#leiascifi2015 – A mão esquerda da escuridao #2 e #3

em 19 de junho de 2015

(Este texto continua a discussão de A mão esquerda da escuridão e aborda os capítulos 6 a 15. Leia também a Parte #1.)

62 palavras para a neve

Ler A mão esquerda da escuridão me faz pensar que todo livro deveria vir acompanhado de uma bibliografia. Os romances principalmente. Uma longa lista de livros que, uma vez estudada, permitiria refazer passo a passo o pensamento do autor na construção da história. Haveria, por exemplo, podemos imaginar, um “Manual astronômico dos planetas possíveis”, pelo qual chegaríamos a confirmar o cálculo de que um decréscimo de 8% na irradiação solar em Gethen levaria as calotas polares a cobrir todo o planeta.

(O projeto obviamente esbarraria na dificuldade de acompanhar a formação de cada pronome e de cada artigo na história – cf. Pierre Menard, autor do Quixote.)

De qualquer forma, Le Guin impressiona pela quantidade e a variedade de informações que incorpora à trama, nos mais variados campos: antropologia, biologia, linguística, história comparada, geografia, moda, religião, etc. Tudo isso sem perturbar a leitura com um excesso gratuito de dados (o famigerado info dump). Os oito primeiros capítulos em especial funcionam como uma gradual introdução à estrutura de Gethen: dos costumes de Karhide para a religião/mística do Handdara, passando pelos campos aos pés dos Kargav e seguindo para a burocracia de Orgoreyn.

Mas dois eixos principais orientam o cenário: a sexualidade e o clima glacial. Le Guin dedica o capítulo 7, escrito na forma de um relatório dos primeiros investigadores do Ekumen, à questão do sexo. Na maior parte do ciclo lunar (que em Gethen tem 26 dias), os gethenianos não estão fisiologicamente aptos à relação sexual – são literalmente assexuados. Para citar apenas uma das consequências peculiares, com que o alienígena Genly Ai não cansa de se admirar, está o fato de que um mesmo indivíduo getheniano pode ser pai de algumas crianças e mãe de tantas outras.

A propósito: é interessante ver como Genly Ai induz em seus relatos uma visão masculina dos gethenianos que ele considera “fortes” e feminina para os que considera “dóceis”. Será que ele já havia se perdido desde o início, quando escolheu usar pronomes masculinos, por convenção, para todos os gethenianos na fase assexuada? 1

Mas, como dito ao final do mesmo capítulo, “o fator dominante da vida getheniana não é o sexo ou qualquer outra coisa humana: é seu ambiente, seu mundo gelado.” É isto também o que Le Guin jamais perde de vista, a ponto de descrever de que modo os gethenianos se servem de um apetrecho para quebrar o gelo que se forma nos drinks entre um gole e outro. Esse “mundo gelado” se reflete na fisiologia (os gethenianos desdenham temperaturas próximas de zero), na flora (pouco variada, mas resistente), na fauna (como os “pesthry”, ovíparos vegetarianos de farta pelagem) e em qualquer outro aspecto da vida em Gethen.

Poderíamos até mesmo construir um dicionário de expressões típicas envolvendo neve:

Macular a neve intocada – Investigar, questionar, perseverar.

Muita neve de uma nuvem só – Diz-se da situação que se complica além do esperado. Ex.: A situação no Vale Sinoth fez muita neve de uma nuvem só.

Puxar um trenó junto – Aliar-se, em geral temporariamente.

(Por favor, expandam.)

Entre os outros elementos que Le Guin insere no livro, me pareceu especialmente perturbardora a questão da cronologia. Todos os anos em Gethen são o Ano 1. Como mencionado em outros momentos, a cultura dos gethenianos é essencialmente oral, mas, ainda assim, seria possível um povo tão desapegado pela precisão da história?

De qualquer maneira, o mais interessante nesse caso é perceber o modo como a escritora não apenas inventa novos elementos, mas os coloca em relação com outros aspectos do cenário. Existe, por exemplo, uma motivação religiosa: Meshe, o profeta da principal religião de Orgoreyn, pregava que a vida de cada homem está no centro do tempo. E, como fica claro para o viajante Genly Ai, há também uma motivação cosmológica: entende-se hoje que o universo não tem um centro, o que equivale a dizer que todos os pontos são o centro do universo em expansão.

No final das contas, talvez os gethenianos tenham razão…

***

Estraven, a heróica

Os capítulos da terceira semana deixaram claro (pra mim, pelo menos), que Estraven é a grande heróina da história. Se até certo ponto do livro havia alguma desconfiança a seu respeito, isso ficou pra trás depois que a ex-chefe de Estado atravessou dezenas de quilômetros carregando pares de equipamentos para a neve, invadiu um campo de trabalhos forçados e resgatou o Enviado, que se encontrava à beira da morte. Para isso se utilizou apenas de inteligência, intuição, um pouco de dinheiro, conhecimentos de sobrevivência e força sobre-humana despertada por técnicas ancestrais de meditação.

(Estraven > MacGyver + Rambo + Bruce Wayne)

Se a gradiosidade desses feitos não transparece mais claramente é porque: 1. Estraven, por uma questão de “shifgrethor”, precisa sempre se referir às próprias habilidades de maneira obscura; 2. Genly Ai está sempre perdido na vida. (You know nothing, Genly Ai.)

De fato, o que vai ficando cada vez mais claro no livro é que no centro de tudo há uma grande barreira de comunicação. De um lado, há a dificuldade de Estraven para se expressar diretamente, deixando de lado o shifgrethor. Do outro lado, a incapacidade de Genly Ai em distinguir entre amigos e inimigos, de manobrar na política tanto de Karhide quanto de Orgoreyn e de deixar de lado suas imagens pré-concebidas quanto aos comportamentos típicos de homens e mulheres. Escrito de outro forma, A mão esquerda da escuridão poderia ser um legítimo Orgulho e preconceito espacial.

Parte da distância entre os dois está também no modo como lidam com os próprios papéis na história. Genly Ai sabe que sua missão, de integrar Gethen ao resto da Aliança, está acima que qualquer acontecimento local – está, de fato, acima da sua vida. Por isso trata tudo com certo distanciamento. Já Estraven se concentra sempre no que está ao seu alcance a cada momento: quando é exilada, parte imediatamente; quando está em Orgoreyn e não tem recursos, trabalha como um getheniano qualquer. Genly obviamente está certo, a união ao Ekumen é inevitável (como os Videntes confirmam), mas evidentemente há algo a aprender na maneira de Estraven.

Os exemplos comuns de ficção científica da espécie de A mão esquerda da escuridão seguem dois padrões: (a) aliança galáctica chega à Terra, terráqueos salvam a galáxia (Ex.: MIB, Guardiões da galáxia); (b) aliança galáctica da qual a Terra faz parte chega a outros planetas, terráqueos salvam a galáxia (Ex.: Star Trek, Avatar). No fim, talvez mais até que a representação da vida adaptada a um mundo gelado ou uma nova noção de tempo, o passo mais original de Le Guin seja que aqui os terráqueos não têm vez.

 

Quando cheguei, ele estava pronto. Ninguém mais em Inverno estava. – Genly Ai, sobre Therem Harth rem ir Estraven

  1. Pior ainda é perceber que esse padrão masculino soa natural, enquanto o padrão feminino, usado em Ancillary Justice (que em breve será lançado também pela Aleph), causa, a princípio, confusão.

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