Crítica: O Sal da Terra

em 30 de abril de 2015

Informações

  • Título: O Sal da Terra (The Salt of the Earth)
  • Diretor: Juliano Ribeiro Salgado, Wim Wenders
  • Roteiro: Juliano Ribeiro Salgado, Wim Wenders, David Rosier
  • País: Brasil, França, Itália
  • Ano: 2014
  • Elenco:

À primeira vista, há algo de  curioso na forma aparentemente fluida com que Wim Wenders transita entre a ficção e o documentário: sua ficção é pouco realista, de narrativas soltas, planos longos, tempos esticados e estética rebuscada. Todos os recursos que afastam um filme da realidade, todas as preferências que teoricamente afastariam um cineasta do cinema do real. E que de fato, de alguma maneira, afastam. O Wim Wenders documentarista não está interessado no real, mas nos seres humanos que escapam a ele.

Seu primeiro documentário, Um Filme Para Nick, situa-se nos limites do gênero, forçando suas fronteiras. Não é um filme sobre Nicholas Ray nem, apesar do título, um filme para ele. É um filme sobre Wim Wenders para Wim Wenders, para que ele trabalhe a imagem que tinha do amigo e cineasta. Seus documentários seguintes todos são retratos do fazer artístico, do trabalho que leva um homem para além do cotidiano, do ordinário, do real.

Quarto 666 discute as formas do cinema; Pina, os mecanismos de uma revolução na dança; e Tokyo-Ga e Buena Vista Social Club falam ambos de um espaço da memória, já perdido no tempo: o Japão de Yasujiro Ozu e a Havana dos anos 40. O Sal da Terra, embora nasça da mesma intenção, leva o diretor a uma encruzilhada: retrata um artista cujo espaço mágico é exatamente as entranhas da realidade.

Sebastião Salgado tornou-se reconhecido pelos retratos de seres humanos nos cantos mais longínquos e nas condições mais adversas do planeta. Seu trabalho, ao mesmo tempo antropológico e social, montava um panorama do diferente para poder unificá-lo: ele fala das milhões de manifestações de algo que é, no final, comum. Salgado é, a sua maneira, um artista da condição humana, daquilo que nos une, que nos move, que conecta a humanidade ao longo de quilômetros e de séculos: a guerra, o trabalho, a busca por uma identidade e um lugar.

Mas a condição humana é sobretudo uma condição de miséria e de sofrimento e não é possível sair ileso de uma investigação sobre ela. E é essa a história do filme de Wim Wenders: a história de um homem que buscou beleza na realidade e descobriu-se em uma missão impossível.

Salgado foi criticado diversas vezes pela beleza exuberante de suas imagens, mesmo quando seus assuntos encontravam-se na mais profunda miséria. Ao longo do documentário, Wenders mostra um fotógrafo interessado no homem, em seus rostos, em seus ossos expostos pela fome e no ambiente de onde surgiam – a beleza é uma consequência. Há trechos do documentário filmados durante uma expedição de Sebastião Salgado ao círculo ártico, em busca de uma das últimas colônias de leões marinhos. O que esse trecho mostra é um obcecado pela composição, um artista da forma, do quadro. Nesse ponto, Salgado se aproxima fortemente de Wim Wenders.

É uma prova do preciosismo do diretor que quase todo o filme seja feito no mesmo preto e branco de alto contraste que o fotógrafo utiliza. Com a mesma ênfase nos cantos escuros, nos segundos planos e nas texturas. Wim Wenders brinca com tema e retrato e abraça todas as ambiguidades de filmar um fotógrafo. E todas as contradições do projeto de Sebastião Salgado.

Ao extrair beleza da miséria, Salgado contaminou-se tanto com ela que não pôde continuar. Ao fotografar Êxodos, um de seus trabalhos mais ambiciosos, foi às profundezas do sofrimento e não pôde retornar. Curiosamente, sua cura afastou-o da humanidade.

Wim Wenders acompanha então seu personagem ao Instituto Terra, plano experimental de reflorestamento iniciado por Sebastião e sua mulher. Retirado do mundo e envolto em floresta, ele concebe então sua última obra: Gênesis, um retrato da Terra ainda intocada pela civilização ocidental. É como se, de uma forma melancolicamente irônica, Sebastião Salgado confirmasse o projeto dos outros documentários de Wim Wenders: só há arte quando se escapa ao real.

O resultado final é um filme poderoso, mas amargo, sobre o processo criativo, o mundo e a natureza humana. É um filme de dois homens extraordinários, dois artistas poderosos, responsáveis por algumas das imagens mais memoráveis dos últimos anos, e sua paralisia frente ao mundo como é.

Não é insignificante que Wim Wenders não realize um filme de ficção há sete anos e que seu último esforço nesse sentido seja justamente uma reflexão metalinguística sobre um fotógrafo em crise. A narrativa, de alguma maneira, esgotou-se para Win Wenders, e ele a reencontra nos diversos artistas da vida real que transforma em personagens, tão trabalhados por seu olhar quanto aqueles que nascem em seus roteiros.

Um documentário é sempre, de alguma maneira, uma reflexão sobre a impossibilidade da verdade e o labirinto das narrativas. Esse é declaradamente um filme sobre os abismos da arte. Belo e desesperador como é necessário que seja.

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