F, por X

em 27 de junho de 2014

Títulos não convencionais costumam me chamar a atenção quando vou a uma biblioteca, um sebo ou uma livraria, tanto que é razoavelmente comum que resolva ler um livro “somente” por causa do título. Não que isso seja uma grande coisa, pois tenho me descoberto cada vez mais adepto da filosofia de que qualquer desculpa é válida para ler um livro, mas é que o livro sobre o qual essa resenha pretende se debruçar entraria tranquilamente nessa categoria, afinal, o segundo romance de Antonio Xerxenesky tem como título a solenemente solitária letra F.

Além de ser um dos vinte da Granta Brasileira, Xerxenesky já havia lançado dois livros: um romance e uma coletânea de contos. Tive a oportunidade de ler aquele, (Areia nos dentes), embora não este (A página assombrada por fantasmas). A respeito daquele, me lembro de: ter gostado da escrita fluida; ter me divertido com o tom macarrônico do “faroeste com zumbis”; e não ter gostado das interferências metanarrativas ao longo da história.

Idiossincrasia da parte dele ou teimosia de gosto da minha, confesso que boa parte daquilo com que me deparei em Areia nos dentes encontra-se também em F. Algumas questões a respeito da forma e estilo narrativo de Xerxenesky ainda me incomodam, assim como outras continuam a prender minha atenção, de modo que tentarei expô-las e dissecá-las nesta resenha.

O plot, como em Areia nos dentes, captura quase que de imediato: em F vemos anunciada uma história em que a narradora foi encarregada da inglória missão de assassinar Orson Welles, o grande cineasta estadunidense. A assassina profissional Ana, moradora do Rio de Janeiro, deixou o Brasil militarizado pelos Estados Unidos e por Paris, para cercar e estudar seu alvo, no intuito de encontrar as circunstâncias perfeitas para consumar sua tarefa.

O livro é dividido em três partes, nas quais são descritas diferentes períodos da vida de Ana, desde sua infância e formação (parte I), como ela buscou levar a cabo sua missão de assassinar Orson Welles (parte II) e como se deu o desfecho de sua história particular após a missão (parte III). Como é a própria Ana que escreve sobre sua trajetória, a narrativa de F é formada pela junção das situações por ela descritas, e por suas considerações acerca dessas mesmas situações.

A escrita de Xerxenesky continua apurada quanto ao lugar das palavras e a forma de dispô-las no texto, tornando o romance uma narrativa azeitada, que se desenrola com eficácia e agilidade. Embora pese o caráter exageradamente sucinto com que o autor trata a maioria das situações (não as explorando em significados e mesmo em descrições materiais), é possível considerá-las como uma estratégia de ater-se ao necessário para o esqueleto da obra, como uma espécie de minimalismo narrativo.

O peso dessa escolha, por sua vez, recai sobre a ambientação histórica e prática do livro. Um exemplo pode ser observado na trajetória de Ana: embora saibamos que a trama se passa no período da ditadura militar e que esse fator seja estruturante de parte importante da trajetória individual da protagonista, ele só é mostrado muito pontualmente. Xerxenesky não se propôs a falar sobre a ditadura militar centralmente, mas não se pode deixar de considerar que os elos da microtrajetória de Ana com a macrorrealidade na qual ela se encontra ficam, assim, enfraquecidos.

De um ponto de vista mais geral, é esse o problema da primeira parte do livro: a compressão da história de Ana em situações descritas brevemente acaba por dá-la um tom de generalidade e superficialidade que não condiz com a segunda parte de F. A viagem dela aos Estados Unidos, a persona americana do tio, sua fala e a maneira como descobre ter um talento para atirar, por exemplo, são tratadas muito rapidamente, de modo que ganham contornos esquemáticos.

Já a segunda parte do livro se desenrola de maneira muito diferente. A escolha da vítima-personagem obviamente não é aleatória, ao passo que se esperam momentos em que as peculiaridades orson-wellesianas vão encarnar-se na história, não somente através um sujeito que perambula pelas páginas, mas como elemento que altera qualitativamente a trama e a forma de conduzi-la. É aí que se encaixam as digressões acerca dos filmes de Welles. Narradas por Ana, elas assumem um tom de crítica diluída em narrativa que é muito interessante (sem dúvida a melhor parte do livro), pois sabemos que juntamente à admiração de Xerxenesky, há também a visão pragmática de sua personagem, querendo descobrir o máximo a respeito de Welles para melhor poder cumprir sua missão.

Aquilo que foi dito a respeito das semelhanças dos dois livros de Xerxenesky pode agora ser vislumbrado com mais clareza. Se a escrita fluida e a narrativa azeitada funcionavam muito bem em Areia nos dentes (assim como a proposta inusitada de trama), elas também funcionam em F, tornando-o um livro provocativo e aprazível.

Porém, se as intervenções metanarrativas oneravam a trama do primeiro romance, isso permanece no segundo, ainda que de forma diferente. Em Areia nos dentes a própria forma escolhida para estruturar a história era a de um personagem falando sobre o outro (o velho que escreve sobre a contenda das famílias Marlowe e Ramirez), enquanto em F o “um personagem” fala de si mesmo, pois Ana narra sua própria história. A narrativa se fecha sobre si mesma e perde “naturalidade” na medida em que se aprofunda a autoconsideração e autoavaliação constante a respeito dela própria. Ou seja, Xerxenesky escreve com a interferência constante da consciência de que está escrevendo, de modo que tudo é muito pensado, planejado, tramado, pesado, medido traçado, esquadrinhado etc.

Ponderemos, contudo, pois esse hermetismo na construção da obra não deve ser enxergado de forma unívoca. Por um lado, o da construção narrativa, ele consagra o uso da linguagem de uma forma desenvolta e leve, consciente das propriedades da língua e de seus pesos e medidas. Por outro, o do “espírito” transcendente da obra, ele acaba deixando um quê de artificialidade, pois é algo tão pensado e tão consciente de estar pensando que enfraquece uma sensibilidade que não pertence aos domínios da razão “pura”. Para tentar não soar tão místico e quem sabe ser mais claro quanto ao que quero dizer: Xerxenesky leva a história o tempo todo, mas tem dificuldades em deixar-se levar por ela.

E permitam-me uma nota pessoal aqui. Se fui capaz de enxergar isso na escrita do Xerxenesky é porque passo por situação semelhante: depois de praticamente sete anos operando dentro do texto científico e do tom acadêmico da escrita, não sei até que ponto me resta sensibilidade estética para deixar a língua me levar numa narrativa literária de minha lavra.

Por conta de tudo isso, portanto, a referência a F for fake (Verdades e mentiras, no Brasil) acaba operando como um ardil que engolfa o próprio romance. Se é preciso admitir que a noção da suspensão de realidade dos últimos 17 minutos do documentário de Welles encontra retumbante eco na obra em questão (visto que ela cria um mentira para nos levar a olhar a verdade por outro viés), não se pode dizer que ela tenha tamanho impacto quanto a obra de Welles, pois falta-lhe seu poderosamente real Elmyr de Hory.

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