#leiascifi2015 – O Homem do Castelo Alto #4

em 14 de Abril de 2015

A essa altura do campeonato é quase insano pensar que alguém tenha parado a leitura na página 210 para conversar livremente no clube de leitura virtual. Falta tão pouquinho pro final que é fácil o dedo dar aquela escorregada malandra: sem querer, você finda lendo uma das últimas páginas antes de perceber o erro. Eu poderia simplesmente assumir que ninguém reprimiu a curiosidade – tampouco a vontade de marcar mais um livro como “read” no Goodreads – e todos já leram até o fim.

De qualquer forma, isso não aconteceu por aqui – passo nas mãos o mesmo breu que os ginastas usam nas competições e nem cheguei a olhar para a página 211. Ou seja, sou incapaz de dar spoilers acerca do que se sucede nas páginas seguintes.

Breves notas sobre o seriado

Só extrapolei o dever de casa quando resolvi ver o seriado – quero dizer, o elogiadíssimo primeiro episódio que fez a Amazon encomendar uma temporada completa. O design de produção está de parabéns: fotografia, direção de arte e figurino, efeitos especiais, tudo nos trinques. O roteiro adaptado alterou algumas coisas, a principal consistindo em O Gafanhoto Torna-se Pesado se tornar um filme clandestino. No final das contas, tive sentimentos ambíguos a respeito do piloto: preciso de mais episódios pra saber se gostei da adaptação.

Sobre as primeiras semanas

A trama se adensa. Se na primeira semana, ainda lutamos para decorar nomes e perfis dos personagens, a segunda semana já começa em ritmo acelerado – como Rita andando irritada e incentivando que providências sejam tomadas1. Aos poucos, sabemos mais do I Ching, da importância da historicidade dos objetos, da divisão do mundo (japoneses e alemães em uma versão alternativa da Guerra Fria) da configuração da sociedade e dos preconceitos socialmente aceitos nessa realidade alternativa.

Os personagens fazem planos, nenhum deles muito garantido (apesar das consultas ao oráculo darem alguma indicação nesse sentido), até que surge mais um fator complicador nesse tecido já complexo: o Poderoso Chefão nazista morre. Enquanto um novo líder não é escolhido – será alguém com tendências genocidas, um dos mais carismáticos ou uma pessoa com um mínimo de preocupação humanitária? – essa é mais uma fonte de incertezas.

Já na terceira semana

Como se tanta incerteza não bastasse, alguns personagens são desmascarados – e pouco desconfiam disso. Era Frank Frink, afinal, a pessoa que semeou a dúvida a respeito da autenticidade dos revólveres que Childan vendia em sua loja de antiguidades (Por que ele fez isso? Saberemos um dia? Pareceu um tanto despropositado, não acha?). Mal sabe ele, mas está sendo vigiado. Outro que parece não ter escapatória é o velho japonês (um general, aparentemente), que chega para um encontro com mais de duas semanas de atraso. O que ele planeja? Conseguirá escapar do quinteto nazista?

Nessa terceira semana, pouca coisa acontece. É dado maior espaço para (1) a contextualização da realidade alternativa em que a história se passa, (2) os aspectos metalinguísticos da narrativa – começamos a ter acesso a trechos do romance subversivo – e (3) o desenvolvimento interno dos personagens – há um passeio de carro, um passeio no shopping, algumas ligações, algumas refeições, algumas conversas e muitas divagações.

Vou me ater ao terceiro item antes de voltar aos anteriores. Os personagens pensam, ponderam, analisam, se questionam, refletem: é assim que os conhecemos. Ao mergulharmos em suas mente, vemos que há quem demonstre ser detestável (Childan), quem pareça meio superficial e carente (Juliana) e quem demonstre não ser uma vítima de sua época (Frank e, talvez, Baynes – mas preciso conhecê-lo mais)2.

O que é arte?

Um dos temas que mais me agradaram no romance está diretamente relacionado a Frank Frink. Apesar do livro lido às escondidas ter maior destaque, gostei mais da discussão sobre originalidade e criação quando relacionada ao trabalho do ourives.

– Você sabe o que eu acho? Acho que você assimilou a ideia nazista de que os judeus não podem criar. Que só sabem imitar e vender. Intermediários.

É possível que o amigo tenha exagerado, mas lá pra frente vemos a crise de ansiedade de Frank.

Estou apavorado, ele percebeu. E se Ed não vender nada? E se rirem de nós?
E então?

O questionamento dele vai além da questão racial: é aquela dúvida própria do artista que não sabe se será compreendido em seu tempo. Pensamento muito diferente do de Childan, quando se compara ao casal japonês que o convidou para jantar.

Só as raças brancas têm a faculdade da criação, refletiu. E eu, contudo, membro sanguíneo de uma delas, sou obrigado a me curvar diante desses dois.

O personagem se redime minimamente por conta da reflexão nas últimas páginas que lemos nesta semana.

A vida é curta, pensou. A arte, ou algo que não a vida, é longa, estendendo-se ao infinito, como uma minhoca de concreto. Plana, branca imaculada pela passagem do que quer que seja, de qualquer maneira. Aqui estou eu. Mas não por muito tempo. Pegando a caixinha, guardou a joia Edfrank no bolso do casaco.

Procurei scifi, achei metaliteratura

O bom de O Gafanhoto Torna-se Pesado ser lido pelos personagens de O homem do castelo alto é que rola uma identificação com a experiência. Eles parecem querer explicar o livro que lemos.

– Oh, não – discordou Betty. – Não tem nada de científico. Não se passa no futuro. Ficção científica lida com o futuro, sobretudo o futuro em que a ciência é mais adiantada do que agora. O livro não é nada disso.
– Mas – disse Paul – trata do presente alternativo. Existem muitos livros célebres de ficção científica desse gênero.

É interessante que o “presente alternativo” deles não coincida exatamente com o nosso. Como sempre dizem, o autor d’O Gafanhoto “pensou em tudo” – mais sobre isso depois –, mas o fato é que há muitas variáveis nesse “tudo”. Interessante ver que ingleses e americanos dividiram o mundo, ao contrário dos alemães e japoneses.

Para além disso, há muitos leitores que apreciam a identificação quanto aos hábitos de leitura. Dá para entender a razão do “– Me deixe ler – ela retrucou feroz.” de Juliana, enquanto Joe fica puxando papo, assim como é perfeitamente compreensível a nota sobre livros na listas de mais vendidos.

– Parece interessante. Gostaria muito de lê-lo. Procuro estar em dia com os temas atuais. – Seria apropriado, esse comentário? Confessar seu interesse no livro por estar na moda. Talvez fosse típico de gente de posição inferior. Não sabia, mas tinha a impressão de que sim.
– Não se pode julgar um livro pelo sucesso comercial – disse. – Sabemos disso. Muitos best-sellers são um lixo. Este, contudo… – hesitou.

Lan-lan-language

Metaliteratura me lembra de metalinguagem que me lembra de linguagem que me lembra de alguns dos meus probleminhas durante a leitura.

O primeiro é simples: o PKD parece um pouco porra-louca estilisticamente. Não vê problema algum em misturar, no mesmo parágrafo, descrição do narrador em terceira pessoa, pensamento de personagem e diálogo, sem muitas indicações. É interessante porque quebra expectativas e tenta forçar alguma fluidez entre essas camadas do texto. O ruim é que isso finda confundindo o leitor desnecessariamente – principalmente quando, aqui e ali, há um errinho da revisão relativo à pontuação. Fica difícil descobrir o que foi intenção do autor – provavelmente mantido depois de longas brigas com seu editor original – e o que foi erro bobo.

O segundo é que, nas páginas escolhidas para essa terceira semana em especial, PKD manda a regrinha básica do “Show, don’t tell” – menos explicação e mais ação – pras cucuias. Sim, é legal ver que os “personagens pensam, ponderam, analisam, se questionam, refletem”, mas será que a gente não teria outra forma de decifrá-los? Sim, é interessante ver a configuração do mundo nessa realidade alternativa (estudantes de História devem amar), mas não fica um pouco chato ver os personagens dando “aulinhas” sobre tudo que aconteceu até as coisas ficarem daquele jeito?

O único porém em agir como “sou de fazer, não sou de falar” seria: o romance ficaria consideravelmente mais longo.

E lá vem o papo politicamente correto

Voltemos ao “ele pensou em tudo”. Gostei muito quando, do nada, fomos informados de que o genocídio total dos judeus foi impedido – graças a um bom disfarce e algumas cirurgias plásticas.

Há outros de nós. Está ouvindo? Nós não morremos. Ainda existimos. Vivemos invisíveis.

O probleminha é que a palavra “invisível” me lembrou logo do tema da minha dissertação de mestrado e me fez pensar: será que, quando o autor “pensou em tudo”, ele deu a mínima para aqueles caras com triângulos rosas em campos de concentração nazistas? Sete páginas antes eu tinha a minha resposta.

Aquelas bichinhas SS nórdicas, magrelas e pálidas, nos seus castelos de treinamento na Baviera.

É por isso que eles, as bichinhas da elite da SS, têm aquele sorrisinho afetado angelical, aquela inocência loura de bebê: estão se guardando para a mamãe. Ou uns para os outros.

Não só PKD pareceu não se importar muito com a invisibilidade dessa minoria, como achou de bom tom que o discriminado, o judeu, desprezasse o opressor chamando-o de bichinha3. Ok, ele é um homem de seu tempo – ainda que, por representar a contracultura, eu esperasse mais dele nesse aspecto –, posso deixar essa passar. Seria, afinal, querer demais que ele realmente “pensasse em tudo”.

Mais à frente, por outro lado, o escritor parece se lembrar da política nazista em relação aos homossexuais.

Vamos agarrá-lo hoje de manhã; portanto, esteja preparado. Pode dizer aos japoneses que é homossexual, falsificador ou algo assim. Que é procurado por um crime sério em sua pátria.

O termo fica meio perdido entre outras coisas que chocam mais pelo espaço que lhes é dedicado: os judeus que se disfarçam, os negros escravizados, os chineses sempre nos bicitáxis. Homossexuais não existem, são apenas uma acusação vaga para prender alguém.

Mas essa é uma implicância meio específica e contemporânea. Vejamos como uma maioria – o sexo feminino – aparece no livro.

Acho que a maioria das mulheres deve ser assim. Exigem atenção o tempo todo. São muito imaturas nesse sentido.

– Vamos comprar roupas finas para nós dois – disse ele. – Vamos nos divertir, quem sabe pela primeira vez em nossas vidas. Isso vai impedir que você tenha um chilique.

Só uma mulher conhece as convenções sociais. (…) E precisa de uma garota para isso (…) ele vai me comprar roupas caras e me levar a um hotel de luxo. Todo homem sonha ter uma mulher realmente bem vestida, antes de morrer, mesmo que seja obrigado a comprar-lhes as roupas ele mesmo.

Juliana Frink, eu tentei gostar de você, mas olha onde o teu autor te meteu? Você tem consciência de que não vai ter chance de conversar com mulher alguma e fazer o livro passar no Teste Bechdel? E que você parece ter sido criada segundo o princípio da Smurfette? E que você meio que só importa porque, bem, é uma forma de desenvolver os personagens de Frank e Joe?

E aí as pessoas falam que deixar uma obra muito politizada – ou tentar “pensar em tudo” – dá trabalho e deixa as coisas menos divertidas.

Claro, tem muitas partes fictícias; quero dizer, precisava ser divertido senão ninguém leria. Tem um tema de interesse humano; dois jovens, o rapaz está no Exército Americano. A garota…

E eu respondo: bitch, please.

O que esperar da próxima semana

Deixo a seguir alguns trechos cujo desenrolar espero ver no final do livro. Algo me diz que uma grande surpresa nos aguarda.

Seria uma surpresa e tanto para o Sr. Tagomi, pensou com acidez. Ver-se de repente com uma informação dessa nas mãos. Muito diferente das informações sobre moldes injetáveis…
Talvez tenha um colapso nervoso. Ou revele tudo a alguém do seu grupo, ou se retire; finja, até para si mesmo, que não ouvira nada. Simplesmente se recuse a acreditar em mim. Talvez se levante, se incline e saia da sala, tão logo eu comece a falar.

Não tem importância. Porque ele está aqui. Finalmente. A espera acabou.

Tirou cuidadosamente o objeto da mala, desatarrachou a tampa. Sim, ela tinha uma ponta de ouro. Mas…

Sobre o próximo clube de leitura e o encontro de leitores

Aliás, já decidimos qual será o próximo livro que leremos em conjunto. Chama-se A cidade & a cidade, de China Miéville, lançado no Brasil pela Boitempo Editorial.

E quem morar em São Paulo, já anota na agenda: dia 26/04 faremos nosso encontro presencial na biblioteca Villa-Lobos. 🙂

  1. Você provavelmente nem lembrava mais dela, né? Ela aparece na p. 76.
  2. Eu nem disfarço que o Frank é o meu favorito, né? Mas, ó, tá autorizado defender seu personagem preferido nos comentários, viu?
  3. O uso acrítico do termo “bichinha” ainda é suficiente para eu não ter a mínima vontade de ler um premiado romance contemporâneo brasileiro.

2 comentários para “#leiascifi2015 – O Homem do Castelo Alto #4

  1. Não lembro muito sobre os personagens, além de torcer pela Julia e sentir pena do vendedor de antiguidades (Childan?).
    Tenho duas observações:
    A primeira a respeito da subtrama sobre as antiguidades falsificadas. Alguns dos trechos com considerações sobre esse conluio foram para mim os mais satisfatórios, pois achei uma ideia inteligente do autor, posto que a história do livro é em si uma versão falsificada da história real.
    Isso leva a uma segunda obseervação. Terminei de ler “Seis passeios pelo bosque da ficção” de Umberto Eco, e ele fala muito sobre o conhecimento “enciclopédico” que um leitor traz para a leitura de um romance ficcional. Fico imaginando que ele dedicaria um capítulo inteiro ao Homem do castelo alto. O cenário do romance é inteiramente oposto ao que sabemos ser a versão verídica da história mundial, mas Dick consegue criar com o leitor esse pacto para que aceitemos o mundo que ele nos mostra. No post passado vocês falaram sobre as questões de historicidade. Eu penso que uma das maneiras que o autor encontrou para passar essa ideia de legitimidade foi tratar de histórias simultâneas que se passam no mesmo tempo. Seguindo a ideia de experimento científico do post passado, é como se o experimento fosse relevante por ter uma amostragem maior.

    Abraços,
    Wilson

    • Oi, Wilson!
      Desculpe a demora pra responder! Muito bom ver o seu comentário por aqui! 🙂
      Da primeira vez que li “O homem do castelo alto” essa questão da historicidade passou despercebida. Só agora, na segunda leitura, consegui reparar em todos esses pequenos elementos pelos quais o PKD discute o que é história, qual a função da história, o que significa legitimidade etc. Uma coisa, por exemplo, que reparei: nas últimas páginas do livro, depois que a Juliana já “descobriu” toda a verdade sobre “O gafanhoto torna-se pesado”, o Abendsen simplesmente virá pra ela e pergunta algo como: “e então, quer que eu autografe o livro?”. Putz, depois de toda a discussão sobre o valor das obras para os colecionadores (vide exemplo do isqueiro que estava no bolso do Roosevelt quando ele foi assassinado), não poderia haver maior testemunho de cumplicidade “com os fatos” do que Abendsen se propor a um autógrafo.
      Abraço,
      Gigio

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