Posfácio – Um conto de Natal (Parte 2)

em 25 de dezembro de 2013

(Esta é a segunda parte do conto. A primeira está aqui.)

* * *

Dois segundos e estamos na biblioteca pública. (Sério, não há propaganda melhor para o bom uso das chaves. Dois segundos não é nada.)

Nas mesas, leitores os mais diversos. Uma jovem de cabelo ruivo e piercing lê Um útero é do tamanho de um punho, com Carta a D. embaixo do braço – eu resisto ao ímpeto de lhe dar um abraço. Um rapaz de uniforme escolar folheia um exemplar de Réquiem para Dóris – um insurgente, deve estar vendo apenas as ilustrações. O velho de voz grave, o mesmo que sempre lê em voz alta, declama Poesia é não inteirinho – ao seu lado, um exemplar de Suicidas, que deve ser o próximo. Uma senhora passa com um volume de The Good Man Jesus

Ei! Não viemos bisbilhotar o que as pessoas andam lendo, viemos?

“Bah. Quanto mais eu me concentro, mais a ressaca demora a chegar. Pô, por tua culpa agora vou ficar curioso: qual o título completo do livro que aquela mulher pegou?”

Provavelmente era Cinquenta tons de cinza. Ou Toda sua.

“Nem. Começava com…”

Então somos interrompidos por um bibliotecário, que parece surgir do nada, debaixo de uma reprodução emoldurada do retrato mais famoso de Anne Frank. Por que nunca sou atendido pelo senhor Raposo K., aquele que adora livros?

Olá. Eu me chamo Antônio. Em que posso ajudar?

Eu sei que não é educado proceder desse jeito – o que diriam os legisladores do manual prático de bons modos em livrarias e bibliotecas, se me vissem? –, mas eu só viro para B. e grito:

“Corre!”

Todo mundo sabe que voz em negrito é voz de vilão. Dois segundos depois e o suposto bibliotecário exibe tentáculos para aberração alguma botar defeito. Derruba estantes e vira mesas. A biblioteca se enche de uma névoa perniciosa. B. já está perto da porta. Eu só preciso alcançá-la.

Mas lógico que eu ia me distrair com os livros que caíam das estantes. Uma teoria provisória do amor. Alguns livros que caem da mão de um guri que achou um lugar para se esconder – Astronauta: Magnetar, Paranorman, Chico Bento: Pavor Espaciar. Escorrego em um Guerra Mundial Z, quando um dos tentáculos segura o meu tornozelo.

Mal me dou conta disso e B. já está do meu lado – arremessando algo dentro da boca (boca?) da criatura asquerosa e gritando:

Vai embora grande monstro verde!

Quando vejo a fumaça saindo da boca (boca? – ah, vá: digamos que sim) daquela sombra gelatinosa e esverdeada, lembro que B. é filha de um fabricante de fogos de artifício. Nada mais justo que sempre tenha uma bombinha ao alcance da mão. Em breve aquela gosma borbulhante teria formigas saindo pelo nariz. Suas últimas palavras – além de GROUNFFF!!! – são:

Digam (murmúrio indistinto) recado foi entendido.

“Ok. Se você está dizendo, quem sou eu para discordar? Breve a história de Asdrúbal, o terrível – que não se chamava Antônio.”

Não foi dessa vez que você foi engolido vivo, mocinho. O céu pode esperar mais um pouquinho. Gente, eu sou poeta: até rimei!

Depois de dizer isso, B. me puxa até a porta, enfia uma chave na fechadura e faz um plié antes de girar a maçaneta.

* * *

Mal chegamos ao outro lado e B. atende o celular. Observo o local: cenário de filme de faroeste, decerto – provavelmente a entrada de um saloon. Quando olho para trás, não vejo ninguém. Só um post-it grudado no chão, escrito: Corra pra igreja que eu te encontro lá. <3 B.

“Where’d you go… Cadê você, Bernadette?”

Bate o medo: e se eu levar um tiro enquanto corro? Mas daí eu lembro que, parado, sou mais fácil de acertar. Pois bem, serei um sobrevivente! Pego ar e respeite a carreira que dou. Esqueço totalmente a asma – num cenário ficcional, a gente suspende a descrença e se esquece das limitações do mundo real. E é disso do que eu falo quando eu falo de corrida.

Tento não me distrair muito. Consigo ver uma árvore generosa em folhas, mas passo longe dela com medo de atiradores escondidos. Vejo uns cidadãos caçando carneiros, dois rapazes apascentando gado novo e um encantador de equinos – o dia desse homem seria cheio: eles eram muitos cavalos. Quando me dou conta, já estou na porta da igreja – a cidade inteira não passa de ruínas do tempo –, de onde sai B., com uma pistola em punho.

“Onde você conseguiu essa arma??”

Enquanto ela a enfia num bolso do colete e abre a porta (sem salamaleque algum dessa vez), responde:

Na minha casa, todos nós adorávamos caubóis.

E atravessamos mais uma porta.

* * *

Antes de me dar conta de onde estou, levo um tapa na cara.

Isso é por me chamar de Bernadette. Pensa que eu não ouvi?

“Eu só falo isso quando quero chamar sua atenção. Aliás, onde foi que você se meteu, hein?”

Longa história. Meu namorado ligou. Will Grayson, lembra? Queria ter uma conversinha. Por algum motivo, achou que seria legal me chamar de fria. “Quem você pensa que é? O Alasca?” Justo quando eu começava a ficar mais sentimental, ele me vem com uma dessas? Eu pensei em dar uma resposta. Falar, sei lá, que vemos as coisas como somos. Mas só disse adeus, por enquanto. Deixei ele lá e vim. Acho que agora virou ex.

“Você estava esperando que ele fosse pra sua casa essa noite? Uma noite de amor e música?”

Acho que sim. Esperava ao menos uma rodada de histórias de Paris ou que me contasse em que parte de O grande Gatsby ele estava. Eu dei esse pra ele antes de viajar, junto com um carnet de voyage para os seus pensamentos. Eu sou uma besta mesmo. A gente vivia como gato e cachorro.

“Temos opiniões divergentes, então. Besta sou eu.”

Aponto para onde estamos. O salão de Laura.

“Toda vez que venho cortar cabelo aqui é para executar o mesmo ritual. Mudança de vida. Sempre que uma nova obsessão que se inicia, ou que um novo fruto proibido encontra seu gênesis (quando as maçãs de antes já foram esquecidas), estou aqui. Eu falo que estou a fim de me dar uma última chance de fazer tudo certo, ela me responde que será a última vez que me corta o cabelo e eu pergunto como ela vai conseguir lembrar do meu rosto entre tantos. Resultado: só esse mês, cortei o cabelo 13 vezes. Agora me diga: qual a probabilidade estatística do amor à primeira vista? Deve ser a mesma de achar uma garrafa no mar de Gaza.”

Ou de saber como (talvez) fazer tiras relativamente engraçadas quase todos os dias.

“Bem por aí. Patético, não? É difícil ver o sentido de um fim. Até porque nem sempre faz sentido. Fazemos o que dá para fazer em matéria de história de amor, mas é isso. O amor acaba.”

Ok. Agora, vamos perguntar no balcão se alguém viu suas chaves, antes que entremos num redemoinho de amargura.

Aproximo-me da recepcionista, concentrada na leitura – a caixa preta de achados e perdidos logo atrás dela –, perguntando sobre ontem e sobre as chaves. Ela se adianta:

– Ninguém esqueceu nada aqui. Mas quer um conselho? Cara, se eu fosse tu, demorava mais um pouco para dar as caras por aqui. Laura está preparando o teu troco.

B. pergunta o que ela quer dizer com isso. A mocinha repousa seu exemplar de Naomi and Eli’s No Kiss List – sim, eu consegui ler o título, ponto! – antes de prosseguir.

– Ele não te contou? Ontem, além do lengalenga amoroso, esse aí resolveu aceitar a tequila de um dos nossos clientes especiais. Enlouqueceu. Não destruiu nada, mas ficou insuportável. Desenhou o teorema Katherine no chão com tinta guache. Cantou, até! Laura disse que só queria vê-lo de volta pintado.

Recebo um olhar recriminador de B. e da recepcionista. Pouco depois, sou derrubado com um tiro na testa e ouço um grito de Laura:

– Você me paga!

Azul. Ou meu sangue mudou de cor (e agora tenho veias nobres) ou fui atingido por uma arma de paintball. Em sendo a segunda opção, melhor fugir. Levanto-me e corro para me esconder no balcão. B. não foge dos tiros, mas se protege com um guarda-sol de alumínio – mais uma coisa útil para se ter no colete. (Qual a desculpa dela agora? Na minha casa, todos nós adorávamos astronautas que tomam sol na lua?) Ela grita:

No três, nos encontramos na porta dos fundos, ok?

“Sim! Mas, antes, vou abrir a caixa!”

Mas isso não é uma caixa!

Eu devia ter escutado. Uma explosão de tinta. Não tenho mais todas as cores em mim: agora, sou roxo por inteiro. B., precavida, vai sair daqui com manchas apenas nas solas dos sapatos. A recepcionista só não conseguiu salvar o livro. Laura diz:

– Agora me sinto melhor. Feliz Natal pra vocês, meninos! E, Raul, precisando, estou à disposição.

Aquiesço. Antes de abrir a porta dos fundos (um giro da chave para a esquerda, dois para a direita e um salto mortal para trás são suficientes), B. ameaça.

Nem cogite encostar em mim.

* * *

Um pavão macho, com sua exuberante cauda aberta, está sobre uma cama, no meio de um loft. Gritamos nossas adivinhações ao mesmo tempo.

É um clipe da Katy Perry!

“É a casa da Dindi!”

Ela apostando na ficção e eu na realidade – sim, eu poderia ter visitado ela, em vez do Carlos, não? B. aponta para seus óculos escuros com quem diz que não aprendi nada. Dois segundos depois, ouvimos passos e uma voz, logo atrás de nós:

Quase acertou, Raul. Esse é o meu apê, mas do jeito que ele fica quando tô sonhando. Um clipe da Katy Perry seria uma aposta mais exata. Agora você me explica o que vocês estão fazendo aqui? E por que você está roxo? E quem é essa aí, posso saber?

Viramo-nos na direção da voz sublinhada (acho que com raiva!) e lá está a moça: de quimono, com um vaso de samambaias no braço, como um bicho de estimação. É estranho, mas uma das cinco folhas (aliás, todas têm etiquetas com nomes: Yumi, Aoki, Cachinhos Dourados, Vovô Verde e, a folha em questão, Lolô) parece acariciar o seu pescoço, tal como o rabo de um gato. Tento não encarar: quem há de entender a vida privadas das arvores?

B. narra tudo que você leu até aqui. Dindi dá os pêsames pela nossa vida amorosa, fala que achou isso tudo meio autoficção meets ficção especulativa demais para o seu gosto, pede para ver a cor dos olhos de B., que aceita (que bonitos eles são!), reclama da minha suspeita quanto à sua raiva (achei ofensivo, apaga) e termina com:

Ahhh… Então, tá! Mas, ei, cê não veio aqui não, Raul. Eu teria adorado te ver de pileque, sob o efeito da tequila, mas não foi dessa vez.

Eu nem escuto direito, enquanto tento absorver cada aspecto do cenário. Nada de lata de sopa Campbell’s na mesa: ela tem é uma de seleta de legumes, com um Santo Antônio de prata em cima. Um exemplar de Oscar Wilde para inquietos com umas palavras recortadas – provavelmente para compor poemas junto com o que ela retira das Vejas indesejadas que o carteiro traz semanalmente. Um quadro com o rosto dela, tanto aos 7 quanto aos 40, assinado Papis Circensis. Ok, isso é um sonho, então tá valendo. The Bro Code num altarzinho. Quase reconheço a canção que toca no rádio – anotos os versos “Copacabana dreams” e “Quantic love” para jogar no Google depois.

B. pede algo para beber. Dindi mostra uma jarra de água, outra de açaí (que mais parece  graxa) e uma garrafa de Fanta. B. escolhe água. Dindi joga aquela água toda na pia e lhe dá um copo do açaí. Dá para perceber a dificuldade de engolir – golegolegolegolegah! é o barulho que ouço –, mas B. bebe tudo. E depois espirra – snuff! – quando eu teria vomitado. É a dica de que precisamos para sair; se eu pedisse algo para comer, ganharia uma maçã envenenada. Se bem que, logo depois, ela foi mais explícita:

Galera, eu REALMENTE preciso dormir. Digo, já estou dormindo, mas não gosto de gente estranha mexendo nos meus sonhos. Não acordo legal. Enfim, vou explicar como vocês acharão um porta, já que visivelmente não trouxeram mapa algum. (Não entendo quem sai de casa sem um atlas do amor ou das nuvens, mas quem sou eu para julgar alguém? Se vivêssemos em um lugar normal, eu não entenderia do mesmo jeito.) Não tem nada de extraordinário: atrás do pavão, vocês encontrarão quatro soldados (eles são uns fingidores e na verdade são trapezistas do circo da noite); logo depois, verão o pato, a morte e a tulipa e uma fila sem fim de demônios descontentes – não é para mexer com eles; pulem toda a arte das armadilhas, até chegarem atrás das linhas inimigas do meu amor, onde há uma parede branca; recitem toda poesia que souberem – se alguém souber de cor um trecho de Tipos de perturbação, ou qualquer coisa capaz de salvar os pássaros, melhor ainda; a parede vai virar um espelho, se fizerem tudo certo; quando virem o espelho, quebrem e encontrarão a porta; aproveitem a saída, que o meio é a massagem. Ufa!

Eu fico triste de me despedir, mas não quero atrapalhar mais.

“Adorei conhecer o teu apê. Venho outra hora, quando você estiver acordada.”

Venha sim, lindo. Adoro receber visitas quando estou acordada.

Já estou prestes a dar partida na imensa máquina de Goldberg que me levará para fora desse sonho, quando ouço Dindi gritar.

Sabe como dizer adeus em robô? Eu aprendi!

“Não! Como é?”

E ela começa a ganir.

Eeeee Eee Eeee.

* * *

Já na casa do Carlos, ele me pergunta:

– Por que não ligou logo? As chaves estavam aqui o tempo todo. Mas, por que você está roxo… e de leggings?

Explico tudo – só não sei explicar como perdi as calças. Ele ri. Acho que ele sabe.

B. complementa que roubou um livro (Os fantásticos livros voadores de Modesto Máximo) como lembrança da casa da Dindi, pois estava praticando maneiras de fazê-lo como uma artista.

– Maneiro! – disse Carlos.

Brigada.

– E agora, o que vocês vão fazer?

“Bah, eu vou tomar um bom banho, ler o finalzinho de Como ser mulher e depois colar lá na casa da B. para uma sessão de leituras infantis. Tá a fim?”

– Cara, eu tô de boa de livros infantis. Já basta o que leio para crianças aleatórias no trabalho. Acho que vou ficar e terminar de ler a Samba. Talvez, começar o Você é minha mãe?, já que gostei tanto de Fun Home.

“Parece um bom plano. Vou nessa e desculpa qualquer coisa.”

– Relaxa, cara. Você tava engraçado, ontem. Da próxima vez, vou é te acompanhar na tequila.

Somos dois!

E vamos embora. Cada qual com suas chaves. Cada um com seus trejeitos especiais.

* * *

Horas mais tarde, estou na casa de B. Não totalmente limpo, mas menos roxo. Bee está enorme mesmo, grande o suficiente para esconder a cara de nojinho e fingir que estou com uma aparência normal. Se amadurecer não é isso, o que é?

Passeio pela sala. Perto do telefone, o livro roubado, uma Jandique e um recado, provavelmente anotado por Bee: SÉRGIO Y. VAI À AMÉRICA. Na biblioteca, os livros de B. (Hotel Mundo, Livro dos novos, Conversas com Woody Allen, Conversas com escritores, HHhH e Ghostwritten) e os livros de Bee, um mistura daqueles que ela ainda gosta com os que ela prefere atualmente (O compositor está morto, O latke que não parava de gritar, Abra este pequeno livro, A parte que falta, Pê de pai, Morango Sardento e o valentão da escola, O Histórico Infame de Frankie Landau-Banks e Amanhã você vai entender). Três livros separados para doação: É duro ser cabra na Etiópia, A peculiar tristeza guardada num bolo de limão e Pedro e a onça. Justo.

Um cheiro bom vem da cozinha.

Olho para a entrada da casa. A porta parece me encarar de volta. Com pequenas surpresas a sua raça costuma nos brindar. O dia de hoje foi uma aventura e tanto. Se eu não soubesse do segredo delas, talvez dissesse que foi uma aventura digna de um conto de Natal. Não sendo leigo, sei que foi apenas um dia normal para quem perde as chaves.

Só por via das dúvidas, apalpo o chaveiro dentro do bolso.

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