amor, quer alguém com quem dançar, quer uma alma gêmea do tipo exato da namorada do amigo. Não sendo possível, começa a recitar o mantra-conjugação-verbal da citação acima. Não poderia ser mais engraçado. Daí ele conhece Chloé, uma moça com nome de canção de jazz. Não poderia ser mais desbragadamente romântico. Eles são felizes e se casam e são mais felizes. Se você levantar os olhos do romance bem rápido, vai perceber como o mundo fica mais colorido por alguns instantes.

O mundo fica assim até que descobrem – e você descobre junto – uma flor que está nascendo no pulmão da mocinha, o que compromete a sua saúde. A partir de então, o autor passa a nos tratar com uma marreta desvairada. Não liga se pega nas costelas, no rosto, nos joelhos. Boris talvez ache graça em nos triturar até cabermos numa caixinha de sapato. De criança.

Mas o romance não é apenas isso, apenas uma história de como o amor se inicia e definha. Antes fosse: talvez fosse fácil tachá-lo de bobo e nos resguardarmos sob nossa carapaça intelectual. Aqui e ali, Vian nos apresenta uma visão cômica do pensamento de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir – que aparecem no livro como Jean-Sol Partre e duquesa de Bovuar. Fala de uma sociedade em que casamentos possuem tanto damas quanto pederastas de honra. Mergulha, à sua maneira, no contraste entre classes sociais e no desnível da distribuição de riquezas, tal como nas cenas motorizadas de O grande Gatsby.

E, finalmente, a obra fala muito diretamente a nós bibliófilos. Chick é um verdadeiro colecionador de tudo do Partre e compra tudo dele, indiscriminadamente – mesmo que o dinheiro lhe tenha sido dado para que se case com Alise. Memorabilia. Novas edições de livros que já leu, em especial, tais como: um livrinho com encadernação vermelha, o original de Paradoxo sobre o vômito; uma edição de Escolha preliminar antes do orgulho em papel higiênico não picotado; um exemplar encadernado do Vômito – é interessante notar as referências a A náusea, de Sartre; um exemplar do Bafio encadernado em marroquim roxo, com as armas da duquesa de Bovuar.

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Nos dias em que lia A espuma dos dias, vi uma edição de luxo do discurso Make good art, de Neil Gaiman, na livraria. Eis um autor capaz de, hoje, fazer fãs comprarem novas edições de obras que já possuíam – ou livros ricamente ilustrados de forma a esconderem que seu conteúdo é apenas um discurso que pode ser lido online. Algo semelhante, creio, fizeram com o discurso de paraninfo de David Foster Wallace. Há algo de ridículo nisso – tanto quanto é algo cômica a paixão de Chick.

Então nos damos conta – bibliófilos que somos – no quanto também somos ridículos. É fácil julgar o fã do Neil Gaiman – especialmente se você nunca o leu – ou do David Foster Wallace – “esse aí só quer entrar na modinha”. Difícil é explicar a razão de precisarmos das novas traduções dos livros Nick Hornby, quando já temos as antigas. Ou o motivo de nos presentearmos com a nova edição de Os trabalhadores do mar, recém-lançada pela Cosac Naify, quando já temos o livro, comprado há 10 anos e nunca lido. Como diria o cachorrinho do meme: “qual é a necessidade disso?

Talvez uma verdade imaginada não esteja lá muito distante da verdade.

Um comentário para “Quando exatamente nos apaixonamos?

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