Regressar

em 24 de fevereiro de 2016

1.
O Bikram* Yoga surgiu nos anos 70, inspirado no Hatha Yoga.  É uma modalidade praticada em sessões de 90 minutos dentro de uma sala aquecida a 40°C a fim de simular a temperatura e umidade da Índia – soa como Yoga com requintes de crueldade. São 26 posturas, e todas são repetidas precisamente uma vez. Quando entrei em uma sala de Bikram pela primeira vez, senti que estava abrindo os portais do inferno sendo sacaneada pelo próprio Diabo disfarçado de professora com legging de Thai Dhai.

 

2.
A primeira noite que eu passei no Atacama também foi bastante sacana. Cheguei no aeroporto já enjoada. Sentia muita dificuldade mesmo para as coisas mais básicas. Encher os pulmões na cidade de São Pedro era como tentar desligar o respirador que conecta um astronauta à nave em Marte. Isso me deixava preocupada: se eu já estava passando mal no ponto mais baixo que eu dormiria na próxima semana, como eu conseguiria subir um vulcão de quase 6000m?

 

Nas primeiras aulas de Bikram eu sentia que ia, com sorte, desmaiar. Com azar, vomitaria em mim mesma antes de desmaiar. Se isso já não fosse trágico o suficiente, não conseguia parar de pensar nas mini-piscinas de suor alheio que se formavam bem ao meu lado, ameaçando chegar no meu corpo. Não bastava fazer uma postura que parecia uma piada, era preciso repetí-la. Não bastava sofrer em uma aula, era preciso voltar em até 48 horas para garantir que o corpo não retornaria à estaca zero. O corpo tem dessas duas direções: ou volta ou melhora.

 

No Atacama, também me falaram sobre persistir para não voltar ao zero. Disseram que tudo era uma questão de se adaptar. Se eu bebesse água, se eu fosse testando uma altitude maior aos poucos, tudo ficaria bem. O corpo criaria memória e entenderia que já tinha respirado antes naquela altura. O importante era nunca correr rápido demais ou parar de andar para respirar. O importante era não querer correr atrás de uma lhama se você está a 4.000m acima do nível do mar. O importante era ser constante e ter paciência. Tudo ficaria bem.

 

Com o passar das semanas no Yoga e dos dias no Atacama, o corpo foi mesmo respondendo à insistência. Consegui subir o Vulcão Lascar. Comecei a entender a sequência do Bikram e a importância de repetir cada postura: a primeira entrada, de fato, é sempre mais fraca. Na segunda vez, você já está preparado e consegue perceber melhor até onde pode ir. Deixou de ser o inferno  para se  tornar algo realmente  bom. No segundo dia no Atacama, consegui até andar de bicicleta.

 

Mesmo que na vida a gente nem sempre tenha uma métrica física e sensível ao corpo como subir um vulcão ou terminar uma aula de Yoga viva, ainda sim, consigo achar que sempre é possível ver uma certa beleza nos regressos. Posso dizer que sou bastante a favor deles. Queria, por exemplo, poder voltar a todos os lugares que viajei, só para ver o que mudou em cada um deles, ou o que mudou em mim.

 

É como começar um caderno depois de muito tempo sem escrever: suas letras saem tortas, a honestidade é difícil, mais ainda ter o que dizer para as folhas em branco. Mas a cada dia isso vai se tornando natural, menos penoso. E como é bom reler livros de cabeceira, experimentar de novo um prato, reler um textão antes de postar no Facebook, voltar ao médico (é importante, gente). À medida do possível, queria conseguir aplicar o que Viktor E.Frankl ensaiou no Man´s Searching for meaning: “So live as if you were living already for the second time and as if you had acted the first time as wrongly as you are about to act now.”

 

Ainda que essa coluna saia um pouco torta e penosa, ainda que seja difícil recomeçar, posso dizer que é bom estar de volta ao Posfácio. É ainda melhor ter o Posfácio de volta. E que a gente não volte à estaca zero.

 

*Importante dizer que o Bikram Yoga é legal, mas o mesmo não se aplica ao seu fundador.

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