Na cama com Paul Thomas Anderson

em 28 de abril de 2015

Há quem diga que não há amor em SP, mas não foi essa a minha experiência. Quando soube que mais um nordestino estava vindo para ficar, a cidade resolveu que me daria as boas-vindas de forma inusitada: uma madrugada cinematográfica com um dos meus diretores favoritos.

Segundo a tradição do cinema Belas Artes, a terceira (ou seria a penúltima?) sexta-feira do mês é dia de maratona noite adentro. Os filmes escolhidos não são aleatórios: ou têm o tema em comum ou pertencem à filmografia do mesmo diretor. Três coisas são certas: pelo menos uma das sessões é uma incógnita – ninguém sabe qual filme será exibido; quando o último filme termina, o metrô já voltou a funcionar; e os bravos que ficam até o final ganham um lanchinho a título de café da manhã.

No dia 20 de março de 2015, foi no Noitão – nome do evento – que se deu a pré-estreia do último filme de Paul Thomas Anderson, Vício Inerente. As três salas que o exibiram projetaram, logo depois, dois outros filmes do diretor – cujos títulos só foram revelados pouco antes da primeira sessão começar.

Especulou-se que toda a filmografia de PTA seria contemplada. Meu combo favorito seria composto por Magnólia (1999) e Embriagado de amor (2002), em detrimento dos outros quatro longas, que vira – Boogie Nights: Prazer sem limites (1997) e Sangue Negro (2007) – e não vira – Jogada de risco (1996) e O mestre (2012). Utilizei-me de todo meu expertise em regra de três para calcular qual sala certamente exibiria Magnólia e comprei meu ingresso.

"Vamos começar o Noitão?"

“Vamos começar o Noitão?”

Sobre Vício inerente

Pense num filme loucaço: é esse. A fotografia é linda – daria para deixar o filme rodando em looping numa tevê da sala em vez de procurar um quadro bonito – e está a serviço da psicodelia dos tempos retratados. Pessoas experientes em (1) maconha e/ou (2) astrologia talvez não se percam tanto durante o filme – não digo que entenderiam mais porque, bem, não sei se é um filme para ser compreendido, se alguém conseguiria filtrar o espírito da época da ação real.

Talvez o ideal fosse rever depois de ler o romance homônimo de Thomas Pynchon1 que o inspirou. Eu abro mão disso ao dizer logo que gostei, mesmo não sendo um connoisseur das áreas citadas. Além disso, admito: é outra coisa ver um PTA novo no cinema, em toda a sua glória.

"Não fala assim que eu fico envergonhado."

“Não fala assim que eu fico envergonhado.”

Sobre Magnólia

Minha regra de três deu certo: o primeiro filme surpresa na minha sala seria Magnólia, um dos filmes2 da minha vida. Eu só acreditei que finalmente veria o filme num telão quando começou a tocar “One”, de Aimee Mann.

E esse foi um dos problemas da sessão. Porque, antes dos créditos iniciais, havia um prólogo: três curtas metragens sobre coincidências que ditam o tom de como as vidas se imiscuem3 umas nas outras, nos montrando como “coisas estranhas podem acontecer”. E esse prólogo simplesmente não foi exibido – segundo a crítica de cinema do Posfácio, experiência semelhante teve quem viu o filme em 1999 4. Não fosse o bastante, a qualidade da projeção era de dvd – e bem sabemos que isso deixou de ser elogio há quase uma década: a legenda estava gordinha demais, as cores apagadinhas. Enfim.

Mas não vim bancar o sommelier de cinema. Até porque, dois minutos depois, pensei: melhor do que ficar indignado é aproveitar o filme. Durante três horas e pouquinho, me dei conta de que não estava de brincadeira quando digo que esse é um dos filmes da minha vida: Phil Parma c‘est moi, Frank T. J. Mackey c’est moi, Stanley Spector c’est moi, Linda Partridge c’est moi, Claudia Wilson Gator – ai, Claudia – como Claudia c’est moi.

Now that I’ve met you would you object to never seeing each other again?

As palavras do policial Jim no finalzinho do filme se misturavam à letra da canção “Save me” (Aimee Mann novamente) e pareciam dirigidas a mim. Precisei de meia hora para me recuperar.

"Olar."

“I know that fell, bro.”

Sobre O mestre

A sessão surpresa logo depois foi a desse filme. Ainda que nunca o tenha visto, fiz o Bartleby e: “I’d rather not to”.

"Começou a ficar com soninho, foi? Guenta que tem mais!"

“Começou a ficar com soninho, foi? Guenta que tem mais!”

Sobre Boogie Nights

Por sua vez, a sala 3 exibia no mesmo horário Boogie Nights. Mudei para essa sala com mais dois amigos: ficamos na primeira fileira, pedindo pra ter um torcicolo.

Sabendo que PTA decidiu partir para o projeto seguinte (Magnólia) como forma de não ter de lidar com a repercussão de Boogie Nights, não surpreende que ele utilize boa parte do mesmo elenco. Ver um filme após o outro gera uma sensação parecida com a de assistir a American Horror Story5, como disse um amigo: você reconhece o ator e acha que, com isso, reconhece também o personagem – até que o desenrolar das cenas demonstra que não sabemos de nada, Jons Snows que somos. O ex-garoto prodígio agora é o marido traído, o apresentador de televisão agora é um produtor de filme pornôs, o enfermeiro agora é o garoto gordinho em busca de amor – ou o contrário, afinal os filmes foram lançados em outra ordem.

O contraste é admirável. PTA sabe das coisas.

Sobre a volta para casa.

Enquanto comia um sonho de valsa e tomava um suquinho triste de abacaxi, constatei: as boas-vindas não poderiam ter sido melhores.

"Que bom que cê gostou. Servimos bem para servir sempre."

“Que bom que cê gostou. Servimos bem para servir sempre.”

  1. Tem resenha do Luciano e do Pips.
  2. Perguntar a alguém o seu (filme, livro, sorvete) preferido é algo que não se faz – muita pressão, desconhecimento do amor equânime (e perfeitamente possível) entre muitas opções que não necessariamente combinam entre si etc. –, mas as pessoas ainda fazem essas perguntas. Há uns dez anos eu decidi que teria sempre uma resposta na ponta da língua para esses casos, seja numa versão mais popular (O casamento do meu melhor amigo, A máquina, flocos) ou numa alternativa mais cult (Magnólia, As horas – ou Cloud Atlas ou Suíte em quatro movimentos ou As incríveis aventuras aventuras de Kavalier e Clay, banana com gianduia).
  3. Desculpem, quis ser chique. Basta trocar por “se metem”.
  4. Pesquisei e não encontrei informação alguma sobre essa tolice de cortar o início do filme. Torço para que isso seja apenas lenda.
  5. Como ninguém tem obrigação de ter visto a série, explico: cada temporada tem uma historinha fechada. Apesar de boa parte dos atores serem os mesmos, cada um interpreta um personagem diferente em cada temporada.

Um comentário para “Na cama com Paul Thomas Anderson

  1. hahaha melhor coisa: esse Paul Thomas Anderson bro.

    Quase me convenceu que valeria a pena ter ficado acordado a madrugada inteira. Principalmente para experimentar esse efeito de transição Magnólia – Boogie Nights… De quebra, ainda fiquei com vontade também de assistir a American Horror Story. 🙂

    Abraço!

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