Vitor Ramil e a literatura gramatical

em 1 de agosto de 2014

Espero que encontre eco nos leitores deste texto a minha confissão: apesar de adorar ler desde que me lembro, eu não gostava de gramática. Sinto a necessidade de precisar: em meus tempos de colégio, não conseguia gostar de gramática. Embora eu continue um outsider leigo do universo das estruturas e mecânicas linguísticas, aprendi com o tempo (e a duras penas) a apreciar o estudo de seu funcionamento e a curiosa lógica que as rege.

Quem sabe as coisas tivessem sido diferentes se eu tivesse tido a oportunidade de ler a obra de Vitor Ramil, A primavera da pontuação, no colégio. Quem sabe eu teria aprendido a olhar com outros olhos a sintaxe, as construções verbais, as locuções adverbiais e toda essa fauna e flora gramatical que povoava as aulas de Língua Portuguesa.

A trama do livro começa quando uma palavra-caminhão (um dos protagonistas) que trafegava “ameaçadoramente inclinada, carregada de letras garrafais” (p. 9) atropelou um ponto (ponto que é um personagem, é preciso especificar) e fugiu do local do acidente. Esse acontecimento desencadeia os demais eventos do livro, pois os pontos (vírgulas, tremas, dois-pontos, hífens etc.) que por ali estavam, tendo visto o acidente e a posterior fuga do atropelador, se indignam e dão início a uma revolta que ganha a magnitude de toda a comunidade da pontuação.

O evento do atropelamento serviu para desentranhar e trazer à tona uma carga intensa de sentimentos, recalques e insatisfações. O burburinho que percorria as conversas dos pontos era o de que as palavras não eram melhores do que eles, que elas por si só não poderiam formar a língua e a fala, e que o acidente envolvendo a palavra-caminhão era expressão desse vil estado de coisas.

Começa a se organizar, então, um movimento para unir toda a pontuação do mundo em torno da reivindicação de que eles deveriam ter os mesmos direitos das letras e das palavras. São feitas reuniões e traçados planos, dentre os quais um radical, que envolve liberar um gás que faz com que os verbos passem a se flexionar de maneira estranha, não respeitando mais conjugações e tempos pré-fixados e comprometendo, por conseguinte, o sentido de sentenças, orações e frases.

O toque surreal e irreverente de toda essa situação é a pincelada de mestre de Vitor Ramil. Ele fez da gramática e dos fenômenos linguísticos (e suas infindáveis designações) os personagens de A primavera da pontuação. E fez isso considerando tanto a realidade concreta de cada um desses fenômenos-personagens (isto é, respeitando sua “lógica interna”), quanto a necessidade de sustentar uma trama que extrapolasse uma mera exploração bem humorada deles (isto é, uma trama com interesse também para aqueles que não lessem pela gramática das entrelinhas).

É forçoso admitir: lê-se A primavera da pontuação com um arqueio de riso nos lábios. Disfarçado mas constante. A cada novo sujeito que adentra a história somos compelidos a entender como o elemento gramático se desdobrou e se encarnou naquele personagem, naqueles trejeitos, naquele modo de falar e naquela situação específica da trama.

Não dá para segurar um risinho quando nos deparamos com a culta Norma, sendo consultada para saber qual é a melhor decisão a tomar. O mesmo pode ser dito do Grego e do Latim, quando eles, no local do acidente inicial, “desceram do carro que mantinham em sociedade [e] não podiam acreditar no que estavam vendo. ‘Passa o monóculo’, pediu Grego. ‘Multiforme multidão, aurifulgente caos!’, dizia Latino para si mesmo em êxtase.” (pp. 12-13)

Algo parecido se dá quando Ramil quer demonstrar, da maneira mais expressiva possível, uma briga generalizada: “Ruas, escolas, restaurantes, bancos, hospitais, não existia lugar onde não houvesse alguém se engalfinhando. Bum, plaft, pum, soc, ploft, ai, pou, zum, bang, pléin, bah, plac, dum, plunct, bong, plec, ploc, ah, baruuum, uh, bif, zapt, ui, bam, rá, tóin, prec, clanc, grom, humpf, zip, paf, clung, vapt, vupt. Estavam todos tão cegos de ódio que não viam a extensão do perigo representados pelas onomatopeias.” (p. 130) E as onomatopeias aproveitaram o banquete que lhes era involuntariamente servido devorando tudo, ‘chomsky, chomsky’, ‘saussure, saussure’ (p. 130).

Vitor Ramil foi muito feliz e hábil ao usar das potencialidades literárias, narrativas e estéticas proporcionados por personagens e situações tão pouco convencionais. Ele soube usar de muita sensibilidade para conseguir extrair o máximo de riqueza de cada uma das possibilidades oferecidas, como ao falar das reticências que se aproximaram do local do atropelamento do ponto, “falando fundo à imaginação.” (p. 11). Tomar as reticências como personagem abriu a possibilidade de usar seu tom contemplativo típico para dar densidade às declarações dos demais pontos: “Atropelado…”, “Desaparecido…”

Um uso tão bem executado por Ramil denota uma maturidade sensível muito interessante, que confere ao livro A primavera da pontuação uma riqueza divertida e peculiar. O autor não se deixou enganar pela ilusão de que personagens-construções gramaticais eram o suficiente como recurso pitoresco para um livro, ele foi além e utilizou-os para alterar qualitativamente a história, transfigurando-a com base nesses personagens. Como não regozijar ao encontrar um ph mendigando na rua pois não consegue mais se empregar… (p. 99)

Não posso deixar de pensar que se eu tivesse enxergado as construções gramaticais como personagens, com personalidade e cacoetes próprios, quem sabe eu teria desconstruído meu ranço antes. É por isso que acredito que A primavera da pontuação apresenta uma possibilidade interessante de explorar a gramática, pois essa, pelo seu hermetismo, acaba às vezes despertando uma barreira no aprendiz  uma barreira que precisa ser vencida, dada a importância de se conhecer os meandros obscuros que organizam a língua e seus fenômenos.

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