“Ainda não me vejo como um escritor formado” – entrevista com Rafael Mendes

em 7 de outubro de 2015

Rafael Mendes tem 31 anos e é escritor. Natural de São Paulo, estreou na literatura com o livro de contos A melhor maneira de comprar sapatos, em 2012, pela Confraria do Vento, que foi seguido pela novela Fôlego, em 2014, pela mesma editora.

As reminiscências da infância são uma constante em suas duas obras. Ao ser perguntado sobre o interesse em retratar a vida de suas personagens, sobretudo seus dilemas existenciais, através da ótica de uma criança, o jovem ficcionista, em entrevista exclusiva para o Posfácio, responde:

A infância realmente se destaca nos meus trabalhos publicados, mas não é proposital. A infância, as crianças, apenas compõem as relações familiares que tento abordar. Nos meus contos falo da infância, mas também falo da velhice, da vida adulta. Falo da vida em si. Em Fôlego, a infância é predominante porque o narrador quer contar a história do pai, e este esteve mais presente na infância. É da infância que vem a nossa formação, o que somos. Se quero falar da vida, tenho que falar da infância.

 

Ao ler os seus dois livros nota-se a presença marcante da figura maternal, que acaba por possuir, na grande maioria das vezes, uma forte ligação com as suas personagens; a figura paternal, por sua vez, mostra-se, quando não ausente, autoritária ou fugaz. Para Rafael Mendes trata-se apenas de coincidência, nada ligado a um tipo de obsessão temática:

No meu volume de contos, A melhor maneira de comprar sapatos, a maioria dos pais retratados é mesmo ausente ou autoritário, mas há também pais muitos afetuosos, como os dos contos “Herança” e “Aula prática de jardinagem”.

 

E aponta:

Tenho textos inéditos em que os pais são sim presentes, cordiais. E as mães, nos meus textos, nem sempre são boazinhas.

 

Acrescenta:

O que posso dizer, para desfazer qualquer suspeita, é que meu pai e minha mãe são sujeitos muito queridos, amigos, e que esse é o tipo de pai que tento ser para os meus filhos.

 

Mendes usa um trecho de Proust no epílogo de Fôlego, sua obra mais recente. Sabemos que o escritor de Em busca do tempo perdido é conhecido por falar sobre a temporalidade da experiência humana, sobre essa teia em que estamos inseridos e fincados às veias da memória, da lembrança e da passagem do tempo. De como tudo está inteiramente ligado com o nosso presente. Afinal, somos sempre a construção de tudo aquilo que passamos anteriormente, na maioria das vezes ligados a fatos que marcaram a nossa infância ou adolescência. Ao ser perguntado o que o leva essencialmente ao interesse em resgatar a infância ou a inocência perdida de suas personagens, Mendes responde:

Eu gosto de escrever, ou pelo menos meus textos publicados são assim, sobre a memória. Mas sou relativamente jovem, então, por ora, se quero falar sobre a memória, tenho que falar sobre a infância. A memória compõe esse universo que meus personagens tentam recriar. Importante ressaltar que não é minha memória, mas a memória coletiva, da minha geração, que meus personagens aludem.

 

Alguns dos maiores nomes da literatura mundial reescreveram as suas vidas através de suas obras literárias, como numa espécie de exercício catártico alinhado a um respectivo plano estético. É só pensarmos em nomes como Proust, Joyce, Kafka, Faulkner, entre outros. Ainda que não escreva sobre a sua memória, o entrevistado admite:

Um escritor sempre fala de si mesmo, não importa sobre o quê ou como escreva. Escrevo sobre o meu tempo, a minha geração. Os meus livros publicados não são autobiográficos – possuem elementos do meu universo, como a cidade onde vivo e os acontecimentos históricos, mas não é a minha história. Não é autoficção, ainda.

 

Suas personagens parecem sempre indivíduos tristes ou solitários, inconformados com as suas vidas cotidianas, na maioria das vezes, asfixiadas por uma mediocridade petrificada no seio familiar. Sobre o que lhe inspira a escrever sobre essas famílias e pessoas, ele diz:

Eu gosto de retratar pessoas comuns, em atividades comuns, pois acho que a vida e a sociedade são feitas dessas pessoas. Não tem muito super-herói no dia a dia. A minha literatura só reproduz o que diz a vida. Mas não acho que meus personagens não despertem admiração. A história da literatura está repleta de personagens assim. A Felicité de Flaubert, Julien Sorel de Stendhal, Fabiano e Luís da Silva, de Graciliano Ramos. Os exemplos são muitos. O que atrai esses personagens ao leitor, e que a meu modo tento replicar, são os conflitos internos, os dilemas, inerentes a qualquer ser humano.

 

Além da literatura, o jovem ficcionista trabalha no setor administrativo de uma das maiores redes de livrarias do Brasil, tendo começado como livreiro:

O importante de trabalhar em uma grande livraria é que você passa a entender o outro lado da cadeia. No meio literário se tem por costume maldizer as grandes redes, mas o cenário seria pior se elas não existissem. Isso é uma seara complexa. Para mim, o importante do trabalho de livreiro, que não mais tenho, é o de conhecer bons leitores e livros que até então não tinha acesso.

 

Ainda sobre o seu trabalho como profissional do livro, Rafael Mendes afirma que o que vende no Brasil são os livros de fuga fácil (autoajuda, colorir e entretenimento):

A literatura propõe a reflexão, o debate sobre a sociedade. Não se quer debater aqui, e não se debate porque não fomos ensinados a isto. O problema maior está na educação. Nosso ensino peca muito no desenvolvimento do raciocínio lógico dos alunos, e isso prejudica demais a leitura.

 

Este ano, Rafael Mendes publicou em sua rede social sobre a dificuldade que sentia de se enxergar um escritor, mesmo com o primeiro livro de contos publicado. Quando perguntado sobre essa dificuldade, ele revela:

Ainda não me vejo como um escritor formado. Talvez nunca me enxergue assim. Tem comunidades na internet, para escritores, com mais de dezoito mil membros. São dezoito mil pessoas no Brasil que se dizem escritores. Não sei se quero fazer parte desse número. Acho pretensão demais. Escritor foi Balzac, Poe, Flaubert, Mishima, que deram a vida por isso. Eu prefiro o gerúndio. Digo que estou escrevendo.

 

Ele julga que seu contato com a literatura foi tardio:

Demorei a saber o que era literatura, mesmo. Eu tinha o desejo inocente, na infância e adolescência, de ser escritor, de escrever livros. Mas não sabia o que era literatura. Fui saber com vinte e poucos anos. Leio muito, agora, e essa é a minha busca pelo tempo perdido.

 

Quando tem uma ideia que julga pertinente escrever, ele faz plots, escaletas, sinopses, rascunhos, esboços:

Mas faço tudo isso porque escrever, mesmo, escrevo pouco. Demoro a desenvolver o assunto que quero. Penso demais no que escrever. E não tenho pressa. Gosto do meu processo. Como disse, é o gerúndio que me fascina. Ir escrevendo.

 

Se pudesse convidar um escritor para tomar um café, convidaria o chileno Alejandro Zambra:

Perguntaria um pouco sobre o processo de escrita dele. Amanhã, tomaria um café com outro escritor, e faria a mesma pergunta. E assim vai.

 

Leitor compulsivo, Rafael Mendes afirma que costuma ler vários livros ao mesmo tempo. Do clássico ao contemporâneo. Da safra nacional à estrangeira. Tanto os autores consagrados quanto os mais novos, “colegas com quem possa topar em uma padaria”, ele diz. Em suas leituras se intercalam poesia, conto e teatro. E destaca:

Muito teatro. Esta semana estou lendo August Strindberg.

 

Um livro indispensável em sua vida:

Niels Lyhne, do Jens Peter Jacobsen.

 

Quanto aos planos para o futuro:

Tem um conto meu chamado “O futuro estava muito longe de mim”. É assim que eu gosto de pensar.

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