Posfácio – Um conto de Natal (Parte 1)

em 24 de dezembro de 2013

Portas.

Eu sempre admirei quem as atravessa como se fossem inofensivas, pessoas convictas de que, do outro lado, não há outra possibilidade além do quarto, da sala ou do outro ambiente que tenham em mente.

Portas.

Nem para desconfiarem da realidade. Não é como se não tivessem sido avisados: quantos devem ter visto Monstros S.A. e Matrix Reloaded? Muitos milhões, eu presumo. Não acho que seja pedir muito.

Portas.

E tem quem ria do aviso “Antes de entrar, verifique se o elevador se encontra parado neste andar”. As pessoas entram sem olhar e tem quem caia no poço do elevador. Só assim não riem. Mas há coisas piores: o elevador pode estar em movimento – quiçá, separar em duas metades o seu corpo franzino. Ou pior: em vez de encontrar sua mãe segurando-o no andar para que os dois desçam juntos e passeiem pela praia tomando sorvete, você pode trombar com Charlie e o elevador de vidro, que virará à esquerda e depois subirá até a estratosfera, onde um chá quentinho seria muito mais conveniente. Pequenas surpresas elas, as portas, nos reservam.

Portas.

Quando alguém se pergunta como, raios, foi parar entre garotos malditos ao invés de encontrar os superdeuses que entrevistaria (história do meu amigo Jim, um jornalista); ou por que está dentro do espelho, vendo a espuma dos dias se esvair, ao invés de passando um dia da praia, pegando a melhor onda (ouvi essa história de Pinóquio, um surfista de vida besta); ou até mesmo why the hell ela caiu nesse campo em branco, pensando na morte da bezerra ou na tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, ao invés de estar aproveitando seu dia de folga no Carnavália, aquele bar novo, com Maggie, a mecânica, e as outras lôcas (Vitória Valentina que me contou essa, na época em que éramos vizinhos), é muito difícil que esse alguém chegue à conclusão de que deveria culpar as portas. Não, a culpa foi do GPS. Não, eu é que bebi demais.

Chaves.

São tudo de que alguém precisa. Tendo-as (reunidas, digamos, em um chaveiro com uma imensa flor turquesa de espuma e uma corrente decorada por contas que soletram o nome da sua melhor amiga) e sabendo usá-las (quantas vezes girá-las, quantos pulinhos são necessários durante a operação), você é uma pessoa de sorte. Não sendo um néscio, você pode não apenas ter certeza de onde está se metendo como tem a oportunidade de pegar atalhos – acordar atrasado, enfiar a chave na porta do quarto, dar três pulinhos e abrir a porta da sala de aula na universidade tornou-se um hábito meu.

Chaves.

Eu sei onde você colocou as chaves de casa ontem à noite: taí um romance que eu leria. Teria na cabeceira. Carregaria para tudo quanto é lado, assim como todo dia carrego minhas chaves. Aquelas que perdi, em algum lugar, ontem.

Chaves.

Cá estou eu, em frente ao portão da minha casa, sem coragem alguma de entrar. Ainda que ele esteja visivelmente aberto: esqueci de fechar, besta que sou. Não entro porque sei da cota de “acidentes com portas” que cabe a todo ser humano. Quando se usa as chaves em benefício próprio, você não se perde uma vez sequer. Mas a sua cota vai se acumulando até o dia em que você perde as chaves. Quando isso acontece, é pior que sonho de uma noite de verão. A pessoa está condenada a peregrinar por contos de mentira e cenários de fantasia e a travar diálogos impossíveis com amigos imaginários (eles são péssimos para dar pistas, ficam de lero-lero e só falam 13 palavras a cada meia hora) e a manter-se quieto quando escuta o chamado do monstro (ouvir sua voz dentro de mim é algo que não pretendo repetir) e, finalmente, a enfrentar o gato e o diabo que estiverem escondendo-as.

Chaves.

* * *

Só tenho uma coisa a fazer. Saco o celular da bolsa de pano e ligo para o primeiro número da agenda.

“B., preciso da tua ajuda. Perdi as chaves de novo. Estou na frente do portão de casa.”

E desligo. Minha menina a caminho. Fico à espera.

B. é uma garota exemplar: ela nunca perde suas chaves, ainda que não ligue para elas. Ela ficaria muito mais preocupada se perdesse uma echarpe da sua coleção, um de seus coletes de pesca, cheios de bolsos absolutamente necessários, ou – Deus a livre! – os seus óculos escuros. Nunca a vi sem estes. Não sei qual é a cor dos seus olhos. Ela já tentou me explicar a razão deles – os seus problemas com portas poderiam ser sanados se você achasse o par ideal de óculos escuros e… –, mas eu nunca dei bola. Caso você esteja se perguntando: sim, ela fala em itálico, uma voz de soprano, segura de quais notas alcançará; sim, ela é o tipo de pessoa que usa palavras como sanados.

O portão de casa se abre e B. o atravessa, vestida com os itens que lhe são indispensáveis. Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo, não há distância grande o suficiente para quem sabe usar as chaves.

Desculpe a demora, Raul. Estava procurando o meu cachorro para prender antes de sair etc. O Pum, um desses cães heróis, sabe? Esse é novo. Enfim, perguntei para Bee – ela tá enorme, uma graça: quem soltou o Pum? Sabe o que ela me disse? Soltei o Pum na escola! É isso que dá dar um nome desses para um cachorro. As crianças adoram! Pois bem, tudo bem se ele está na escola: um dos professores cuida dos animais etc. Nunca lembro se é o professor de botânica ou a professora de abstinência… Ok, não interessa. Daí, preparei o café da manhã da pequerrucha e achei o seu elefante de estimação e li mais uma vez a história de Endrigo, o escavador de umbigo, até que ela me autorizou a vir te ajudar. Agora, antes de qualquer coisa: posso saber por que motivo você está sem calças?

Eu nem tinha notado. Camiseta e tênis estão no lugar; mas, onde deviam estar as calças, só vejo uma samba-canção estampada com corações. B. se aproxima, cheira o meu hálito, lambe a minha mão esquerda e dá o veredicto:

Tequila! Típico. As aventuras do Capitão Cueca. Eu mereço! A fim de enfrentar privadas falantes, zumbis nerds ou um menino biônico de meleca seca? Como se não bastasse perder as chaves, ainda tenho que aguentar isso! Você, mais do que todo mundo, sabe que amnésia alcóolica existe! Por que insiste? Tequila! Francamente…

Deixo que recupere o fôlego, antes de tentar fazer uma piadinha.

“Podia ser pior: eu, nu, de botas.”

Não deu muito certo.

Seriously? Nem me lembre desse dia, o dia de chuva mais doido que existiu. Se não tem nada a dizer, por que não cala a boca? Aff… Pera, eu devo ter algo aqui.

De um dos bolsos de seu colete, tirou dois tubinhos de tecido, enrolados de modo a ocuparem o mínimo de espaço. Um, branco e florido; o outro, preto.

Quer ficar assim ou assado?

Não entendi. Ela me jogou o último rolinho.

“O que é isso?”

Leggings. Nunca sei quando vai bater a vontade de fazer ioga. Ou pegar a bicicleta epiplética e pedalar até a rua da padaria ou algo que o valha.

“Ioga para quem não está nem aí. Tá se exercitando. Curti.”

Vesti-me como deu – não aconselho a experiência de enfiar uma samba-canção dentro de uma legging – e me preparei para os comandos:

O seu cabelo está bem aparado: você deve ter passado na Laura para um corte. Além de uma garrafa d’água vazia e uma mancha enorme de sangue, há três livros na sua bolsa de pano inseparável. Eu chutaria que você passou na biblioteca pública, daí a seleção de livros. A garrafa provavelmente estava cheia de água gelada e foi um empréstimo daquele teu amigo – aquele que é sonâmbulo, o desenhista amador…

“O Carlos?”

Esse! Você sempre esbarra naquela estante dele e leva uma livrada na cabeça. Qual foi dessa vez? Um Building Stories? Uma edição em capa dura de Psicose? Um V.I.S.H.N.U? Nada mais higiênico do que estancar o sangue com a coisa mais próxima.

“Fico besta quando me entendem. Assim, tão profundamente.”

Pfff… Você é como os maus hábitos e os monges: tem uma fidelidade perigosamente à previsibilidade. Eu vejo o seu futuro pelo retrovisor, meu caro.

Queria ter forças para discordar, mas deve ser verdade. Acho que nunca vou me mudar de Suburbia. Não tenho previsão alguma de deixar de ser o príncipe do nonsense. Ainda tenho aquela esperança boba de que uma mudança súbita, ainda que mínima, me sobrevenha. De, por exemplo, dormir tranquilo, em vez de enfrentar outra noite de alface. Mas acho que a idade dos milagres já passou. Não à toa, eu bebo e esqueço tudo e perco as chaves por aí…

B. interrompe minha digressão com um estalar de dedos.

Ei! Eu estou brincando! Não precisa ficar com essa cara. A grande questão aqui é encontrar essas chaves, não começar o papo autoajuda – até porque alta ajuda é mais a minha cara. Deixa comigo. Só precisamos estar alertas aos cenários ficcionais que encontraremos entre os locais designados – imagino que a sua cota deve ter acumulado bastante. E a possíveis monstros e conejos infiltrados nos cenários reais: eles sempre falam em negrito. E a fazermos tudo isso muito rápido, que hoje o dia é cheio. Noite de Natal não tem Papai Noel, mas tem mãe sobrecarregada, lendo todos os livros favoritos da filha.

Uma aguinha chata cai dos meus olhos, tenho certeza que eles estão coloridos de vermelho amargo. Só consigo dizer duas palavras:

“Brigado, viu?”

E ela, com a delicadeza de uma porta:

Bah, agora eu vi! Era só o que me faltava! Se tá com inveja da Bee, vai lá pra casa depois. Eu até leio um dos seus favoritos, se ela permitir. Continua gostando dos da Trilogia da margem?

E eu:

“Muito!”

E atravessamos o portão da minha casa, logo após B. enfiar a chave, girar três vezes e meia e dar um pequeno passo de sapateado.

(Fim da primeira parte. A segunda se encontra aqui.)

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