Cinquenta tons de verde e amarelo

em 16 de março de 2015

Brilhante ensaísta cujos textos de não ficção foram compilados num modesto volume pela Companhia das Letras e cuja obra foi dissecada por nós do Posfácio em uma série de postagens especiais, ontem alguns de nós sentiram, ontem, falta de seu olhar arguto pelas ruas brasileiras. O que o bom fã faz? Em vez de reclamar, se pergunta WWVBD: What would Vanessa Barbara do?1 E saio eu mesmo pelas proximidades da Paulista.

Enquanto tomo café, o amigo que me acompanha diz que o restaurante – vazio quando entramos – parece ter se tornado uma parada obrigatória antes de, ladeira acima, os manifestantes irem para a Paulista. Eu não tinha percebido que quase todo mundo estava de azul e só entendi do que ele falava quando vi as senhorinhas da mesa logo atrás de mim: duas dela com blusas verdes e casaquinhos amarelos – aquela combinação que, durante a Copa, a gente finge achar chique.

Depois passamos numa sorveteria estalando de nova. No espaço reservado à degustação dos gelados, a marca informa que seus criadores buscaram uma combinação revolucionária de sabores e que se orgulha de chegar ao Brasil numa época propícia às mudanças sociais. A rede acredita em “protestar pacificamente” – e a vaquinha que ilustra a placa com tais dizeres parece dar o bom exemplo. A vaca de olhar sereno ao lado dos banquinhos cobertos com uma imitação do couro malhado de suas amigas.

Voltamos pra casa e, na entrada do prédio, um moço comenta a loucura da rua a duas quadras dali. “Não vi UM negro”, diz. Já no elevador, mostra a foto que tirou de um homem com um cartaz pedindo “Intervenção militar já”. Os olhos azuis riem, com um toque de desespero, um “isso não pode estar acontecendo”.

Meu amigo sai um pouco antes de mim e, para ir à casa da namorada, precisa atravessar a multidão. Pouco depois, recebo uma mensagem: “Tá um inferno na rua. Se sair de vermelho, morre. Sério.” Saio de cinza.

Eu imagino que tenha sido algo parecido com isso, sair na rua durante a Copa. 50 tons de verde e amarelo – a maior parte, camisetas da seleção brasileira, oficiais ou não. Alguém comenta que 10% da população da cidade estava lá. Um cidadão logo na frente parece ter lido minha mente e grita – triunfante, provando algo ao nordestino recém-chegado – que ninguém teve coragem de usar vermelho naquele dia. Pouco depois leva uma chicotada na nuca duma folha de palmeirinha que esbarrou no meu guarda-chuva – foi acidental, juro.

Já de noite, crio coragem para matar a saudade da avenida principal. No caminho, passo pela Pamplona e a quantidade de lixo me lembra das reportagens sobre o Carnaval. Plástico de vuvuzela, garrafinhas de água e cerveja, capas de chuva descartáveis, tudo empilhado nas calçadas, esperando o batalhão de garis que se aproxima.

À noite, a Paulista está triste e deserta como nunca a vi.

  1. Peço perdão aos fãs de Duna pelo vacilo.

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