Crítica: Cinquenta Tons de Cinza

em 27 de fevereiro de 2015

Informações

  • Título: Cinquenta Tons de Cinza (Fifty Shades os Grey)
  • Diretor: Sam Taylor-Johnson
  • Roteiro: Kelly Marcel, baseado no livro homônimo de E. L. James
  • País: EUA
  • Ano: 2015
  • Elenco: Dakota Johnson, Jamie Dornan, Marcia Gay Harden, entre outros

O cinema sempre é, de certa forma, uma arte de sedução. Construir um filme é manipular o espectador, envolvê-lo, convencê-lo a aceitar sua história, a levá-la pra casa, dormir com ela, guardá-la na memória. O que torna um filme memorável é seu sucesso em conquistar o espectador.

É por isso que o desejo parece ser um material mais interessante para o cinema do que o sexo em si. Filmes como Amor à Flor da Pele e A Noite tornaram-se clássicos por conseguir imprimir na tela toda a tensão entre seus personagens.

Cinquenta Tons de Cinza é essencialmente um filme sobre sexo. Claro que existe uma trama, personagens, conflitos e diálogos, mas o que fez milhões de pessoas lerem o livro, e o que deve levá-las ao cinema, é o sexo.

Para os pouco familiarizados com a trama (alguém?): Anastasia Steele é uma estudante universitária de 21 anos que nunca se envolveu com ninguém, até conhecer o lindo e milionário Christian Grey. Ela se apaixona, mas ele recusa todo tipo de envolvimento emocional. O diferencial de tudo isso é que ele gosta de sexo BDSM.

A “mulher inocente que se apaixona pelo homem experiente porém tem que vencer o seu medo de compromisso” é um clichê histórico dos romances hollywoodianos. O “homem duro e assustador que esconde uma ferida” é, pelo menos, tão antigo quanto A Bela e a Fera. É claro que clichês narrativos perduram por tanto tempo porque há algo de verdadeiro neles, algo que fala a pessoas de gerações distintas, ao longo de eras. Essas histórias permanecem e atraem, mas não são suficientes para transformar algo em fenômeno de mercado. É aí que entra o sexo.

No livro, o fetiche de Christian por ser um dominador se mistura com sua personalidade controladora. Em uma abordagem rasa e errônea do BDSM, a autora mistura a fratura interna do personagem com seus gostos pessoais e um comportamento emocional abusivo. O Christian do livro só pode viver se mandar e machucar as pessoas com quem está envolvido.

O filme, apesar de todas as falhas, sai com uma vantagem considerável: ele encara o BDSM como o que ele é, um fetiche sexual que não é um reflexo de uma personalidade perturbada. Gray continua com medo de compromisso, com uma mãe viciada e incapaz de dar a Anastasia o que ela pede, mas o fato de ele chicoteá-la durante o sexo nada tem a ver com isso.

Separar o sexo do conflito é uma das boas escolhas do filme, e a forma como ele é apresentado também. Baseado em um romance escrito por uma mulher, o longa foi roteirizado e dirigido por outras duas mulheres e tem em mente que seu público é majoritariamente feminino.

Em um mundo que a pornografia, ou mesmo qualquer representação cultural do sexo, é completamente focada nos homens, quão estranho é que diversas críticas acusem as cenas eróticas do filme de “mornas”, “fracas” ou “brochantes”? Cada uma dessas críticas me parece falar mais sobre o olhar que estamos acostumados a lançar sobre o sexo do que sobre o filme em si.

Johnson opta pelo não explícito, pelo velado, pelo desejo. Por uma câmera que caminha como uma mão pelo corpo de Dakota Johnson e observa o arrepio de seus pelos, o enrijecimento de seus mamilos e, principalmente, sua cara de prazer. Dakota Johnson, aliás, é provavelmente o maior trunfo do filme.

Dakota domina as cenas de sexo e entrega expressões de prazer genuínas, mas além disso, ela é muito consciente dos pontos fracos do projeto, que são muitos.

Com a escritora presente no set e com poder de veto, diversos nós de trama ruins e diálogos sofríveis acabaram na tela. A atriz sabe o quanto suas falas são horríveis e o quanto a insegurança de sua personagem é irritante. Munida de um excelente timing de comédia e algum carisma, Dakota aposta no potencial trash do filme e concentra-se no potencial cômico da autodepreciação.

Infelizmente, Jamie Dornan não tem a mesma versatilidade e parece congelado e constrangido nas falas ridículas de Christian Gray. Depois da metade do filme, ele engrena e faz um trabalho relativamente bom em conferir alguma dimensão psicológica ao personagem, mas, novamente, a sedução é o que realmente funciona: Dornan é lindo e sexy o suficiente para que pelo menos parte da sua má atuação seja relevada.

No fim, Cinquenta Tons de Cinza funciona pelo mesmo exato motivo que a maior parte das comédias românticas hollywoodianos: ele vende um desejo a sua audiência. A protagonista carismática e levemente estranha permite identificação, o homem lindo adiciona o sonho e as cenas de sexo bem pensadas terminam o jogo de sedução.

Não é nenhum tipo de obra-prima do cinema, ou mesmo das cenas de sexo, mas é extremamente eficiente no que se propõe.

 

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