Cartas de Babel

em 1 de junho de 2015

Como todo ser humano mais ou menos razoável, de tempos em tempos eu tenho dúvidas a respeito daquilo que faço. Por vezes me pego questionando pra que passar tanto tempo debruçado sobre textos que – possivelmente – não interessam ninguém. Afinal, pra que me dedicar tanto a poetas e escritores de países que a maioria das pessoas só acha num mapa com certa dificuldade, cujo idioma parece mais um amontoado de consoantes – isso quando lembra alguma coisa meramente inteligível.

Mas, como qualquer ser humano mais ou menos razoável, de tempos em tempos eu tenho certeza de que isso é a melhor coisa que eu podia fazer pelo mundo – que alguém, com certeza, vai ler aquilo e vai ter uma epifania. Ou que, pelo menos, alguém vai querer me dar uns bons trocados pelo tempo passado derretendo o cérebro contando sílabas poéticas e folheando o dicionário até criar bolhas nos dedos.

Na maior parte do tempo, porém, acho que não acontece nem uma coisa, nem outra. Traduzo, publico em algum lugar – alguma revista literária ou acadêmica, um site – e as pessoas que têm o gosto parecido com o meu, mas que sabem idiomas diferentes, vão ler, curtir, com sorte procurar um pouco mais sobre tal autor (ou não, mas estou imaginando que o meu trabalho e o mundo são mais legais do que realmente são). A maior parte das pessoas vai ignorar minha tradução mais ou menos do mesmo jeito que ignora o original.

De qualquer modo, como eu falei no último texto, não traduzo pra ficar rico ou pra mudar o mundo, faço como reza a cartilha da Spivak e traduzo por amor. Mas, tenho de confessar, não sigo toda a cartilha da feminista pós-colonialista favorita de todo mundo. Lá, no prefácio do Imaginary Maps (uma tradução bem maneira de uns contos ainda mais maneiros da Mahasweta Devi, pro inglês), ela fala umas paradas sobre como você só pode traduzir de um idioma no qual você consiga falar a respeito de coisas pessoais. Aí que a gente discorda. (Ou não exatamente. Cenas dos próximos capítulos.)

O negócio é que eu já traduzi um monte de coisas de idiomas que eu não sabia direito. Eu já estudei uma penca de idiomas. Em alguns deles eu até costumo achar que sou bom de verdade. Mas me mande falar húngaro e eu não consigo nem achar o banheiro. A última vez que tentei falar espanhol eu provavelmente inventei um novo dialeto de português.

Mas tem uma coisa que eu aprendi num dos momentos mais legais e mais constrangedores da minha vida (eu estava em Varsóvia e, meio por acaso, acabei sendo convidado pra ir na casa da Elżbieta Ficowska, sobrevivente do holocausto, pedagoga, ciganista e viúva de Jerzy Ficowski, poeta e tradutor, justamente para trocar uma ideia sobre a obra do sr. Ficowski, enquanto comia um sorvete e frutinhas): você não precisa dominar um idioma para traduzir dele. Você não precisa sequer saber muita coisa pra traduzir desse idioma. O importante é só você conseguir entender alguma coisa ali, ser criativo e ter sensibilidade. Bem, na verdade a frase foi: você não precisa ser bom com o idioma, você só precisa ser um bom poeta. Que eu traduzo como “ser criativo e ter sensibilidade” – já que né, não vou nem comparar as coisas que eu escrevo com as do sr. F.

Claro que é bem mais fácil saber o idioma. Claro que é bem mais fácil ser criativo e sensível num idioma no qual você consegue falar coisas íntimas. Mas não se pode aprender todos os idiomas do mundo tão bem assim, e não dá pra manter meu gosto – e minha vontade de espalhar as paradas por aí – limitado a um idioma só. E não são só o senhor e a senhora Ficowski que concordam comigo: alguém lembra das traduções russas dos irmãos Campos? Eles devem, eventualmente, ter aprendido um russo mais o menos decente, mas pelo que o Boris Schnaiderman fala em algum lugar, eles provavelmente começaram a traduzir antes de decorarem todas as declinações dos substantivos.

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