#LeiaSciFi2015 A Mão Esquerda da Escuridão

em 8 de maio de 2015

Informações

  • Autor: Ursula K. Le Guin
  • Tradutor: Susana Alexandria
  • Editora: Aleph
  • Páginas: 296
  • Ano de Lançamento: 2014
  • Preço Sugerido: R$ 39,90

Abrir o livro de Ursula K. Le Guin, disponível para os brasileiros numa belíssima edição da Editora Aleph, é mergulhar num mundo fantástico muito maior do que 292 páginas poderiam dar conta. De certa forma, a história que temos diante de nós é tão complexa e multifacetada quanto as aventuras de Tolkien e as crônicas de C.S. Lewis, tão grandiosa quanto o universo expandido de Star Wars e as histórias pregressas de Game of Thrones.

Aos 85 anos, vencedora de cinco Locus, quatro Nebulas e dois Hugos, os principais prêmios da literatura fantástica americana, além de recentemente homenageada pelo National Book Award1, a autora é influência crucial para muitos autores que hoje em dia são até mais populares do que ela (de Salman Rushdie a William Gibson, passando por Neil Gaiman e até Hayao Miazaki). Você pode não ter lido nenhum livro da senhora Le Guin (ainda), como eu mesmo até pouco tempo nunca havia feito, mas se gosta dos gêneros de sci-fi e ficção certamente já cruzou com algo inspirado por ela ou criado em sua homenagem.

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A mão esquerda da escuridão é um romance de ficção científica originalmente publicado em 1969 e faz parte do universo expandido do Ciclo Hainish, uma série de histórias, que inclui novelas e contos, iniciada por Le Guin já com seu primeiro livro, Rocannon’s World (1966), porém desenvolvidas de forma esparsa, pouco homogênea, segundo a própria autora. Trata-se de um universo onde há milhares de séculos o povo pacífico do planeta Hain colonizou dezenas de outros planetas, incluindo a Terra, em alguns deles empreendendo experimentos genéticos, como em Gethen, planeta cenário do livro aqui discutido.

No universo Hainish, uma liga interplanetária chamada de Ekumen (outrora League of All The Planets2) funciona como corpo diplomático que busca reintegrar todos os povos humanoides. Representando o Ekumen no planeta Inverno (Gethen no idioma nativo), está Genly Ai (chamado de O Enviado pelos gethenianos), um humanoide “da cor da terra” (p. 117), ou seja, negro, que cai nesse mundo remoto, na periferia do cinturão de Orion, em plena Era Glacial, em meio a 100 milhões de seres assexuados e logo se vê no epicentro de uma crise política sem precedentes. Nesse cenário, o protagonista se torna não só um forasteiro exótico, mas também uma ameaça externa e um pervertido sexual diante dos costumes gethenianos e terá que ter muito cuidado em quem irá confiar.

Não existem animais de grande porte que forneçam carne em Inverno, nem produtos derivados de mamíferos […]. Uma dieta pobre para um clima tão rigoroso, por isso as pessoas se reabastecem com frequência. […] Somente mais tarde, naquele ano, descobri que os gethenianos haviam aperfeiçoado não apenas a técnica de se empanturrar incessantemente, mas também de passar fome indefinidamente (p. 21).

 

Como já deve ter dado para perceber, o universo dessa história é complexo na mesma medida que criativo e interessante: “Karhide não é um país de confortos”, nos diz o protagonista (p.59). Assim, a história nos oferece uma série de regras próprias, como só as ficções bem acabadas o fazem, às quais a autora constantemente nos reintroduz, sem cair na chatice da tutela, a fim de que não nos percamos nas viradas das páginas. Aqui, os dias se dividem em dez partes (horas), têm seus próprios nomes e não se organizam em semanas; dois ciclos de treze dias formam juntos um mês; a própria matemática se organiza sob uma base treze; e a rotação do planeta não é inclinada como a da Terra, mas reta ao ponto de gerar ciclos climáticos globais que preenchem seus quatro continentes (dois deles interligados, Karhide e Orgoreyn, cenários da história) e seu único arquipélago com um gelo tão espesso quanto mortal.

Nada se compara, porém, em termos de complexidade, à constituição sexual desse povo. Em Inverno/Gethen os indivíduos são assexuados: sua potência sexual vive adormecida na maior parte do tempo, se manifestando apenas ao fim dos ciclos de 26 dias, quando eles entram numa fase chamada kemmer (“o cio”, p. 94), que permite a qualquer um assumir tanto a forma feminina quanto a masculina e, assim, acasalar e procriar. “Oitenta por cento do tempo, essas pessoas não têm qualquer tipo de motivação sexual” – observa o visitante (p.96). Dentro dessa realidade, existe uma série de particularismos sexuais3, de modo que “indivíduos normais não têm nenhuma predisposição para um dos papéis sexuais no kemmer: não sabem se serão macho ou fêmea, não têm escolha na questão” (p. 94). Assim, “a mãe de várias crianças, pode ser o pai de várias outras” (p. 95) e à certa altura, até o Rei de Karhide fica grávido (p. 102).

Se você olhar para nós em certos momentos, dependendo de como está o tempo lá fora, já somos andrógenos. – Ursula Le Guin4

 

A partir daí, podemos observar um dos interesses centrais dessa obra, isto é, o interesse de Le Guin em compreender a interferência da sexualidade na formação e desenvolvimento sociais. É importante ter isso em mente quando nos deparamos com uma criação tão inusitada: todo o movimento da narrativa da senhora Le Guin parece estar carregada de genuíno interesse social, antropológico e político. Poderíamos até dizer que, a seu modo, ela é uma cientista social sci-fi. Sua criação gira em torno do interesse em esmiuçar as estruturas de funcionamento da coexistência humana, observar características e padrões do comportamento coletivo, enfim, olhar para além das paredes do edifício da vida social, como diria o sociólogo Erving Goffman. Assim, a profundidade sexual que a autora imprime aos seus personagens ao dar-lhes tal característica, isto é, a androginia (ou ambissexualidade, como ela parece preferir), é quase como a de um cientista no laboratório empreendendo sobre criaturas vivas. Justamente por isso, sua narrativa se torna pulsante e viva, sem nunca escorar-se no dramático; a própria contenção da autora quanto a pendores demasiado emocionais, ou seja, seu “termostato anímico”5 que permeia toda a história, mesmo nas cenas mais críticas, é menos uma falha do que uma ferramenta manejada com habilidade, que nos faz sentir ainda mais vivamente o frio colossal de Gethen.

Tinha meus olhos nas estrelas e não vi que estava pisando na lama – p. 86.

 

Se a primeira parte de A mão esquerda… compreende uma extensa trama de idas e vindas diplomáticas do Enviado/Genly Ai (aquele cujo “nome é um grito de dor”, segundo um dos personagens, p. 222) na hierarquia política de Karhide, com destaque ao Rei e ao primeiro ministro, Estraven, a segunda parte do livro é uma quebra da narrativa que inicialmente nos desorienta, mas logo se mostra promissora e bem-sucedida. Assim, voltando a minha consideração de que Le Guin é uma espécie de cientista social sci-fi (pelo menos neste livro), podemos dizer que a primeira parte da história é mais política e sociológica, enquanto a segunda torna-se inteiramente antropológica – muitos capítulos, assinalados inclusive como “relatórios” em seus subtítulos, se assemelham àquelas observações que os antropólogos fazem em seus famosos cadernos de campo. Reduzindo drasticamente o seu universo narrativo a dois personagens diante de quilômetros e quilômetros de gelo – e consequentemente negando a nós, leitores, uma exploração mais ampla de seu planeta fictício –, Le Guin é inovadora e ousada no trato de sua história, transformando-a por longos capítulos num conto singelo, mas que tem a dizer algo fundamental sobre a humanidade.

Vale lembrar que essa senhora estava escrevendo nos idos anos de 1969, período de efervescência política e social. Ao longo de sua carreira, sua escolha por temas e pela forma de abordá-los, bem como sua exploração psicológica dos personagens, renderam a ela a alcunha (às vezes acusatória) de anarquista e ecologista e também o reconhecimento de ter sido uma das pioneiras do feminismo na literatura fantástica6. De fato, não é difícil encontrar passagens em que se consiga vislumbrar a defesa da liberdade igualitária (“Ninguém aqui fica tão completamente ‘amarrado’ como, provavelmente, ficam as mulheres em outros lugares – psicológica ou fisicamente. Fardo e privilégio são compartilhados de modo bem igualitários…”, p. 97 passim), sem nunca, contudo, cair na panfletagem ou deixar a impressão de manifesto.

Ursula Le Guin põe em nossas mãos, sem dúvidas, uma belíssima criação ficcional, bem elaborada e de amplo alcance, na qual os personagens não são planos ou irreais, mas profundos, interessantes e inseridos numa sociedade única – seguimos página após página para saber mais –, com seu estranho sistema de competição por prestígio (o “shifgrethor”), suas religiões oraculares (como a Handdara), sua constante percepção da Sombra e seu cenário assustador e inóspito à mesma medida que fascinante. Assim, em meio ao gelo, Le Guin expõe o cerne de nossa humanidade.

No princípio não havia nada, senão gelo e o sol […], e não havia sombra. No fim, quando tudo estiver terminado para nós, o sol irá devorar a si mesmo e a sombra engolirá a luz, e não restará nada senão o gelo e a escuridão (pp. 229-230).

 

  1. Vejam seu sensacional discurso de aceitação, com direito a críticas duras ao mercado editorial.
  2. Mais informações sobre essa Liga, sua formação e posterior dissolução, em Rocannon’s World. Mais informações sobre o Ekumen em Winter’s King, Coming of Age in Karhide, The Snobie’s Story e Solitude.
  3. Entre as particularidades sexuais dos gethenianos estariam, entre outras coisas, o fim do problema arquetípico da raça humana, o Mito de Édipo, com o afastamento entre pais/mães e filhos; a ausência de estupro; homossexualidade residual, quase inexistente, e o fim do pendor à guerra (ler mais na página 97, passim).
  4. Citação da “Introdução” (p. 11), originalmente escrito para a edição em inglês de 1976.
  5. Pego esse termo do maravilhoso filme argentino Medianeras (2011), de Gustavo Taretto, que não tem nenhuma semelhança com a obra de Le Guin, mas curiosamente serve bem à ocasião.
  6. De fato, Ursula Le Guin foi não apenas a segunda pessoa a ganhar a dupla de prêmios mais importantes da literatura fantástica, o Hugo e o Nebula, logo após Frank Herbert com o seu clássico Duna em 1966, mas a primeira mulher a receber tamanha distinção (via Shmop.com, veja mais aqui).

3 comentários para “#LeiaSciFi2015 A Mão Esquerda da Escuridão

  1. Achei que o livro fosse fazer parte das discussões mensais! Seria uma boa desculpa para que eu o relesse.
    Em sua resenha eu me peguei pensando em um aspecto a que eu não havia atinado antes. Está tudo ali, a trama, embates entre reinos moldados na medievalidade, intrigas da corte, etc. mas o caminho que Le Guin escolhe para guiar o leitor através da trama é outro. É um caminho de solidão, e a batalha do personagem é antes pela compreensão que pelo poder.

  2. Olá Wilson, obrigado por seu comentário!
    De fato, Le Guin traz uma mistura de elementos que permite reflexões referenciais múltiplas, além de um viés perceptivo particular a cada leitor.
    Mas é justamente isso que fazem os bons livros, não é mesmo?
    E por esse aspecto tão amplo da obra eu já te aviso: não se engane, A Mão Esquerda da Escuridão ainda não está descartada como opção das discussões mensais do Posfacio. Assim sendo, considere essa resenha como um “tira gosto” rsrs

    Abraços!

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