F de ficção, de fixação, de formação

em 25 de junho de 2014

Desde os tempos de escola, diz-se que ficção é, acima de tudo, uma narrativa de algo não verdadeiro. Geralmente quando lemos, portanto, uma obra ficcional, há a consciência de que estamos diante de algo que não aconteceu de fato, a princípio não naqueles termos. Há a ideia de falsidade, mas não se aceita geralmente falta de verossimilhança. Tudo deve ter um sentido, mesmo que seja para contestar a lógica estabelecida. O que dizer, então, de um romance que, assim como outros, busca repensar outra obra de arte – no caso, cinematográfica – que a todo tempo trabalha sob a fronteira entre o verdadeiro e o falso? Até que ponto a verdade aí pode ser ficção e vice-versa?

F, recém-lançado romance de Antônio Xerxenesky (1984), parece voltar a essa questão de um modo talvez mais atraente ao leitor em geral. O assunto é, sim, uma certa fixação não só sua, mas de todos da modernidade; no caso do autor gaúcho, residente em São Paulo, acredito que esse questionamento, parte da formação do escritor, surgiu cedo, desde seu primeiro romance. Areia nos dentes (2008), apesar de ser sua estreia no mercado editorial maior, já evidencia essa incógnita constante. A sinopse concisa e mais frequente, “um faroeste com zumbis”, já desafia, de certo modo, a questão da verdade da ficção. Acredito que aí a surpresa maior não vem do uso do gênero cinematográfico, o western, para definir um texto literário, nem do uso do zumbi, muito próprio da cultura pop atual. A junção dos dois elementos, que nos faz pensar talvez em algum filme trash ruim americano, força, ainda que suavemente, o leitor a pensar na veridicidade do romance.

Agora, por que se perguntar se é possível “um faroeste com zumbis” e não um faroeste simplesmente? Ou ainda, avançando um pouco, por que se questionar se F, uma “narrativa de uma assassina de aluguel contratada para matar Orson Welles” – esta é a sinopse do momento –, é também possível? Na formação de Xerxenesky como escritor, esse percurso romanesco me parece fazer pleno sentido, assim como na formação do leitor. A partir do questionamento de uma obra feita a partir de sua reelaboração de uma cultura já estabelecida, mas não trabalhada literariamente por ser de outro campo artístico ou até por “não ser arte”, como diriam uns (e talvez a própria protagonista de F), vê-se que um texto é construído com a clara intenção de se mostrar falso, ainda que verdadeiro. O mesmo se vê em F for fake, último filme de Welles e referência clara do título do romance. Essa dialética, que, na lógica comum, parece não gerar nenhuma síntese, nenhum resultado, só consegue ser expressa de um modo: na linguagem literária. Xerxenesky não escreve um texto teórico, nem tenta escrever sobre o ato de escrever, como afirma ter feito em A página assombrada por fantasmas (2011), seu livro de contos mais recente, mas ainda se mantém reforçando as perguntas: O que é verdadeiro? O que é falso? O que é real?

Não se assuste aí o leitor que busca a leveza do tema em F, que nos remete à novela policial. A leveza é a mesma de Areia nos dentes, porém acredito que, finalmente, o escritor conseguiu demonstrar que esses temas podem ser também pesados. Não se trata, é claro, de um tratado filosófico, mas não deixa de tratar das mesmas questões que todo o pensamento humano – de todos nós, não apenas os intelectuais reconhecidos socialmente – busca solucionar. Quando nos perguntamos se somos estranhos, se deveríamos sentir ou fazer coisas como os outros, assim como Ana, protagonista de F, faz a todo tempo, também tentamos definir a realidade a nossa frente.

Ana, nascida no Rio de Janeiro, cresceu em plena ditadura militar, porém não parece se afetar pelos problemas históricos da época da mesma maneira que são apresentadas pela maioria, não importando a ideologia de cada discurso. Ana simplesmente parece estar alheia do processo todo, de todo o sentimento e a ação da vida cotidiana de seu século e até mesmo de sua família. Nada faz muito sentido para ela, tanto sensitiva quanto racionalmente. A razão, de um modo bem valéryano, é a grande questão da protagonista. Num período em que diversas propostas para a sociedade não parecem mais caber na cabeça de uma geração, Ana quer apenas saber como definir de maneira racional o que é arte em sua vida. A arte, síntese da realidade, para ela, é o que busca ao ver um filme, ao fazer algo, ao matar uma pessoa.

O assassinato, na narração em primeira pessoa, é o que ela quer que entendamos deve ser sua obra-prima. Matar Orson Welles, um dos principais cineastas americanos, não pode ser arte apenas pelo objeto do crime, mas principalmente pelo processo intelectual pelo qual o agente, aquele que constrói a arte, exerce. Assistir a toda a obra de Welles, para além do renomado Cidadão Kane, é a base para sua criação. Ana não assiste aos filmes somente para entender a mente de Welles, mas também para poder tornar seu ato artístico, sua pretensa obra-prima da matança, algo que nos faça duvidar da verossimilhança do resultado.

A narrativa, formalmente falando, também nos induz a sentir essa angústia de Ana por ser uma grande artista da vida real. A narradora quer explicar tudo aos poucos, de modo bem convencional, contando sua formação desde a infância carioca até a ida para os Estados Unidos, onde se firma em sua profissão às escusas. Xerxenesky, em entrevista, afirma que esse início do romance é “comercial”, opinião da qual compartilho; é fácil explicar esse “comercial” da coisa: F, assim como Areia nos dentes, quer atrair aquele que conhece bem a narrativa do best-seller, do romance policial clássico. O best-seller, é claro, procura não se aprofundar tanto quanto F para responder o que é verdadeiro. Nesse tipo de texto, que segue tudo o que o status quo determina sobre nossa realidade, tudo é explicado de maneira aparentemente científica, sob uma noção de ciência neutra e totalizante.

F, a partir dessa noção, busca em sua estrutura atropelar essa primeira impressão do leitor e mostrar que, apesar das descrições quase enciclopédicas sobre Orson Welles e sua filmografia, que parecem estar alheias momentaneamente da narradora/protagonista, nada passa de um relato narrado, portanto, uma experiência indireta de algo que, inclusive, sequer aconteceu. Essa quebra do pacto ficcional, essa relação em que o leitor aceita ler a ficção sabendo que não é algo verdadeiro, se rompe em uma série de momentos quando a narradora tenta comprovar algo a partir da biografia de Welles. Há momentos até mesmo em que o texto se assemelha demais a uma descrição enciclopédica retirada de outro livro (por exemplo, nas páginas 77 e 78). O registro “comercial” da obra também é aos poucos abandonado, sendo que o tempo e o espaço da narrativa são constantemente confundidos, retirados de uma linearidade, o que, de repente, nos lembra que tudo aquilo é falso.

Percebe-se que Ana não consegue nem mesmo se ater a sua época (anos 70 e 80, ditadura militar), vivendo sob o signo do futuro, do que poderá se tornar, do que a música que ouve quando sai à noite pode dizer sobre o amanhã, ideia presente desde a epígrafe da obra. A protagonista está imersa demais na modernidade de seu mundo a ponto de se debater sobre sua existência nele. Ela não vê razão para agir como querem que ela aja. Matar o outro, pecado e crime, não causa nela nenhum problema moral. Ainda assim, por que tudo parece fazer sentido em F? Por que “o faroeste com zumbis” não é uma narrativa ilógica, que o leitor não conhece entender? Como conseguimos entender Ana ainda que ela queira escapar a todo custo da realidade como conhecemos?

A linguagem de sua narrativa, que tenta se basear na razão estabelecida ao mesmo tempo que quer fugir da origem dessa razão – nossa cultura –, é o responsável pela criação desse novo mundo torto cuja expressão é F, mundo esse que não deixa de ser sempre um reflexo do nosso, ou melhor, da realidade que cada um de nós vê. Acredito que F, em comparação com Areia nos dentes, se firma como avanço na formação do escritor Xerxenesky e de seus leitores, ao extrair da escrita, inclusive a partir de elementos ligados à cultura de massa, um pouco mais de seu potencial como revelador do real, seja o que ele for.

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