Êxodo audiovisual

em 29 de Abril de 2015

Fernando Meirelles, diretor paulista de Cidade de Deus (2002) e Ensaio Sobre a Cegueira (2008), entre outros, sempre foi um dos meus realizadores prediletos. Enxergo nele uma capacidade rara para unir elegância estética e sensibilidade humana, em temas e histórias quase sempre muito próximas à realidade brasileira, levadas à grande tela em projetos ambiciosos que quase nunca decepcionam o seu público1.

Embora já prestigiado no mercado, suficientemente conhecido para arrebanhar nomes de peso para seus projetos, há tempos o realizador vem demonstrando cansaço diante do tour de force de se fazer um filme, especialmente para aqueles que, como ele, seguem pelo caminho independente, não oficialmente atrelados a um grande estúdio. Para estes, o processo de captura de recursos torna-se uma exaustiva batalha, uma luta em tentar se inserir em algum edital estatal de fomento ou conquistar parcerias no setor privado – que ainda se mostra resistente ao investimento no Cinema, dado o baixo retorno comercial. No Brasil, o cenário é ainda mais desanimador, com milhares de casos de realizadores em situações ainda mais precárias, justamente por não contarem com o mesmo prestígio internacional de Meirelles, um indicado ao Oscar.

Um dos casos mais emblemáticos desse nosso cenário periclitante (e de como ser criativo para contorná-lo) é o do produtor e diretor Carlos Vinícius Borges, o Cavi, da carioca Cavídeos Produções, que este ano, junto com outros membros do júri do festival documental É Tudo Verdade!, lançou  um abaixo-assinado à Ancine e ao Fundo Setorial, um misto de manifesto de denúncia e pedido de socorro à produção de documentários nacionais: “O documentário brasileiro está em risco! (…) Ano após ano, os editais voltados para o gênero vêm sendo extintos. (…) A lógica do mercado não pode nortear o investimento na produção de documentários”, dizem alguns trechos da carta2.

Uma rápida biografia do rapaz: hoje próximo dos 40 anos, quando jovem Cavi seguia uma carreira no judô e esteve próximo de representar o Brasil nas Olimpíadas de 1996, mas uma lesão no joelho tirou-o do time oficial. Sem perspectivas, decidiu reformar um pequeno espaço que sua família possuía num mercado popular da zona sul carioca, abrindo uma locadora inicialmente especializada em filmes de artes marciais, o único gênero que assistia. Posteriormente se estabeleceu como referência em filmes raros, dos quais começou a gostar, realizando também cineclubes e maratonas cinéfilas. Empreendedor e cada vez mais interessado em cinema, Cavi iniciou uma graduação em audiovisual. Paralelamente à administração do pequeno negócio, começou a realizar pequenos curtas de baixíssimo orçamento, às vezes literalmente sem dinheiro nenhum.

Jump cut para o presente: a Cavídeo Produções é uma incubadora referência para projetos de baixo orçamento, voltada a diretores e roteiristas iniciantes, no melhor estilo glauberocheano de “uma ideia na cabeça e uma câmera na mão”3. Em 2009, Cavi dirigiu a minissérie Mateus, o Balconista, com um ainda desconhecido Mateus Solano (o Felix, da novela Amor À Vida), que se tornou um pequeno viral na telefonia digital, graças a uma parceria firmada com uma companhia de grande porte. Em 2010, engatou o curta-metragem A Distração de Ivan na Semana da Crítica do Festival de Cannes. Em 2011, produziu e dirigiu a incrível quantidade de nove(!) longas metragens, exibindo no Festival do Rio e no de Gramado, onde ganhou cinco Kikitos. Em 2012, concluiu outros dez(!!) projetos de curtas e lançou seu longa-metragem de maior relevância até o momento, Cidade de Deus – 10 anos depois, documentário que investiga a vida atual dos atores amadores que atuaram nesse clássico do Cinema nacional. No ano passado, gravou Faroeste, um projeto original, raro no Brasil (assista ao trailer aqui). Hoje em dia, esforça-se na divulgação e distribuição de seu novo longa-metragem, Um Filme Francês4.

Atualmente, Cavi é convidado frequente dos júris dos mais importantes festivais de cinema do país e também oferece cursos sobre produção de baixo orçamento e formas heterodoxas de distribuição, algo como Como Driblar o Sistema Elitista e Burocratizado da Produção/Distribuição Cinematográfica no Brasil e Fazer Muito Sucesso, em que não apenas ensina a arte que parece ter dominado, como também se mantem atento na busca por projetos interessantes que possa agregar ao guarda-chuva de sua produtora. Foi em um desses cursos que ouvi sua biografia, e recomendo a todos que se interessaram que busquem ouvi-la pessoalmente, na narração muito mais engraçada e emocionante do próprio Cavi 5.

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O realizador Cavi Borges: do judô profissional ao Festival de Cannes.

Voltando ao Fernando Meirelles: essa semana, em entrevista ao site UOL6, o diretor desaguou seu desânimo em relação ao cinema nacional, com suas burocracias atávicas e ineficiências galopantes. Um dos donos da produtora paulista O2 Produções, ele lembrou as bilheterias magras de filmes recentes, como Xingu (2012) e Trash (2014), a despeito de seus elencos fortes e otimistas prospecções de mercado. Diante da insatisfação, Meirelles revelou que a luz no fim do túnel aparece pela televisão e pelos novos meios de distribuição, como a internet. Depois de ter dirigido a fabulosa minissérie inspirada em Shakespeare, Som e Fúria (2009), que infelizmente durou apenas uma temporada, o diretor passou por certo hiato até voltar no ano passado com Felizes Para Sempre?, notabilizado especialmente pelas curvas de Paolla Oliveira7.

Atualmente o diretor assina a minissérie Os Experientes, também na Globo, imediatamente elogiada nas redes sociais por sua qualidade técnica, ótimo roteiro e grandes interpretação das protagonistas, atores da terceira idade que há tempos não apareciam na telinha, como Beatriz Segall, Goulart de Andrade e Wilson das Neves, rendendo ao diretor comentários do tipo: “Meirelles é gênio!”. Para o futuro, Meirelles já anunciou projetos para televisões do Canadá e Inglaterra, confirmando, assim, uma nova fase de sua carreira.

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Ainda que bem experiente na televisão, tendo começado na publicidade e posteriormente assinando a direção do icônico Castelo RaTimBum, da TV Cultura, atualmente o que Meirelles faz nesse meio difere muito de seus projetos iniciais, aproximando-se mais da nouvelle vague, uma nova onda internacional de migração dramatúrgica da tela grande à pequena, ou seja, do Cinema à TV ou internet. Nos EUA, esse movimento pode ser ainda mais facilmente observado, com séries que claramente se distinguem diante das atuais produções hollywoodianas de temáticas requentadas e falta de coragem. O sucesso mundial de Game of Thrones (HBO), a estupenda qualidade de House of Cards (Netflix) e o forte conteúdo psico-sociológico por trás de Black Mirror (Channel 4), são exemplos simbólicos dessa ascensão qualitativa que justificam a forte migração hoje em curso dos staffs e crews do Cinema à TV.

Diante de um crescimento que ainda não demonstra sinais de esgotamento, as produtoras despejam cada vez mais dinheiro em suas produções. Segundo o Washington Square News, “quanto mais popular é o seriado, mais as emissoras estão dispostas a aumentar seu orçamento”. Assim, Game of Thrones, por exemplo, gasta mais de US$ 6 milhões em cada episódio8 e sua campanha de divulgação espalha tantos cartazes pelo mundo, inclusive no Brasil, quanto qualquer filme dos Vingadores ou uma nova produção de, digamos, Steven Spielberg.

Esse é o nível ao qual a televisão chegou. Seguindo essa mesma onda, House of Cards, que segundo o The Wire “quer ser a HBO da internet” (hoje já acho que é a HBO quem começa a querer ser a Netflix da televisão), gasta aproximadamente US$ 100 milhões numa temporada de treze episódios. Ousada, a Netflix planeja fazer pelo menos mais cinco séries dessa mesma proporção, dentre as setenta produções que já anunciou para os próximos dois anos (incluindo as renovações de temporada). Para financiar esse projeto ambicioso, ainda segundo o The Wire, a empresa hoje foca nas possibilidades de incremento de assinatura nos mercados internacionais, como o Brasil, tendo aumentado em 4,9 milhões o número de assinantes só no primeiro semestre deste ano9. Embora não fazendo parte de um grande conglomerado empresarial, como é o caso da concorrente HBO, parte da Time Warner Co., sua estratégia tem se mostrado eficiente e a companhia acaba de superar o valor de mercado das gigantes e antigas CBS e Viacom (dona da Paramount e MTV, entre outros), atingindo um valor correspondente a R$ 100 bilhões.

Ampliando o alcance de suas plataformas e focando em conteúdos originais e ousados, o Netflix veio para causar tumulto no mercado.

Ampliando o alcance de suas plataformas e focando em conteúdos originais e ousados, o Netflix veio para causar tumulto no mercado.

À essa altura já se pode dizer que o novo formato capitaneado pelo Netflix disparou uma nova fase na indústria do entretenimento. Conforme reportagem do jornal O Globo10, outras corporações online também deram sinal verde às suas produções originais, caso da Amazon Instant Video, que tem a estratégia de gravar pilotos de projetos inéditos e oferecê-los gratuitamente (formato “degustação”) em sua página, escolhendo quais shows continuar produzindo a partir da receptividade de cada episódios. Dois casos de recentes sucessos da empresa são Transparent, que levou os Globos de Ouro de Melhor Comédia e Ator de Comédia no ano passado, e O Homem do Castelo Alto, inspirado na obra de Philip K. Dick, atualmente na sessão de leitura coletiva da equipe do Posfácio (#LeiaSciFi2015). Diante disso, outras corporações que também começaram a investir no formato de video on demand são o Hulu e até mesmo a Playstation Network.

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Com novidades de sucesso, como O Homem do Castelo Alto e Transparent, a Amazon produz para competir com a Netflix.

Vê-se, assim, que os impulsos de mudança, crítica e crise manifestados por Meirelles em relação ao Cinema se relacionam com um movimento muito mais global que tenho chamado de êxodo dramatúrgico; um movimento que tem arregimentado para a TV nomes improváveis como Guillermo Del Toro (de O Labirinto do Fauno, 2006) e Woody Allen, outros dois diretores que já anunciaram projetos na telinha, além de Martin Scorsese (Boardwalk Empire), David Fincher (House of Cards) e muitos outros.

Os ventos no mar da dramaturgia parecem ter mudado de direção e hoje sopram mais favoráveis à TV que ao Cinema, que passa por dificuldades tanto no formato quanto no conteúdo. Parte dessa crise, a meu ver, deve-se aos altos preços da operação cinematográfica, desde à produção até o dispêndio do consumidor final diante do preço do ingresso (que em alguns cinemas chega a R$30 a inteira!!!), que se comparado à ampla oferta do mercado negro da pirataria é uma verdadeira burrice. Parte da crise também se relaciona ao fracasso da tecnologia 3D, que, mesmo empurrada goela abaixo pelos grandes estúdios, ainda encontra resistência entre os espectadores (tipo eu). Por fim, parte importante também está na crise de criatividade, que atualmente resulta num enxurrada de revivals dos filmes de sucesso do passado, tendo muitas dificuldades para emplacar novas histórias que marquem nossos tempos – a quantidade de sequências, remakes e reboots é assustadora, a exemplo de Mad Max, Poltergeist, O Exterminador do Futuro: Gêneses, Jurassic World, só para ficar nos lançamentos desses próximos meses.

Em uma entrevista ao Sonhar TV, cujo tema era especificamente a televisão, Meirelles exortou o atual dinamismo desse meio. Diante das maiores ofertas e competição do mercado, as produtoras assumiram o papel corajoso de criar projetos ousados, oferecendo produtos segmentados que, justamente por mirarem em públicos específicos, têm se mostrado muito mais interessantes do que os genéricos projetos da TV aberta. “A TV à cabo não só pode, como deve explorar esses limites que a TV aberta não pode”, diz Meirelles. Para ele, que já pensou em abandonar a carreira, como confessou em entrevista ao programa Sala de Cinema, no SescTV, na televisão o campo dramatúrgico encontra novas searas de exploração, hoje ainda muito mais fortalecidas pelo fato de a tela pequena não ter caído em desuso diante da popularização dos cinemas, espalhados por todo país (embora ainda em número menor do que a demanda) através das redes multiplex. Os espectadores têm se mostrado fiéis à boa dramaturgia, agora diante da possibilidade de vê-la na TV ou no notebook, no tablet ou no celular, deixando-nos com a clara noção de que, no fim das contas, tudo o que se quer é poder ver boas histórias.

Atualmente eu ando muito interessado e acompanhando muitas séries, essas séries que são a última onda da televisão há alguns anos. Eu acho que as séries atualmente estão muito mais interessantes do que longas-metragens. Acho que a dramaturgia de televisão atualmente é mais complexa do que a dramaturgia de longas, por ter [mais] tempo de exposição, de desenvolvimento de muitos outros personagens, muitas outras tramas. A televisão era um entretenimento de consumo rápido, mas hoje já tem um ponta dela que está virando o oposto, quer dizer, está virando um negócio que o cinema tem que aspirar a um dia chegar lá, porque eu acho que já está ficando mais elaborada que o cinema. – Fernando Meirelles

 

  1. À exceção talvez do fraco 360, de 2011, que não funcionou mesmo contando com um elenco estelar, incluindo Anthony Hopkins, Rachel Weisz e Jude Law.
  2. Leia na íntegra aqui.
  3. Curiosamente dizem que a frase mais conhecida do verborrágico Glauber Rocha nunca foi proferida por ele, mas como a história às vezes é subjetiva e simbólica, mesmo qu’ele nunca a tenha proferido, a referência se mantém válida.
  4. Atento às novas mídias como formas baratas e satisfatórias de divulgação, a maioria das obras de Cavi, especialmente os curtas, podem ser vistos em sua página no YouTube.
  5. Ou leia a entrevista que o diretor deu à revista Usina.
  6. Leia a reportagem e Giselle de Almeida na íntegra.
  7. Leia reportagem a respeito aqui.
  8. Veja a reportagem completa do NY Times.
  9. Fonte: Folha Ilustrada, de 18/04/2015.
  10. Fonte: Segundo Caderno, de 18 de abril de 2015, reportagem de Liv Brandão.

2 comentários para “Êxodo audiovisual

  1. Ah claro, se o povo NÃO QUER ASSISTIR, então é culpa do sistema.
    Vamos criar leis para forçar goela abaixo as produções nacionais.

    pff

    • Olá amigo, obrigado pelo comentário.
      As leis de incentivo à produção nacional são uma alternativa válida e que tem reforçado nossa indústria de audiovisual, porque tiram um pouco do espectro “colonizado” de nossas produções.
      A partir do momento que conglomerados estrangeiros decidem operar no país, eles têm de oferecer alguma espécie de contrapartida à nação, até porque recebem incentivos diretos e indiretos para construírem suas fábricas e empresas aqui.
      No caso do audiovisual, o que vimos é que essa “cota” de produções nacionais em cada canal a cabo têm gerado produções interessantes e até mesmo de sucesso que auxiliam no amadurecimento da área. Acho uma medida importante e bem vinda, porque é uma ilusão achar que antes só era produzido o que era bom: pelo contrário, emissoras, produtoras e distribuidoras já enfiaram muitos de seus produtos “goela-abaixo” de audiências internacionais, como a brasileira.

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