A ilha é ela mesma, de Thiago Camelo

em 9 de novembro de 2015

por Henrique Amaral

À primeira vista, o título do segundo livro de poemas de Thiago Camelo – A ilha é ela mesma (Moça Editora, 2015) – talvez remeta o leitor, pelo redundante e insular da afirmação, ao lugar-comum do isolamento e, no limite, incomunicabilidade da palavra poética. Como se declarasse: “a poesia é ela mesma”. Essa provável impressão, no entanto, já parece confrontada pela própria organização imagética da capa: sobre o céu noturno de uma fotografia, acenadas por dois longos ramos, as palavras do título delineiam não uma circunferência, modelo da completude, mas um triângulo, espécie de duplo formal da primeira, na medida em que consiste igualmente numa figura simples (a mais simples desde que possua ângulos), porém de outra natureza, não plena e lisa como a da circunferência, mas dura, dobrada.

Abrindo o livro, confirmamos que esse título-triângulo é menos a proposição de um discurso autossuficiente, isolado nas águas do poético, que a explicitação de um prisma, metáfora do ponto de vista que, ao fim e ao cabo, é ele mesmo. A assim reposta insularidade, entretanto, não obsta a que o leitor acesse esse lugar, essa linguagem: ao contrário, ela é mesmo a porta (ou o buraco da fechadura) que franqueia e descortina certo olhar, certo enquadramento da realidade:

Ângulos

seu dente torto é charmoso
seu jeito de ajeitar o cabelo é seu
e poderia falar de tudo
e não seria mentira
mas não é isso

na verdade nunca reparei na sua orelha
não me lembro da sua orelha

eu me lembro de você chegando

O poema parece partir justamente da explicitação dos “ângulos” de que se olha e que recriam, de modo algo cubista, o que é visto. Mas não fica neles. Daí talvez que a lida com essas imagens – de um prosaísmo proposital, por exemplo, nas escolhas de vocabulário (“seu jeito de ajeitar o cabelo é seu”) – não se resolva numa possível enumeração exaustiva (“e poderia falar de tudo”), nem na verificação factual (“e não seria mentira”): “não é isso”. O desenlace se dá pela confissão de uma falha de percepção (“na verdade nunca reparei na sua orelha/ não me lembro da sua orelha”), seguida da afirmação de uma lembrança. Lembrança esta que traz consigo um eu e um você, até então implícitos, distanciados do verbo, respectivamente, por um pronome e uma preposição, como se o ato de lembrar implicasse uma inelutável mediação: “se lembrar de”.

E mesmo a matéria dessa memória é antes um estado, um certo instantâneo de percepção (“chegando”), que propriamente um atributo. No livro, a abertura ao outro – seja este uma pessoa, uma cidade, uma tradição – se dá preferencialmente pelo registro de fragmentos imagéticos, ora imediatos, ora recompostos pela memória, por um eu vigilante, consciente de si. O trabalho maior está na obstinação com que se recolhem esses “Rastros”:

[…]
a vida na obstinação quase imprópria do artesão
que talha como um náufrago
até avistar
intuir nas mãos
os rastros

procura-se fagulha igual todos os dias

num dia de sorte
finalmente
as coisas ficam vivas; um prédio fala com a gente

Concebido dentro do programa Criar Lusofonia, A ilha é ela mesma narra passagens de uma residência artístico-existencial em Portugal, nas quais se misturam os desafios e conquistas mais banais do cotidiano e um diálogo, inevitável ainda que implícito, com a tradição portuguesa. Encontra-se aí certa matriz poética em que a paisagem lusitana, das ruas e dos livros, deixa-se contaminar pela brasileira, e vice-versa. Dispostas lado a lado, “Lisboa” e “Copacabana” imiscuem-se uma na outra, num jogo de luz que retém ambas na passagem do claro para o escuro, do palpável ao memorável:

[…]
a meia-tinta sustenta o céu:
um pré-tudo laranja, leve e urgente
que suspende as dores e acende as luzes
o tempo é palpável
as pessoas fagulham
as coisas cintilam
o olhar excede
o ar sobra nos pulmões
o corpo se equilibra
e quando os átomos começam a desgrudar
anoitece

(“Lisboa”)

o céu come o chão e o mar
e copacabana segue impassível
não clareia, como se fosse possível nunca clarear

(“Copacabana”)

Aquarelas inusitadas em que nem importa tanto a visualidade imediata das coisas, e sim o que as cores suspendem ou sustentam: a medida do excesso em Lisboa confronta-se com a desmedida da contenção em Copacabana, como se de repente a metrópole sempre tivesse sido aqui e um velho do Restelo advertisse, daqui, sobre os riscos da expedição: “mas Copacabana não cede/ contém os avanços/ e grita/ à feição de um sábio bruto/ um conselho”. O diálogo possível está na passagem do claro para o escuro, da transparência do eu à opacidade do outro, numa inversão que carrega consigo a consciência do ponto de vista e, portanto, também dos limites de qualquer aproximação fenomênica, impressionista:

olha-se sempre
toda vista é espera

[…]

de olhos fechados
a vida circula no avesso
o corpo é negro, não reflete
o sangue caminha no escuro
ainda não é vermelho

(“Luz”)

Já que não podemos abolir a reflexão, talvez seja preciso olhar de olhos fechados, para tentar enxergar um mundo em que “as coisas não são tão diferentes da gente/ mas às vezes parecem mais quietas” (“Praça”). É disso que, a meu ver, falam esses poemas de Thiago Camelo, da necessidade de um exercício consciente de abertura, pelo qual quiçá possamos ser-no-outro, exatamente na medida em que sabemos ser-em-si:

Rocha

a ilha é no mar
no vento
no barco
no pássaro
no arquipélago
na terra
mas também, nela

a ilha é ela mesma

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *