Crítica: ‘Citizenfour’ – e o grande irmão

em 12 de fevereiro de 2015

Informações

  • Título: Citzenfour
  • Diretor: Laura Poitras
  • Roteiro: -
  • País: Alemanha e EUA
  • Ano: 2014
  • Elenco: Edward Snowden, Glenn Greenwald, Julien Assange, entre outros

Em junho de 2013, a documentarista-ativista Laura Poitras e o jornalista estadunidense radicado no Brasil Gleen Greenwald encontraram-se num hotel de Hong Kong para uma conversa de oito dias com o funcionário da CIA Edward Snowden, naquele que seria o maior vazamento de informações de uma agência governamental da história. Poitras conversava com Snowden havia meses, numa série de mensagens online em que seu interlocutor se denominava “citizenfour”. Com a participação de outros jornalistas que trabalhavam com Gleenwald no The Guardian U.S., as revelações de Snowden começaram a ser divulgadas em artigos e reportagens nos principais jornais do mundo, entre eles o brasileiro O Globo.

Indicado ao Oscar de Documentário, o filme de Laura repassa os principais acontecimentos que construíram esse importante e conturbado episódio da história recente, assim como as consequências sobre os indivíduos envolvidos, incluindo ameaças de prisão e extradição e até a proibição da entrada do brasileiro David Miranda, parceiro de Gleenwald, na Inglaterra, sob a Lei Antiterrorismo.

Laura Poitras e Glenn Greenwald: eles foram os primeiros a ouvirem as denúncias de Snowden - e tiveram de pagar um preço pelo furo.

Laura Poitras e Glenn Greenwald: eles foram os primeiros a ouvirem as denúncias de Snowden – e pagaram um preço pelo furo.

Legendas narradas pela própria documentarista relatam uma série de restrições do governo americano contra o trabalho desses jornalistas, bem como os esforços dos envolvidos, amparados por advogados humanitários e organizações internacionais (entre elas o Wikileaks, de Julian Assange, que aparece brevemente em seu exílio na embaixada do Equador na Inglaterra), para manter a segurança de Snowden e lhe conseguir um refúgio no exterior (atualmente ele está asilado na Rússia).

Para além da chocante comprovação de Snowden de que o governo dos EUA, depois dos atentados de 11 de setembro, desenvolveu sistemas de segurança para vigiar qualquer cidadão do mundo, entre eles líderes mundiais como Angela Merkel, da Alemanha, e Dilma Rousseff, do Brasil, o mais interessante neste filme é expor a personalidade de seu estranho protagonista, um homem comum, mais um entre tantos funcionários da gigante CIA, que movido por um ideal libertário, decidiu divulgar informações ultraconfidenciais, desnudando a mais nova forma de imperialismo yankee.

Há quem considere Snowden um traidor ou terrorista que desestabilizou o sistema de segurança que garantia que os EUA não fossem atacados novamente. Há quem o considere, ao lado de Assange, um libertário revolucionário, que por seu ato de mártir iniciou um processo de mudança na forma como encaramos a privacidade.

Junto com este filme, podemos observar uma tendência no Cinema atual, geralmente no gênero documental e com muita qualidade, de analisar os casos notórios de divulgação de informação e partilha de conteúdo realizadas na internet, como We Steal Secrets – The History of Wikileaks (2013, Alex Gibney) e TPB AFK: The Pirate Bay Away From Keyboard (2013, Simon Klose).

Muito diferente do arrogante Julien Assange, Edward Snowden aparece aqui como um homem inseguro e paranoico (mas quem irá culpá-lo?), que tem protocolos de segurança até para mexer no notebook – escondendo-se sob uma patética manta vermelha, para que suas ações não sejam refletidas em seus óculos e captadas pela câmera de Poitras. Escondido num hotel de Hong Kong – país escolhido por ter leis menos claras sobre extradição –, Snowden teme falar até mesmo num ambiente em que haja telefone, explicando todas as formas de intercepção de que atualmente a NSA é capaz: “Isso não é ficção científica, isso está acontecendo agora” – ele pontua, frente à incredulidade de Gleenwald. Snowden também é crítico em relação à mídia atual, que focando suas manchetes em amenidades personalistas e fofocas de celebridades, tem distraído o público de assuntos mais relevantes.

Assim, o filme de Poitras é uma bomba para todos os públicos e vai mantê-la como persona non grata do governo americano pelos próximos anos. A documentarista já vinha sofrendo uma série de pressões e perseguições oficiais por causa de seus recentes filmes, como The Oath (2010) e Death of a Prisioner (2013), que exploram criticamente o comportamento americano desde a tragédia do World Trade Center e as consequências da “guerra ao terror”. Por outro lado, seu trabalho de ativismo documental, muito relevante e eficiente, lhe deu condecorações expressivas, entre elas um Pulitzer Prize, e reconhecimento internacional, o que garante certa segurança à continuidade de seu trabalho, somada ao fato de que vive exilada em Berlim. Citizenfour¸ que tem cenas gravadas no Brasil, no Rio de Janeiro (onde Glen mora) e em Brasília (onde foi depor numa comissão do Congresso sobre espionagem americana), é uma grande realização investigativa, cujos desdobramentos já se mostraram prolíferos, em cinema, TV, jornalismo, política, literatura, e que ainda pode render muito mais – inclusive um Oscar à sua autora.

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