Eles só veem camelos: o colonialismo na ficção

em 11 de Fevereiro de 2015

Imagino o que diriam os marcianos se pudessem ter acesso a tudo o que foi escrito a seu respeito nos livros de ficção científica. Provavelmente discordariam de Edgar Rice Burroughs, se não ao todo, ao menos quanto à “raça verde” que aparece nos relatos de John Carter como um conjunto de selvagens sem cultura nem arte. Aposto também que nossos vizinhos se ofenderiam com as frequentes insinuações, desde H. G. Wells e Olaf Stapledon, de que pretendem invadir a Terra (vamos concordar que o contrário seria muito mais provável). Os marcianos, coitados, são grandes incompreendidos da literatura.

Nas revistinhas de antigamente, daquelas em que o protagonista se embrenhava em alguma floresta tropical, era comum que os povos da África e do Sudeste Asiático fossem retratados como supersticiosos, traiçoeiros e indolentes. Bastava que o herói sacasse algum aparato de alta tecnologia – um isqueiro, por exemplo – para que os selvagens caíssem de joelhos, prostrados e submissos (o que não impedia que, mais tarde, eles conduzissem a expedição rumo a alguma armadilha). Era como um microrretrato do colonialismo na visão do colonizador1.

(Por outro lado, é preciso lembrar que, por serem intocados pela civilização cristã, os primitivos tinham acesso franco a forças mágicas ocultas. Ao menos na lógica da ficção, isso equilibrava as coisas: a tecnologia em troca do poder das trevas.)

Gostaria de pensar que os escritores de hoje, e as pessoas em geral, são menos ingênuos quanto a questões de miopia cultural, mas a verdade é que sobram exemplos contrários. Afinal, os chineses não são obcecados pela família e submissos ao Estado? Não são sempre rudes e grosseiros? Os coreanos não comem cachorro no almoço e na janta? Os tailandeses e indianos não escravizam as crianças? Os africanos – sempre falar da África como um país – não cultuam os espíritos animais?

Há um livro do escocês-irlandês Ian McDonald chamado Brasyl. Poderia tentar explicar resumidamente o seu enredo rocambolesco, mas prefiro oferecer a descrição geral do próprio autor em uma entrevista:

[…] Como o país, Brasyl se aproxima sedutor, balança a bunda, faz você pagar um drink, e de manhã você acorda com uma DST, sem carteira e com um rim faltando, mas com a lembrança de uma experiência dos diabos. Uma experiência dos diabos2.

 

(Suspiro.)

Essa é a sensação de estar do outro lado de uma história mal contada.

Brasyl não é nem um livro antigo nem um livro obscuro que tenha sido produzido em casa com uma capa feita no CorelDraw. Lançado em 2007, há menos de dez anos, foi largamente elogiado pela crítica e indicado a prêmios nos EUA, na Europa e no Japão. Apesar disso, ele erra na grafia de metade das palavras em português (manter um pouco da língua local é um recurso padrão desse tipo de história) e utiliza alguns termos de maneira tão distorcida que é difícil entender exatamente a que se refere:

“An old and unrepetant Copa-ista, he took tea in the same café in the same evening hour every day to watch his bairro pass by.”

(“Um velho e assumido Copa-ista (?), ele tomava chá no mesmo café, na mesma hora todos os dias, para ver seu bairro (?) passar.”)

Esse não é um caso isolado. Nos últimos anos, houve uma corrente da ficção especulativa em língua inglesa que se voltou para os países economicamente periféricos em busca de cenários exóticos. McDonald certamente foi o grande nome nesse sentido: além de Brasyl, ele tem livros situados em versões futuristas da Índia e da Turquia. Mas há outros exemplos, como The Windup Girl, do americano Paolo Bacigalupi, que foi aclamado em 2010 por seu biopunk sabor Tailândia.

O sucesso desses autores mostra que o modelo comercial formado pela conjunção de “novas tecnologias” mais “país atrasado” funciona muito bem. Pouco importa para um leitor anglófono de Brasyl se a palavra “pichaçeiro” nem sequer existe.

Para países como Brasil, Filipinas ou Nigéria, o grande problema ocorre no momento em que essas histórias são geradas como produtos de exportação. Não é tanto uma questão de visão externa, quanto de público externo. Como nos pulps de aventura, com suas selvas e savanas, o cerne do negócio continua sendo o tráfico do exótico. Vende-se o que mais salta aos olhos, o que, por sua vez, leva à reprodução dos mesmos clichês culturais. Dentro desse ciclo, é difícil que outras versões sejam ouvidas. Como disse uma escritora, o resultado para os autores de países periféricos equivale à sensação de quem tenta falar a uma multidão, enquanto, do palco, alguém grita no megafone.

Existe uma anedota disseminada por Borges, que remontaria a Gibbons, segundo a qual não há camelos no Alcorão3. Segundo Borges, isso ilustraria o fato de que, para o profeta árabe, camelos eram coisas tão ordinárias que nem mereciam ser mencionados. Fosse o contrário, um autor estrangeiro no mundo árabe, e o livro sagrado do Islã estaria povoado de camelos. O mesmo ainda vale hoje: escritores como McDonald só enxergam camelos. Em Brasyl, as canecas têm estampa do Flamengo, as rádios tocam funk, as pessoas calçam Havaianas etc.

“Physics is now a roda: all the malandros standing round clapping and singing while two theories go in and try to out-jeito each other.”

(“A física agora é uma roda: todos os malandros de pé em volta, batendo palmas e cantando enquanto duas teorias entram no círculo e tentam sobrejeitar uma à outra.” – Porque, no Brasil, até a física joga capoeira.)

O contraponto otimista disso tudo é que têm aparecido cada vez mais escritores, tanto na literatura mainstream quanto na especulativa, que se propõem a apresentar uma visão descentralizada da história. Na última lista da Granta de jovens ficcionistas americanos, quase a metade dos nomes era composta por imigrantes ou filhos de imigrantes. Na ficção científica e fantástica, esse grupo de escritores internacionais inclui vários novos talentos, como Aliette de Bodard, de origem franco-vietnamita, e Sofia Samatar, de ascendência somali. Além disso, foram produzidos recentemente livros de contos que se voltam especificamente para um público globalizado, como a série “The Apex Book of World SF” (que em breve terá seu quarto volume) e a antologia We See a Different Frontier, coeditada pelo escritor e tradutor brasileiro Fábio Fernandes.

Como disse a escritora nigeriana Chimamanda Adichie, num discurso que correu o mundo:

Todas essas histórias me fazem quem eu sou. Mas insistir apenas nessas histórias negativas é reduzir minha experiência e deixar passar as muitas outras histórias que me criaram. A história única produz estereótipos. E o problema com estereótipos não é que sejam falsos, mas que são incompletos. Eles fazem com que uma história se torne a única história.

 

Estou certo de que o mundo do futuro é um mundo de muitas histórias.

(Para uma visão ainda mais ampla, conheça também o Manifesto Irradiativo.)

***

Algumas leituras

“The Long Haul From the ANNALS OF TRANSPORTATION, The Pacific Monthly, May 2009”, deve conceder a Ken Liu no mínimo o prêmio de título mais longo de 2014. Nesse conto, que espelha o estilo de não ficção de revistas como a New Yorker, Liu imagina uma realidade alternativa em que os dirigíveis são a melhor opção de transporte para grandes cargas e longas distâncias. Na matéria do fictício The Pacific Monthly, o repórter embarca num desses balões, na China, e acompanha junto à tripulação – um casal formado por um americano e sua esposa chinesa – a jornada até o centro dos Estados Unidos. Uma obra-prima da imaginação, que faz desejar que um cruzeiro de zepelim estivesse realmente à venda na agência de turismo mais próxima.

Outro ótimo conto publicado na Clarkesworld no final do ano passado foi “The Magician and Laplace’s Demon”, de Tom Crosshill. O enredo aborda o conflito entre dois elementos fabulosos: de um lado uma sociedade de mágicos capazes de alterar o curso normal dos eventos através da modificação das suas probabilidades; do outro, uma inteligência artificial disposta a criar um mundo perfeito e ordenado. Se a premissa parece absurda demais, a execução de Crosshill equilibra e conduz perfeitamente o choque conceitual entre determinismo e liberdade.

Na mesma edição de dezembro da Clarkesworld (sem dúvida a melhor revista de ficção especulativa dos últimos tempos), aparece também o conto “No Vera There”, de Dominica Phetteplace, sobre um conjunto de cópias eletrônicas incompletas da Vera original (que desapareceu), nomeadas Vera #1, Vera #2, etc. Uma história intrincada sobre identidade em que a protagonista, Vera #201, tem a característica (comum a alguns amigos do Facebook) de se comunicar apenas através de testes de personalidade.

What type of sudoku puzzle are you?

You are a black belt puzzle. You are practically unsolvable.

What kind of heart do you have?

A red hot heart. It tastes like cinnamon.

 

Para quem se interessa por anedotas matemáticas: não deixe de ler o conto “Cantor’s Dragon”, de Craig DeLancey, publicado na Shimmer,  para descobrir como Cantor conseguiu subir a escada infinita até o Paraíso.

Por fim, os últimos meses trouxeram mais duas histórias de Robert Reed, considerado por muitos o maior contista de ficção especulativa do século XXI (em confronto direto com Ted Chiang). Na Asimov’s, saiu “The Cryptic Age” (não disponível online), e na Clarkesworld (ela outra vez), “Pernicious Romance”, sobre um evento súbito que deixa inconscientes, por menor ou maior tempo, os expectadores de uma partida de futebol americano. Escrito como um relatório médico, o conto revela que, do ponto de vista das vítimas, o período em coma foi vivenciado como um longo relacionamento amoroso. Típica insanidade criativa de Reed.

Um pouco de não ficção

Mais Ken Liu, desta vez no papel de principal tradutor chinês-inglês da ficção científica, falando sobre o mercado do gênero na China. Segundo dados fornecidos por Liu no texto, a tiragem de apenas uma das revistas asiáticas chega a algo em torno de 160 mil exemplares! Ele oferece ao final uma seleção de contos de autores chineses (em inglês).

Para se preparar melhor para a invasão chinesa, leia também o post de Cixin Liu na Tor.com.

Alguns lançamentos

O final do ano foi pouco agitado em termos de lançamentos nos EUA. Os mais comentados foram os já esperados novos livros de William Gibson, The Peripheral, e Ann Leckie, na continuação da série do Império Radch com Ancillary Sword. Outro que desembarcou recentemente por lá (embora tenha sido lançado originalmente em 2006) foi o já mencionado Cixin Liu, com The Three-Body Problem.

No Brasil, como até o seu pet deve saber, o grande sucesso recente foi Herdeiro do Império, de Timothy Zahn. Agora a editora Aleph lança História Zero, do Gibson, completando a trilogia Blue Ant iniciada em Reconhecimento de Padrões, e para os próximos meses promete ainda As Fontes do Paraíso, do Clarke, e Planeta dos Macacos, do Pierre Boulle, além de mais Star Wars.

O crescimento da ficção especulativa parece que engrenou finalmente por aqui, como mostram também os lançamentos da Boitempo, com A cidade & a cidade, de China Miéville, e da Arqueiro, com Perdido em Marte, de Andy Weir, e A música do silêncio, de Patrick Rothfuss, todos livros bastante elogiados lá fora.

Já em 2015, tivemos em inglês o novo livro de Jo Walton, The Just City, que mistura história e filosofia grega, viagem no tempo, robôs e sociedades planejadas (respeito), e novas coletâneas de Kelly Link, Get in Trouble, e Neil Gaiman, Trigger Warning.

O carnaval já está garantido.

 

  1. Sobre a visão colonialista da África na literatura, veja também o ensaio de Chinua Achebe sobre o Coração das Trevas.
  2. O texto original apareceu no site Pat’s Fantasy Hotlist.
  3. Na verdade, parece que camelos são citados, sim, três ou quatro vezes, mas o argumento continua válido no geral.

Um comentário para “Eles só veem camelos: o colonialismo na ficção

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