A Flip da falta

em 15 de junho de 2016

“Por que você ainda vem à Flip?”, o Grilo Falante perguntava, insistente, enquanto desembarcava na rodoviária de Paray.

Ok, eu estava muito cansado – não bastava a viagem de madrugada, era necessário um acidente entre o ônibus e um caminhão? – e, pela primeira vez, não ficaria na festa todos os dias, mas isso era irrelevante: se a programação estivesse batuta, um energético seria suficiente para espantar o desânimo. Não estava, contudo. Nenhum nome me fez ficar online no início da venda dos ingressos e, pela primeira vez, fui sem comprar nada antes.

A minha resposta padrão se tornou “porque ela é uma das coisas que salva um ano ruim”. Falar é uma coisa; outra é acreditar no que se diz. Afinal, uma programação legal não foi a única coisa ausente: nesta que chamei de “a Flip da falta” fiquei com saudade de várias coisinhas que extrapolavam o poder de decisão do curador. Faltou a viagem em conjunto, o quarto dividido com a poeta. Faltou festa legal de editora, faltou conversa de madrugada com meu gaúcho preferido. Faltou pão de mel no potão de whey. Repito: faltou pão de mel!

Compareci a duas mesas e mais parecia ter entrado numa música da Rita Lee: uma era sobre amor, outra sobre sexo. Coincidência ou não, uma das poucas (ou teria sido a única?) conversas em que todos os convidados eram mulheres foi justo a respeito de amor e família – se tem uma mesa boa pra mulher é essa, não é mesmo? Ana Luiza Escorel e Ayelet Waldman falaram sobre seus livros, seus processos de criação, suas famílias de escritores. Nas minhas anotações, 41 corações ao redor do nome de Ayelet (sim, contei-os todos) e uma citação (“dos esgares derramados no lençol”) que marca o momento em que desisti de prestar atenção a Escorel – e de ler seu romance.

Eu me perguntei “por que raios as duas estão na mesma mesa?”, uma tão divertida e outra tão, tão… artigo acadêmico com pose de Clarice Lispector? Somente a resposta constava no meu caderninho: PORQUE SÃO MULHERES – assim, em maiúsculas.

Agora, vamos às partes picantes. Na companhia das meninas do Clube do Livro Erótico, acompanhei o papo dos iMoraes, cheios das saliências. Eu até tinha entrado no clima, mas só depois percebi o que as cinco moças ao meu lado já tinham notado desde o início (sou meio lento e foi preciso mastigarem para mim): Eliane e Reinaldo estavam mais preocupados em lerem trechos e flertarem do que propriamente debaterem alguma coisa. Se fosse o lançamento dos livros, ok. Sendo uma mesa na Flip: mé. A coisa desandou depois de a antologista justificar a presença mínima de escritoras em seu livro com… mais do mesmo.

De erótico mesmo, o melhor veio duma produção independente, mais um desses casos em que “se você quer algo bem feito, faça você mesmo”. Não fosse o episódio especial do Clube do Livro Erótico – em que várias pessoas (incluindo Jout Jout e o próprio Reinaldo Moraes) leram trechos eróticos favoritos – esta também poderia ter sido chamada de “a Flip meia bomba”.

Mas nem todo mundo vai nessa por conta das mesas. Há quem genuinamente queira ir à Flip por conta do autor homenageado – caso da moça que melhor editou um texto meu, outra ausência sentida em 2015. Mário de Andrade all around: na decoração, em videozinhos que antecediam os debates, nos títulos das mesas. Teve até um ator (Pascoal da Conceição, o antológico Doutor Abobrinha) vestido a caráter e passeando por Paraty como Mário.mario de andrade

Não sei se é a memória me pregando peças, mas, ao ver o sorriso amarelo do moço quando abordado por um passante qualquer, senti uma baita tristeza. Talvez nem tenha sido coisa de sorriso; talvez eu ainda estivesse no clima do texto de Daniel (“E Mário saiu do armário”).

Foi como se ele estivesse mesmo ali, meio envergonhado (“todo mundo ficou sabendo”), meio pedindo perdão: “Desculpa, eu nem era gay quando cês resolveram me homenagear e acabei aprontando essa palhaçada, né?”. Ele pedindo desculpas e ninguém dando bola – por não ligarem, por viverem num mundo pós-gay em que militância alguma faz sentido, para não darem ibope, por estarem cochichando… vai saber? Deu dó.

Mas, no fim, nem tudo foi insosso. Deu, por exemplo, para seguir indiretamente as outras dicas para salvar um ano ruim: dei um abracinho na Jout Jout, ouvi um tantinho de Taylor Swift (“Red” dessa vez), Vanessa Barbara me indicou uma sorveteria finlandesa excelente e o pouco de carinho de que eu precisava tive numa conversa com a poeta citada acima, a caminho da rodoviária – essas conversas, pelo menos UMA tradição se manteve.

Nada mal para as 41 horas que passei em Paraty.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *