Cama de Gato

em 3 de agosto de 2015

Na morte de 2014 e no nascimento de 2015 – praticamente um natimorto – eu tomei uma decisão (ou seria uma prospecção?) daquelas que ocorrem, estilo epifania/insight, sobre qual seria a minha meta. Nunca fui um fiel às minhas promessas de ano novo. Como diria Guimarães Rosa: “o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam, verdade maior”; e como eu poderia manter uma promessa se dali um mês, quiçá uma semana, ou até na manhã de ano novo, curtindo uma ressaca de cachaça curtida, eu seria outra pessoa? Mas a minha meta foi: o profissional viria antes do pessoal em 2015.

Explico: entre 2008 e 2014 sempre coloquei minha vida pessoal em primeiro plano. Festas? Com certeza. Encontro com amigos? Sim, senhor. Uma desculpa para beber, namorar e não se preocupar com nada? Concordo. A labuta era só uma maneira de administrar essa vida pessoal no financeiro. Afinal, nem todos os amigos querem pagar uma rodada de suco pra galera.

Mesmo com o pé atrás com a tal mudança da pessoa que eu sou, ou achava que era, consegui manter a meta graças a alguns desafios autoimpostos no decorrer do primeiro bimestre. O que me levou a trabalhar com mais conteúdo e menos publicidade – um sonho para muitos da área de comunicação. Muito foco em um único propósito trouxe algumas consequências: insônia, pouco tempo para assistir filmes, saídas com amigos com duração limitada e, claro, menos tempo para ler. Todavia, foi graças a esses esforços redobrados que consegui viajar até a Califórnia pela primeira vez na vida. (Estudei em NY em uma época, mas nunca tinha pisado na Costa Oeste dos EUA.) Arrumei a minha mala com o que eu achava ser o básico e segui para uma viagem de uma semana.

Um fato curioso sobre a Califórnia, pelo menos para mim, é a música que me perseguiu enquanto me preparava para a viagem. Quando eu viajava para Brasília, sempre – sempre –, a música Faroeste Caboclo ficava na minha cabeça (“estou indo pra Brasíííliaaaa / nesse país lugar melhor não há”). Não foi diferente ao saber que iria visitar o estado já governado por Arnold Schwarzenegger. Eram duas músicas em questão: a abertura do seriado The O.C. (California! / California, here we come) e, claro, a música do Dead Kennedys (California! Über Alles! California Über Alles).

Para aproveitar meu único dia de folga, resolvi conhecer o famoso píer de Santa Monica, onde há um parque famosinho, artistas de rua e toda uma cena moderna passando entre as calçadas e à beira da praia. A minha meta era caminhar entre o píer e Venice, apenas para aproveitar o pôr do sol. Como ainda era cedo, dei uma volta pelas ruas como um belo gringo perdido, sem direção ou meta estabelecida. Depois de passar por um calçadão, que me remeteu à Oscar Freire de São Paulo, encontrei um pub.

“Meu deus, eu amo Vonnegut!” (Leia-se isso em inglês.)

Eu tomei um susto, de onde viria aquele cumprimento? Não era um bar temático pelo que pude ver na fachada. Era uma menina de uns 30 anos, com os olhos brilhando e me encarando com um sorriso gigante. Ela apontou para minha camiseta. Sim, eu estava com uma camiseta de Matadouro 5 – a qual de acordo com alguns amigos é minha roupa “padrão”. Após recobrar a consciência, falei para ela que era um dos meus livros favoritos e que pretendia, dali uma semana, fazer uma tatuagem com uma das frases mais emblemáticas do livro (e uma das mais tatuadas do mundo): so it goes. Começamos um pequeno debate sobre como aquela frase era oposta à dela, direto do livro Cama de gato (Cat’s Cradle): eat, drink, and be merry, for tomorrow we die. Ela enfatizava a parte do “for tomorrow we die”.

Entre essas divagações, Café da manhã dos campeões entrou na conversa; um outro cliente – pagando bebida para todos (eu, incluso) – bradou, “Quem diabos era Kurt Vonnegut? Aposto que um hippie qualquer.” Não lembro o nome desse indivíduo, mas com certeza ele não só odiava os hippies, como os negros, os gays e principalmente os latinos. Ele se retratou quando eu falei que era brasileiro. “Mas isso não é ser latino!”, ele tentou consertar. A conversa tomou rumos inesperados e inquietos, passamos de Star Wars para Star Trek, sobre como os Lakers sucks e como era ótimo fazer amigos no balcão de um bar. Do outro lado, a bartender continuava a costurar os assuntos e me dei conta do porquê. Estávamos tão entusiasmados com essas conversas desconexas que nossos pints secavam em questão de dois goles – para mais ou para menos – e ela recebia gorjetas cada vez mais generosas.

Sai de lá trançando as pernas e caminhei de Santa Monica até Venice para testemunhar afinal o pôr do sol (uma caminha de 40 minutos mais ou menos). Passei por skatistas, neo-hippies, surfistas, mexicanos tatuados e com cara de poucos amigos, ouvi brasileiros e continuei meu caminho. Pensei sobre 2014 e antes. A morte de cada ano, a morte de cada expectativa, de cada plano, de cada amizade, de cada amor, de cada domingo. O sol descia lentamente entre os coqueiros e um vento frio vinha do mar, a minha cabeça aquietava aos poucos com uma leve pontada: everything was beautiful and nothing hurt.

So it goes.

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