Em silêncio

em 10 de abril de 2015

Nem sempre fui assim, mas hoje há amigos que apostam se consigo me calar por pelo menos dois minutos. Mesmo que difícil, sempre ganho a aposta – e tomo isso como um alerta de que estou especialmente falante no dia.

Reconheçamos que dois minutos é pouco; duas horas, sim, é outra história. No último dia de março, participei do Método Abramović e, meio sem saber, me propus a experimentar esse silêncio mais duradouro.

Digo “meio sem saber” porque – assim como não costumo ler sinopses, quartas capas ou resenhas dos livros em que mergulho – não pesquisei a respeito da experiência antes de fazer minha inscrição. Sabia quem era Marina por conta de um vídeo em que reencontra um artista a quem não via em 23 anos1, assim como já tinha visto um trailer documentando a participação de Lady Gaga no Método, antes desta lançar seu álbum ArtPop – no Sesc Pompéia não houve nudez.

Somos orientados a trancar nossos pertences – bolsa, celular e tudo que há nos bolsos – em um guarda-volumes. Ficar descalço é opcional, mas parece uma boa ideia: baibai, tênis. Antes do experimento, passamos por uns quinze minutos de aquecimento dos sentidos: esfregamos as mãos uma na outra até esquentá-las e depois enfiamos dedos no nariz, arregalamos as orelhas, balançamos bochechas e olhos até, finalmente, remexermos o corpo inteiro.

O ruim de não ser criança é ter de me segurar para não rir das caretas. Vejo mais semblantes de austeridade do que de leveza. Findo o aquecimento, somos divididos em quatro grupos. Tão logo recebemos os abafadores de som, a experiência se individualiza: cada um só, sem distrações, com o seu silêncio.

A primeira meia hora é de caminhada lenta, os pés pousando e descolando da pedra gradualmente. Algo não está certo: minha coluna começa a doer, às vezes acelero o passo sem notar e tento ir mais devagar, o que me faz perder o equilíbrio em dois momentos – não caio, mas quase piso acidentalmente nos cristais jogados ao lado do espaço de passeio.

Tento prestar atenção no silêncio – a lentidão dos passos evita que os escute “internamente” – e percebo que ele não é absoluto. Ainda que quase inaudível, ouço um helicóptero. Engolir saliva ou tossir baixinho (estou gripado) parecem tentativas ostensivas de sabotar o Método – vejo a hora de ser convidado a me retirar quando estralo a coluna. Solto um suspiro quando descubro que o tempo acabou.

No exercício seguinte, ficamos sentados. Há dois pares de cadeiras voltadas umas para as outras, umas dez voltadas para uma parede em branco – penso que encará-la deve ser parecido com a cegueira de Saramago – e três ou quatro bancos. Eu e um rapaz com cabelo rastafári não conseguimos cadeiras individuais e somos orientados a ficar em lados opostos do mesmo banco, as costas de um servindo de encosto para as do outro.

O mundo aqui silencia, já diriam os Baudelaire snicketianos; sentado, noto que o silêncio se aprofunda. A mente acalma, enquanto o corpo tenta se adaptar ao do outro: não quero pesar muito e empurrar o outro, assim como não pretendo desgrudar, ao tentar manter a coluna ereta sem me recostar. Durante alguns minutos escuto as batidas de um coração: não sei se é o meu ou o dele – ou se são ambos, no mesmo compasso. Essa meia hora de comunhão me parece mais significativa do que a dos que passaram o mesmo período se encarando.

É chegado o tempo de ficar de pé diante de totens de madeira, cada um destes com três cristais (do tamanho de tijolos) incrustrados. A ponta de um dos cristais pressiona a junção entre testa e nariz, causando sensação semelhante à daqueles massageadores metálicos de cabeça, enquanto os outros dois me espetam tórax e abdome. Penso em como passaria algumas horas de bom grado naquela posição, por conta do cristal superior.

No entanto, quinze minutos depois sou orientado a me sentar e encarar um rapaz aleatório. Em vez de tentar descobrir se devemos nos comunicar com o olhar de alguma forma, sigo na busca pelo máximo de silêncio. Encaro o moço como teria enfrentado a parede branca saramaguiana. Creio nunca ter ficado tanto tempo sem piscar.

Por fim, deito por meia hora numa cama de madeira. No alto da cabeceira, outro cristal incrustrado, sob o qual posiciono cuidadosamente a cabeça – não posso me levantar bruscamente, tenho que me lembrar disso.

Devo ter dormido. Digo, muita coisa acontece – faço notas sobre a experiência, converso com algumas pessoas, calço os tênis nas mãos e vou para o ponto de ônibus plantando bananeira – até que abro os olhos e percebo que ainda estou deitado. Passo ainda uns vinte e cinco minutos encarando o cristal até o fim do exercício, pensando em como o tempo realmente passa mais rápido nos sonhos.

Finda a experiência, já sem abafadores de som, calço os tênis do modo tradicional e volto em silêncio para casa.

Finda a experiência? Finda mesmo?

Acho que não.

marina

  1. Na descrição de uma das cópias desse vídeo, uma com Coldplay de trilha sonora e em português: “Nos anos 70, Marina Abramovic viveu uma intensa história de amor com Ulay. Durante 5 anos viveram num furgão realizando todo tipo de performances. Quando sentiram que a relação já não valia aos dois, decidiram percorrer a Grande Muralha da China; cada um começou a caminhar de um lado, para se encontrarem no meio, dar um último grande abraço um no outro, e nunca mais se ver. § 23 anos depois, em 2010, quando Marina já era uma artista consagrada, o MoMa de Nova Iorque dedicou uma retrospectiva a sua obra. Nessa retrospectiva, Marina compartilhava um minuto de silêncio com cada estranho que sentasse a sua frente. Ulay chegou sem que ela soubesse…”

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