Crítica: ‘Mad Max: Fury Road’ – Who killed the world?

em 28 de maio de 2015

Informações

  • Título: Mad Max: Estrada da Fúria (Mad Max: Fury Road)
  • Diretor: George Miller
  • Roteiro: George Miller, Brendan McCarthy e Nico Lathouris
  • País: Australia e EUA.
  • Ano: 2015
  • Elenco: Tom Hardy, Charlize Theron, Nicolas Hoult, Hugh Keays-Byrne, entre outros

O primeiro filme da saga Mad Max data de 1979, uma produção australiana com menos de um milhão de dólares de orçamento, dirigida pelo estreante George Miller e estrelada por um desconhecido Mel Gibson. A produção era tão precária que de todo o elenco, só Max vestia roupas de couro legítimo, e os carros, tão logo passavam por batidas e capotamentos nas cenas de ação, eram submetidos a rápidos reparos e uma nova camada de tinta para servirem a outras cenas (em algumas sequências é realmente possível ver a tinta fresca se descolando das latarias). Ainda assim, nada disso impediu que o filme se transformasse imediatamente em um clássico, lançando seu protagonista, à época com 21 anos, à categoria de astro e inspirando duas continuações memoráveis. Rendendo mais de US$ 100 milhões ao redor do mundo, Mad Max passou décadas no topo da lista dos filmes mais rentáveis da história, até ser superado por A Bruxa de Blair em 19991.

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Quase quarenta anos depois, o hoje septuagenário George Miller revisita seu universo ficcional, depois de um longo desvio para filmes mais infantis, como Babe, um porquinho atrapalhado (1995) e Happy Feet (2006), com o qual ganhou o Oscar de melhor animação. Diversificado e perfeccionista, Miller é formado em medicina e, diz a lenda, financiou grande parte do primeiro Mad Max com longas horas de plantão numa clínica australiana. Agora, com um orçamento de US$ 150 milhões dos cofres da Warner Brothers2, o diretor nos apresenta um filme arrasador, de ritmo frenético, estética lisérgica e, mais importante, fiel ao personagem e à história que conhecemos lá atrás.

Como bem lembrou o pessoal do Cinema com rapadura, em um ótimo podcast sobre o filme, a saga de Max Rockatansky não se estrutura sobre um grande arco dramático de começo-meio-e-fim. Nesse universo, a jornada do herói é diluída no formato de contos em que cada filme representa uma história independente sobre o protagonista. Assim, não é necessário ter visto os três primeiros para entender a história de Mad Max – Estrada da Fúria, pois o novo filme é mais um conto, independente e autossustentável, e isso é maravilhoso.

Nessa história, Max (agora vivido por Tom Hardy) é capturado e levado a uma cidadela de “kamyicrazies” liderados por Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne), que escraviza belas mulheres (belas até demais, diante daquele universo caótico) a fim de gerar um herdeiro perfeito. Em meio à seca e ao caos, o protagonista é feito de “bolsa de sangue” para um dos Meninos de Meia-Vida, Nux (Nicolas Hoult, da série Skins), e logo se vê parte de uma perseguição alucinante pelas estradas do deserto.

A particularidade desse episódio, o conto nº 4 da Saga Max, é a expansão do universo ficcional criado por Miller. Mesmo que longe de querer nos explicar o que de fato aconteceu com essa Terra pós-apocalíptica (a degradação é apenas remetida, desde o segundo filme, a guerras nucleares entre potências globais, claramente inspirando-se na Guerra Fria, motivadas pela escassez de água e combustível), nesse capítulo o realizador insere uma grande quantidade de novos elementos, dando ainda mais profundidade à mitologia da história. É assim que se constrói, por exemplo, o cenário da Cidadela, cujos habitantes louvam ao Deus V8 – em referência ao motor de oito cilindros, único capaz de sobreviver àquelas condições precárias – e almejam um céu saído diretamente da mitologia nórdica: Valhalla, com seus portões “brilhantes e cromados” (“Eu vivo. Eu Morro. Eu vivo de novo.”). E a partir desses novos conceitos, que só fazem bem à franquia, é que surgem novos e excelentes personagens, como os habitantes das cidades circunvizinhas (cada grupo com características específicas, e às vezes até mesmo novas línguas), as Parideiras de Immortan Joe e a Imperatriz Furiosa, a melhor personagem que o cinema de ação encontra em anos.

Charlize Theron dá vida à verdadeira protagonista dessa história. Se alguns reclamaram que o filme era uma panfletagem feminista mal disfarçada (*male tears*), incitando, inclusive, ao boicote à obra3, o que a grande maioria do público tem encontrado é uma incrível inovação no gênero de ação. Do mesmo modo como a agente Ripley, vivida por Sigourney Weaver em Alien (1979), inaugurou uma estrada nunca antes percorrida para as mulheres nesse gênero, abrindo caminho para Sarah Connor de Linda Hamilton (O Exterminador do Futuro, 1984) e até mesmo para Angelina Jolie em Lara Croft: Tom Raider (2001) e Salt (2010), a Imperatriz Furiosa de Charlize, com seu braço mecânico, seu olhar desolado, sua testa suja de graxa e suas cenas de porradaria, criam um novo paradigma de protagonista feminina.

Assim como havia feito com o primeiro filme, quando, sob influência do punk e do trash,deu início a um novo tipo de filme de ação (The Warriors, O Exterminador do Futuro, Os Goonies e Garotos Perdidos), George Miller reaparece aos setenta anos para reestruturar mais uma vez o gênero, por vezes condimentado pelo formato Marvel e pelo monopólio de realizadores, como Michael Bay (Transformers 1,2, 3….zzZz), Zack Snyder (Batman vs. Superman) e Christopher Nolan (Batman – O Cavaleiro das Trevas).

Já sobre a centralidade das mulheres nessa história, descola a necessidade de exploração sexual da protagonista feminina. Aqui existe uma metáfora clara entre a feminilidade (nas figuras das Parideiras resgatadas pela Imperatriz Furiosa) e a ideia de fertilidade da Mãe Natureza: nesse mundo desolado, de caos e dor infinitas, essas meninas são escravas sexuais de um monstro, Immortan Joe, que busca um herdeiro perfeito, depois de ser pai de um grandalhão abobalhado e de um anão desfigurado. Para além – e evitando spoilers sobre o filme –, há ainda o aparecimento de uma bolsa de sementes, que pode originar o reflorestamento da Terra e é passado de uma mulher a outra, num influxo geracional do qual só as mulheres participam, como que na aurora de uma nova civilização matriarcal. Atentem-se a essas cenas e perceberão que, a seu jeito, Mad Max é sim um filme feminista, ou pelo menos misândrico, porque, no fim das contas, foram os homens que mataram o mundo.

Isso não quer dizer que o Max de Tom Hardy não seja bom. O ator mostra mais uma vez que dá conta do recado, embora pareça ultimamente estar fadado às alterações vocais: assim como seu Bane, de O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2013), Max tem uma voz artificialmente engrossada, um artifício desnecessário. Há quem diga que o Max desse novo filme seja um herói menor, apagado diante da grande Imperatriz, porém, como bem lembrou o pessoal do Jovem Nerd, esse protagonista é um herói de ocasião, que não tem uma grande missão redentora, tampouco é ungido pelo céus, mas apenas frequentemente se encontra no meio de grandes enrascadas, para sua própria desgraça, situações em que geralmente é obrigado a difíceis escolhas morais. Acima de tudo, Max é um louco!

“If you can’t fix what’s broken, you go insane!”

Por fim, quero falar um pouco mais de George Miller, porque ainda impressionado com seu fôlego, criatividade e ousadia. Nessa produção gigantesca, única aposta da Warner para a temporada desse ano de blockbusters, em meio aos grandes lançamentos da Marvel e da volta de Star Wars no fim do ano, Mad Max tem levado legiões aos cinemas do mundo e, no Brasil, conseguiu desbancar o primeiro lugar de Vingadores 2: A Era de Ultron. Sinal do sucesso (merecido) da produção é sua liderança isolada nos acessos do IMDB.com, carregando de carona a página de Mad Max 1 para a sétima posição do índice geral. Em Cannes, onde o novo filme estreou semana passada, a sessão foi interrompida três vezes pelo aplauso dos presentes. Tamanho sucesso se dá pelo trabalho bem feito de uma produção imensa, de centenas de nomes, com destaque para a excelente direção de fotografia de John Seale e a insana edição de Margareth Sixel, esposa de Miller, que passou dois anos montando-o em sua própria casa, bem ao estilo orgânico e analógico de seu marido.

Ainda assim, devemos dar créditos ao diretor. Seu perfeccionismo às vezes arrasta seus projetos por anos. Mad Max: Fury Road, por exemplo, já tinha roteiro pronto em 1999 e teria Mel Gibson mais uma vez no papel do protagonista, mas problemas financeiros e, logo depois, os ataques às Torres Gêmeas, em Nova York, deixaram a conjuntura pesada demais para a história. Alguns anos depois, em nova tentativa, o projeto recebeu sinal vermelho da Warner por causa das complicações da Guerra do Iraque, evitando o desconforto de tratar de temas como o do petróleo. Em 2011, quando conseguiu reunir todo o elenco e equipe e embarcou à sua Austrália natal para finalmente começar a gravar, uma grande tempestade destruiu as locações e, pasmem, fez do deserto, floresta. Incansável, em 2012 Miller decidiu viajar com a equipe à Namíbia, sudoeste do continente africano, onde finalmente conseguiu gritar “ação” pela primeira vez.

Como já falamos praticamente de todos os elementos desse novo filme, agora acho que podemos resumir que o que há de melhor nesse novo Mad Max é o extremo zelo que Miller tem por sua história e o respeito que dedica aos fãs. Retomando antigos elementos dos filmes anteriores – os elementos justamente responsáveis por fazerem desses filmes clássicos –, Miller mostra ser possível manter a mesma qualidade em sequências, se tratadas com carinho, bem pensadas e respeitando o tempo de maturação da história. Assim, mesmo tendo muito mais dinheiro do que tivera com todos os três filmes anteriores juntos, o diretor apostou no mesmo estilo, com as mesmas trucagens de câmera, o mesmo ritmo acelerado (às vezes artificialmente, em flash-foward, uma técnica hoje em dia raramente usada) para reconstruir a mesma ambientação da história que conhecemos nos anos 80, num período em que a técnica só podia oferecer efeitos práticos e um bom diretor era alguém criativo, e não rico. Até mesmos alguns dos antigos atores ele trouxe de volta, sendo o mais emblemático deles Hugh Keays-Byrne, o vilão do primeiro Mad Max, que agora retorna como o icônico Immortan Joe, uma espécie de Darth Vader dos road movies.

Lembrando uma frase célebre de Hitchcok, Miller disse em entrevista que seus filmes são feitos para “serem entendidos no Japão, sem legendas”. Alguns acusam seu novo Mad Max de falta de profundidade, de falta de diálogos ou de ser um mero espetáculo visual. Enganados, talvez, por não perceberem que Miller consegue bem suceder em algo muito difícil, que é contar uma história por meio das cenas de ação, construindo uma ópera pós-apocalíptica sem paralelos até agora.

  1. Fonte: BOSCOV, Isabela. Mad Max. In: Cinemateca da Veja. Abril Coleções. São Paulo: 2008
  2. Fonte IMDB.com
  3. Fonte: O Globo: Mad Max gera polêmica entre ativistas dos direitos dos homens. De 15/05/2015. Leia matéria aqui.

3 comentários para “Crítica: ‘Mad Max: Fury Road’ – Who killed the world?

  1. O texto ficou ótimo, mas vai uma pequena correção: V8 não é o motor de oito válvulas, com esse número de válvulas o carro mal conseguiria ser ligado. V8 é um motor de oito cilindros em V.

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