Wait for it

em 24 de março de 2015

No seriado How I met your mother, certo personagem costumava enfatizar seu entusiasmo por algo por meio de pausas dramáticas: não bastava Barney dizer que algo seria “legendary” (lendário, em tradução livre), era necessário separar a palavra em duas partes e fazer o interlocutor esperar pela segunda: “legen – wait for it – dary!”. Nove temporadas foram suficientes para explorar um número impressionante de variações sobre o tema, a maior delas quando tivemos de esperar pelo começo da terceira temporada para se completar uma palavra iniciada na conclusão do episódio final da segunda.

Esse tipo de espera tornou-se a companheira inseparável de muitos leitores de YA, em especial para os que anseiam ver seus livros favoritos adaptados para o cinema. Harry Potter lançou tendência e hoje parece ter se tornado impensável que o último volume de uma série dê origem a apenas um filme: Crepúsculo, Jogos Vorazes e Divergente seguem a moda do bruxinho. A espera entre as duas partes do filme geralmente é de um ano.

Observo, contudo, um movimento distinto no mercado editorial. Enquanto a indústria cinematográfica parece não se importar com a paciência (e a grana) exigida dos fãs de YAs, tenho visto editoras levando a sério a saudade dos leitores e ajudando a mitigá-la, mesmo quando uma nova obra está prestes a ser lançada – o mais sensato seria simplesmente mandar a gente engolir o choro. Falo não apenas de paciência, mas de grana. Marina Pastore – moça que integra o departamento de livros digitais da Companhia das Letras – escreveu sobre isso em pelo menos duas de suas colunas, das quais tirei os trechos a seguir.

No Brasil, muitas editoras também já estão preocupadas em oferecer algum tipo de conteúdo que não grite “COMPRE” o tempo todo.

(…) um ponto importante: oferecer algum tipo de conteúdo gratuito tem se tornado especialmente relevante para a estratégia das editoras (que, afinal, precisam se diferenciar justamente pela qualidade do conteúdo que produzem).
(Colofão)

O que não falta é opção de ebooks gratuitos – ou muito baratos. Comecei a perceber isso na série Garota S2 Garoto, que nunca li: a editora disponibilizou contos gratuitos – Noite das garotas e Não me esqueça – que precediam os volumes primeiro e segundo da coleção, intitulados Nada é para sempre e Dizem por aí respectivamente. Desde então, tais contos, novelas e capítulos extras (bonus tracks) têm ganhado mais e mais espaço: as trilogias Seleção e Divergente têm contos que exploram cenas de livros anteriores, reapresentadas pelo viés de um personagem masculino (não de suas heroínas); mitologias se misturam quando personagens de Percy Jackson e os Olimpianos e de As crônicas dos Kane (duas séries de Rick Riordan) se unem em duas aventuras distintas; vale citar também Mundo de tinta, reunião de três contos ambientados no mesmo universo da trilogia (homônima) de Cornelia Funke.

mundo de tintaNem só de séries e trilogias vive o leitor de YA, mas de toda a palavra que sai dos dedos de (insira aqui seu autor favorito, seja ele Neil Gaiman, Meg Cabot, John Green, Rainbow Rowell, David Levithan, John Boyne ou outro, à vontade). Os leitores deles também são agraciados com tais ebooks. Quando do lançamento de O oceano no fim do caminho, de Neil Gaiman, lembro bem que a divulgação do romance foi auxiliada pelo download gratuito de Como falar com as garotas nas festas. Junto com Tormento, de John Boyne, foi lançado Dia de folga, um conto de Natal do mesmo autor. Quem gosta (e não aguenta esperar pelo próximo livro) de Rainbow Rowell, David Levithan, Stephanie Perkins e John Green pode matar a saudade na livraria, rapidinho, lendo o que escreveram em O presente do meu grande amor e Deixe a neve cair, duas coletâneas cheias do espírito natalino.

dia de folgaOk, a última frase fugiu do tema “ebooks gratuitos e baratinhos”. Aproveito a deixa e volto às séries. Parte de mim acreditava que, se o intuito era apenas mitigar a saudade durante a espera pelo novo título de um escritor, não havia necessidade de tais obras intermediárias serem grandes – muito menos de que, se não fossem gratuitas, tivessem preços equivalentes aos dos demais livros da série. Como não li a maior parte das sagas citadas – ainda que tenha interesse por uma ou outra –, posso apenas falar do que conheço: Só perguntas erradas, de Lemony Snicket.

De certa forma, a quadrilogia proposta por Snicket é – na íntegra – um extra para quem tem a carteirinha de fã de Desventuras em série. Nossa incapacidade de “let it go” nos fez dar saltinhos de júbilo quando do anúncio de que o autor escreveria mais quatro livros ambientados nesse universo, mesmo que não mais narrasse a trágica história dos órfãos Baudelaire. No meio dessa empreitada, lançou-se o volume 2.5 – no Brasil traduzido como 13 incidentes suspeitos. Ao contrário de Quatro: histórias da série Divergente e Contos da Seleção, os 13 contos (casos?) snicketianos não foram publicados individualmente e depois compilados.

 

 

 

 

 

incidentesDurante a leitura, algumas coisas ficaram claras: 1. há uma espécie de homenagem aos antigos infantojuvenis de mistério em que o leitor era peça-chave para a resolução – as soluções dos casos ficam mais bem escondidas no fim do livro quanto maior o número de enigmas propostos; 2. o autor parece prever o mimimi – não há palavra melhor – de quem o criticará por 4 ser um número muito pequeno de livros para uma série sua (a anterior teve 13), então tenta se safar escrevendo um livro extra; 3. e, por fim, a obra serve tanto para rememoração de personagens e situações que não vemos há mais de um ano quanto serve de apresentação a quem quiser ler o próximo (a ser lançado em breve) sem necessariamente ler os anteriores. Aliás, a série Só perguntas erradas se distingue da anterior de Snicket na medida em que seus livros podem ser lidos individualmente sem maiores problemas – a continuidade não parece ser premente para a fruição dessas obras, meio como o caso da semana de tantos procedural dramas da tevê.

13 incidentes suspeitos é, portanto, o “wait for it” de Lemony Snicket. Tudo indica que os próximos volumes da coleção serão o “(…)dary” que os leitores tanto aguardam.

Um comentário para “Wait for it

  1. Olá! Encontrei este blog em três pesquisas distintas no Google, enquanto procurava e-books de Lemony Snicket. Acabei encontrando sua monografia (que está aberta aqui, enquanto leio com calma) e dois textos deste blog referentes a Snicket. Sou fã do trabalho do autor e terminei de reler Desventuras na noite passada, em que também procurei a internet inteira versões digitais dos outros livros, enquanto não posso tê-los em mãos.
    Ah, devo lhe parabenizar pelo conteúdo da coluna. Acho que você ganhou uma nova leitora 🙂

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