Crítica: “Narcos” e a Netflixmania

em 23 de setembro de 2015

Vivemos a plena era da Netflix-fever. Com a expansão de suas atividades, maior variedade em sua cartela de filmes e produções originais cada vez mais relevantes (preparem-se, vem aí Beasts of no nation), o canal on demand tem deixado a concorrência, sobretudo a televisiva, de cabelos em pé!

falamos disso por aqui, mais de uma vez na verdade, mas esse é um assunto ao qual voltamos, primeiro, porque atualmente é o de maior relevância em se tratando do audiovisual; segundo, porque tem mudado um paradigma estabelecido há pelo menos cinquenta anos, que tinha a televisão como principal ferramenta de entretenimento da massa ocidental; e terceiro – e mais relevante para este texto – porque a novidade que a Netflix representa tem causado uma euforia apaixonada que às vezes afeta nosso senso crítico, nos pega pelo laço e nos leva de roldão a exageros sobre a perfeição e o estado-de-arte de suas produções.

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Narcos é um projeto inovador e criativo, bem-sucedido ao basear sua trama em torno de um personagem histórico tão polêmico como Pablo Escobar, descentralizando sua ambientação do velho clichê da maioria dos seriados, que teimam em insistir que só nos EUA existem histórias relevantes para serem contadas. Além disso, a produção é um verdadeiro exemplo de cooperação plurinacional, envolvendo equipes, atores e estruturas tanto dos EUA quanto da Colômbia e do Brasil. Nesse sentido, é uma da poucas obras que se esforçam para apresentar uma narrativa compartilhada entre os países das Américas, evidenciando laços históricos e culturais que costumeiramente são deixados de lado.

Encabeçada pelo diretor brasileiro José Padilha, notabilizado pelos filmes Tropa de Elite, a equipe de produção e roteirização conta com outros onze nomes, entre eles Cris Bracatto (da série recentemente cancelada Hannibal) e Dana Ledoux Miller (de The Newsroom), além de quatro diretores, incluindo o brasileiro Fernando Coimbra (O Lobo Atrás da Porta) e o vencedor do Oscar de Fotografia Guillermo Navarro (O Labirinto do Fauno), que se revezam pelos dez episódios da primeira temporada.

Aguardada há meses pelos fãs do canal, que haviam visto a primeira foto de divulgação do show (imagem abaixo) e já ficado em polvorosa, imediatamente após a estreia Narcos provou-se à altura das expectativas. Em termos de quantificação da audiência, a Netflix ainda permanece hermética, porém há indícios de mudanças quanto a isso; no IMDB.com a série aparece com média 9,1, e no Rotten Tomatoes, média de likes em 96%.

NARCOS S01E06 " Eplosivos"

Wagner Moura como Pablo Escobar, em uma das primeiras foto de divulgação da série

Em termos dramatúrgicos, porém, há alguns bons acertos e muitos pequenos erros de estrutura e condução da narrativa, que visa contar a longa e penosa caçada das autoridades internacionais ao traficante de drogas mais conhecido e poderoso da história.

Como a série tem sido escrutinada em (literalmente) centenas de blogs e sites, com muitas críticas e comentários disponíveis na internet, pressuponho que sua história seja bem conhecida e, por isso, vou pular maiores apresentações da trama e partir para minhas críticas e comentários a seu respeito.

Começando pelo começo, há um problema de protagonismo em Narcos: para os espectadores brasileiros é normal que a atenção se volte para o desempenho do nosso Wagner Moura, porém é fácil notar que a estrutura da série indica que seu protagonista é o agente Steve Murphy, vivido pelo ator Boyd Holbrook. Desconhecido do grande público, Boyd vive uma figura real (que aparece nas fotos da abertura) relevante para entender o contexto e o método da guerra às drogas perpetrado pelo governo americano naqueles anos, que infiltrava agentes do DEA nos países latinos, via pressão diplomática sobre os governos nacionais.

É Steve, inclusive, quem tem o papel de narrador da história, reforçando a indicação de que é ele quem está na dianteira. Porém as limitações dramáticas do ator – que é uma espécie de Ryan Gosling com anemia – diminuem o potencial e a energia do personagem. Quando ao lado do carismático Pedro Pascal (que já foi Oberyn Martel em Guerra dos Tronos), que vive seu parceiro Javier Peña, é aí que Boyd some de vez. Até mesmo sua trama paralela, de crise conjugal, à medida que a esposa (Joanna Christie, bem ruim) percebe as graduais mudanças do seu comportamento, não comove e surge apenas como uma chateação pequeno-burguesa.

Há também um problema de escolha de linguagem no roteiro. Aparentemente, diante de duas boas sugestões, uma estrutura documental ou uma ficção pura e simples, os responsáveis optaram pelas duas. O resultado é que às vezes Narcos parece com aquelas minisséries do History Channel sobre o nazismo, em que se usa da reconstituição histórica apenas em pequenas dramatizações e em outros momentos optam por imagens de arquivo. Soa falso ver, por exemplo, o candidato à Presidência Luis Carlos Galán ora personalizado por um ator (Juan Pablo Espinosa), ora apresentado por imagens jornalísticas.

O pior, porém, é quando isso acontece com o próprio Escobar. Wagner Moura não se parece com “el patrón”, mesmo tendo engordado vinte quilos para o papel. Falta um tanto, do figurino à preparação, especialmente quanto aos trejeitos, para que nos convençamos de sua personificação. Sua barriguinha forçada também não ajuda: estufando a pança e envergando as costas para deixá-la mais protuberante, seu personagem fica com um que de Nerson da Capetinga (ou como disse o BuzzFeed Brasil, de Compadre Washington).

Assim, existe uma falha basilar na estrutura de roteiro que é a de não construir um universo coeso o suficiente para que os espectadores relevem possíveis irrealismos casuais (que toda trama tem) e naveguem seguros e cativos por uma narrativa bem montada e coerente. A constante alternância entre imagens de arquivo e imagens ficcionais cria uma quebra na experiência do espectador que, embora incite o interesse pela história da Colômbia (é impossível não correr ao Google ao fim de cada episódio para pesquisar detalhes das passagens narradas, geralmente nos perguntando “Isso foi real?”), prejudica a verossimilhança da série e, pior, compromete o trabalho dos atores.

Já que falamos dos atores, vamos de uma vez por todas ao assunto mais polêmico: Wagner Moura. Não há dúvidas de que nosso soteropolitano seja um grande ator, verdadeiramente um dos orgulhos nacionais quando o assunto é atuação. O ator faz parte de uma nova geração da qual saiu gente dedicada e talentosa, como Lázaro Ramos. Depois do estrondoso sucesso dos dois Tropas…, Wagner Moura começou a se aventurar pelo mercado internacional, tendo feito uma ponta na ficção Elysium (2013), com Matt Damon, e recebido um convite para interpretar il maestro Fellini numa produção que ainda não decolou, até finalmente reencontrar Padilha (que, frustrado com o Brasil, agora mora nos EUA) na produção que lhe daria o papel do icônico traficante colombiano.

O problema é que Wagner não é colombiano. Sim, isso é um problema. Um problema que até a antropologia e os estudos culturais poderiam demonstrar, mas não precisamos ir tão longe, pois os próprios colombianos estão se manifestando (veja aqui e aqui).

De fato é inacreditável que não houvesse um ator natural do país que pudesse interpretar personagem tão mítica. Aliás, já houve, em série muito mais aclamada e satisfatória para os colombianos por ter sido uma produção original do país: Andres Parra em Pablo Escobar: El Patrón del Mal (2012), disponível também na Netflix.

Há também a polêmica quanto ao sotaque do ator, que soa estranho até mesmo para os brasileiros, tanto pela memória de seus personagens por aqui, quanto pelas escorregadas no “portunhol”. Embora o ator se defenda dizendo que existem coisas mais importantes do que o sotaque, os jornalistas culturais daquele país, como Andres Hoyos Vargas, do jornal El Tiempo, vaticinam: “O portunhol de Moura é muito estranho para um espectador colombiano” – diante disso, quem somos nós para negar?

Dessa forma, voltamos ao tema da verossimilhança: há um descolamento de realidade, causado pela escalação de Moura, especialmente pelo personagem ser uma figura da história recente, contendo muitas imagens de arquivo a seu respeito. Assim, embora seja um ator certamente dedicado, que passou mais de seis meses na Colômbia apenas treinando o sotaque e se aprofundando na história, ele não parece ter sido a escalação mais acertada para o papel.

E para não dizerem que eu sou um cão raivoso: a série vai melhorando ao longo dos capítulos e tem seu ápice no oitavo episódio (“La Gran Mentira”), especialmente nas cenas de perseguição dirigidas pelo brasileiro Fernando Coimbra. Como é comum nas séries que iniciam, há alguma demora para encontrar o ritmo mais adequado, começando de forma um tanto quanto frenética (não no bom sentido, mas acelerada mesmo) até se estabilizar. O próprio personagem de Escobar sofre com isso, tendo uma primeira aparição um tanto quanto caricata, exagerando em tentar marcar o ponto de que se trata de alguém poderoso, chegando em cena já com bordões do tipo: “O plata, o plomo!” (imagem acima).

Outro ponto favorável é o bom time de coadjuvantes. Embora caibam críticas quanto à representação das personagens femininas (todas passivas, desinteressantes e burras), o elenco extenso de secundários apresenta alguns bons achados, como o já comentado Pedro Pascal, e também Stephanie Sigman, como a jornalista mancomunada com o trafico, inspirada numa figura real, Juan Pablo Raba, como o amedrontado presidente Gavíria, e até o brasileiro André Mattos (o jornalista Fortunato de Tropa de Elite 2), na série um dos chefes do cartel de Medellín.

Por fim, cabe um grande elogio à abertura, especialmente à música tema, “Tuyo”, interpretada pelo brasileiro Rodrigo Amarante1. É de grudar na cabeça! Veja aqui.

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Assim, Narcos se apresenta como uma produção inventiva, que dá um passo além em relação ao que a Netflix produziu até aqui. O canal on demand, tentando conter a reação de emissoras, produtoras e distribuidoras ao seu estrondoso crescimento (40% ao ano, segundo o Terra), tem investido em produções autorais e diversificadas para se firmar em poucos anos não mais como um centro de distribuição, mas como uma verdadeira e robusta produtora de audiovisual. Só este ano, foram anunciadas sessenta produções originais das Netflix, entre filmes, séries inéditas e novas temporadas – incluindo Narcos, cuja continuação já está garantida, com o rumor (ou ameaça?) de que Madonna estará em sua segunda temporada.

Dessa forma, a série de Padilha faz parte de um projeto maior, certamente louvável e benéfico para o audiovisual – especialmente quando a Netflix anuncia produções nacionais, como acabou de fazer no Brasil com a série 3%. Mas não é por isso que devemos cair num espírito de grouppie, assumindo pra nós qualquer crítica desferida à empresa ou cegando-nos para uma análise crítica e honesta sobre suas produções. Qualquer obra tem seus erros e limitações, e Narcos, assim como House of Cards, Breaking Bad e até a toda poderosa Guerra dos Tronos, não escapa, por isso não é nada grave dizer que seus dez capítulos iniciais mostraram que, embora seja uma produção louvável, está apenas um pouco acima de mediana.

 

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